“VOLEUR D’ÉTINCELLES” | Óleo s/ tela, 2022 | Maria Azenha
JAN VOSS
Tal como a poesia, a pintura é um vício solitário. Nascida de uma solidão aceite ou de uma solidariedade desencantada, inventa para si própria e em si própria um comparsa, um companheiro, alguém a quem dirigir a palavra e o gesto. Palavras e gestos, e mais o gesto pressuposto, fazem um teatro. Teatro, porém, que não se basta, e que para existir, para escapar à realidade em que foi concebido, necessita de testemunhas (isto é, espectadores).
Ao convocar os espectadores, o criador não os convida para um colóquio, mas para um espectáculo. Espectáculo necessariamente escandaloso, porque desvelador do mais íntimo, do mais sagrado, do que, ao ser exposto, se torna mais sacrílego. Portador da chama ( “ voleur d’étincelles “ ), o criador transporta também o escândalo.
Espectáculo de gestos feitos a sós, de murmúrios pronunciados em sonhos, ressonâncias audíveis do mar interior, mar negro que explode em cores, que ganha contornos e formas, que se transforma em corpos, em homens que falam, que agem, que representam, que têm uma história e no-la contam. Isto o que eu quero ver na pintura e o que, porque são pintura, vejo nas telas de Jan Voss. Um labirinto, dirão. Mas quem tiver a chave, saberá orientar-se, ainda que à custa de uma certa desorientação inicial. E quem a não tiver, que se perca. De quem a culpa?
–
▪ José Manuel Simões
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sobras Completas”, Editora Abysmo, 2016
(Para fora da vitrina)
É noite
espero-te
fumo
como a chaminé dum hospital
Escrevo
palavras que nadam num aquário
Tenho peças de relógio perdidas nas veias
Sou um colar violento ao teu pescoço de planta
Fumo
e teço um manto de algas
para te cobrir ao menor sinal de chuva
O sangue flui
com os destroços e os ossos das horas
O cigarro pega fogo à noite
–
▪ José Manuel Simões
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sobras Completas”, Editora Abysmo, 2016
Só os paradoxos florescem no campo de batalha.
Quando o comandante mau ordena um ataque
os desertores aumentam o tempo todo
até que o exército se apaga.
Quando o comandante bom ordena um ataque
cada vez mais voluntários se alistam
e a guerra continua.
Mas então o comandante mau é que é bom?
Mas então o comandante bom é que é mau?
–
▪ Anton Helgi Jónsson
( Islândia 🇮🇸 )
Mudado para português do Brasil por Luciano Dutra
Hoje ninguém veio perguntar alguma coisa;
nem nesta tarde ninguém me pediu nada.
Não vi sequer uma flor de cemitério
em tão alegre procissão de luzes.
Perdoa-me Senhor: morri tão pouco!
Nesta tarde todos, todos passam
sem nada me perguntar nem pedir nada.
E não sei o que esquecem e que fica
em minhas mãos tão mal, qual coisa alheia.
Saí até à porta,
tenho vontade de gritar a todos:
Se alguma coisa lhes falta, ela está aqui!
Porque em todas as tardes desta vida,
não sei que portas nos atiram na cara
e algo estranho se apodera da minha alma.
Não veio ninguém hoje;
e que pouco hoje nesta tarde morri!
–
▪ César Vallejo
( Perú 🇵🇪 )
Quem não aparece, esquece
– diz o povo –
mas também aborrece
quem demais aparece,
digo eu.
Por mim não gostava de aparecer nos jornais
nem na televisão constantemente.
O meu nome é meu
e ainda mais o meu eu!
Não gostava de o ver a beber e a brindar
com os que ocupam o palco do acontecer.
Preciso de estar a sós comigo
para ser eu
embora não saiba bem quem é
essa que sou.
O que preciso de escrever a toda a hora
se calhar são mensagens para esse meu
oculto eu
que amo tanto
desde sempre
– e nunca nos vimos cara a cara!
–
▪ Teresa Rita Lopes
( Portugal 🇵🇹 )
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