░ Já não invejo os gatos

Um sai do trabalho
proporcionalmente feliz,
olhos contaminados
e compra uns copos
casualmente dois.
Paga impostos
Recebe más notícias
adquire enfermidades.
Um pensa impropérios
para depois calá-los,
não consegue entender
a íntima relação
entre juventude e morte.
Um estuda filosofia
porque entende que a vida é um trem,
recebe a lição e não a inflama,
um é totalmente livre
para fazer o que quiser
dentro de sua jaula.
Um grita, quer amar,
bebe uma cerveja,
não recolhe as luvas que deus lhe arranca.
Envolve a noite
em folhas de solidão
e se hospeda na beira
de alguma canção.
Um faz isto e crê que é viver,
mas se engana prontamente.
Até que uma mulher o mira
o acalma, o prende
lhe sufoca a vida com o olhar.
Então, um ri de si
controla os gastos
já não inveja os gatos
e irradia amor.
Um parece feliz.

 

_
▪ José María Zonta
(Costa Rica, n. 1961)
Do livro “LA NOCHE IRREPARABLE”, 1984, Editorial Costa Rica

*

Mudado para português _ Gustavo Petter _ Poeta e Tradutor, mora em Araçatuba/SP. Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░  YA NO ENVIDIO A LOS GATOS

 

Uno sale del trabajo
proporcionalmente feliz,
ojos contaminados
y compra unos vasos
casualmente dos.
Paga impuestos
recibe malas noticias
y contra enfermedades.
Uno piensa improperios
para callárselos,
no acaba de entender
la íntima relación
entre la juventud y la muerte.
Uno estudia filosofía
porque entiende que la vida es un tranvía,
recibe la lección y no la enciende,
uno es totalmente libre
de hacer lo que quiera
dentro de su jaula.
Uno grita, quiere amar,
toma una cerveza,
no recoge el guante que dios le tira.
Envuelve la noche
en hojas de soledad
y se aposenta en los bordes
de alguna canción.
Uno hace esto y cree que es vivir,
pero se engaña quedamente.
Hasta que una mujer lo mira
lo aplaca, lo prende,
le atraganta la vida en los ojos.
Entonces uno ríe de sí
controla los gastos
ya no envidia a los gatos
y esparce amor.
Uno parece feliz.

 

_
▪ José María Zonta
(Costa Rica, n. 1961)
Del libro LA NOCHE IRREPARABLE, 1984, Editorial Costa Rica

 

░ Hora de deitar em casa do cientista

 

para Peter

Conta-nos outra vez como é que não há
linhas rectas no universo, embora os anéis de Saturno
se estendam com a espessura de uma moeda por 500.000 milhas.
Conta-nos isso de novo.
Gostamos sempre.

Diz-nos os nomes das luas de Júpiter,
as valências dos átomos de 1 a 103.
Explica-nos o movimento aleatório constante,
os quasares à beira de se tornarem invisíveis.

Mostra-nos, oh por favor, aquela figura
de um mundo espácio-temporal como uma bola medicinal
deixada cair numa rede. Só mais uma vez,
baixinho, como música,
depois dormimos.

 

_
▪ Pat Boran
(Irlanda, n. 1963)
in “O Sussurro da Corda”, Edições Eufeme, Porto, 2018

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░  Bedtime at the scientist’s house

 

Tell us again how the universe contains
no straight lines, though Saturn’s rings
stay coin-thin to 500,000 miles.
Tell us that one again.
We always enjoy it.

Tell us the names of Jupiter’s moons,
the valencies of atoms 1 to 103.
Illustrate constant random motion,
quasars on the brink of invisibility.

And show us, oh please, that picture
of a sapce-time world like a medicine ball
dropped in a net. Just once more,
softly, like music,
then we will sleep.

_
▪ Pat Boran
(Ireland, b. 1963)

 

 

░ HÖLDERLIN

Que haja uma ponte
de pedra. Que a corrente
a abrace carinhosa
pela cintura, e depois se retire
sem dizer nada
e eu fique. Pelas suas areias
circulem carruagens.
Cheguem
com fardos volumosos
e saiam com
os
sacos entre as grades,
de passo bem ligeiro.

E que me trema a mão
ao escrever cartas.

Que o caminho
entre na penumbra
e o arvoredo o oculte de imediato
e a névoa caia
naquele ponto do bosque.

Que a janela de onde vejo isto
dê para fora, não para dentro.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
in “La mirada”, Antología esencial 1982-2017, Fondo de Cultura Económica (FCE), Madrid, 2017

   *

Mudado para português por — Maria Soledade Santos — Poeta, tradutora e professora.
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.

Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



 VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

░ HÖLDERLIN

 

Que haya un puente
de piedra. Que la corriente
lo abrace por la cintura,
cariñosa, y después sin decir nada
se vaya y yo
me quede. Y por su arena
transiten carruajes.
Que entren
con fardos voluminosos.
Que salgan
con los sacos en el adral
y el paso muy ligero.

Y me tiemble la mano
con la que escribo cartas.

Que el sendero
se adentre por la umbría,
y la arboleda
lo oculte de inmediato
y parezca tiniebla
en lugar de aquel bosque.
Que la ventana donde lo contemplo
dé a un afuera y no dé a un adentro.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
in “La mirada”, Antología esencial 1982-2017, Fondo de Cultura Económica (FCE), Madrid, 2017

░ o nó da tristeza

de ter esperado tanto
eu risquei, eu rasguei, eu matei luas
nos abismos perversos
dos espelhos

e dancei na poalha
dos cinzéis
até as mãos chorarem sujas
por entre as fendas
dos muros

 

rasguei-me
na terra e nas árvores
para que da dor que sobrasse
se multiplicassem estátuas de chumbo
de lábios abertos e olhos
gigantes

por onde a escuridão morresse
e deixasse ao uivo dos lobos
a tarefa difícil de murmurar a luz
no coração da terra fria
por entre a água e a pedra
no peito dos pinheiros
por onde rebentavam as manhãs
amenas,

suaves, como eram
as tuas mãos no meu rosto
ou a tua voz de abrigo
quando tropeçava naquela linha
onde se esconde o nó
da tristeza

 

_
▪ Gil T. Sousa
(Vila Nova de Gaia, n. 1957)
in “Água Forte” _ Poesia Reunida _ Editora Urutau, Galiza e Brasil, 2019

░ O passageiro de barbas

Consta que vestia como um operário,
mas a camisa
imaculadamente branca. O chapéu
de abas largas guardava
o crânio do poeta da democracia.
Cantou sozinho,
percorreu léguas, foi quase vadio.
Na sua bíblia os salmos incitam
à fraternidade, à vida plena.
Cantou a saúde e a bondade,
a rebeldia. Cantou o sexo
naturalmente livre e a América
não gostou.
Acabou os seus dias na casita
em Camden, atafulhada de exemplares
de Leaves of Grass
numa rua miserável, fedorenta.

 

_
▪ Isabel de Sá
(Esmoriz, n. 1951)
in “Repetir o Poema”, Edições Quasi, V.N. de Famalicão, 2005

░ Rising

hoje é início de janeiro
mas só consigo escrevê-lo
dois meses depois: morreu
a cantora Lhasa de Sela,
li no canto do ecrã,
assim, em letra corrida,
ainda a manhã mal tinha
chegado às mãos. não era
possível ver ali uma única
palavra com sentido,
‘i was caught in a storm’
e a chuva partia-se fria
contra os olhos.
‘hitting the ground
and breaking and breaking’,
é o que acontece à alma,
em dias destes, quando janeiro
só se pode dizer em março,
sem primavera.

 

_
▪ Renata Correia Botelho
(Açores, n. 1977)
in “Small Song, 2.ª Ed. Rev., Alambique, Lisboa, 2015

░ Optimismo

Tenho vindo a admirar cada vez mais a resiliência.
Não a resistência simples de uma almofada cuja espuma
volta repetidamente à mesma forma, mas a tenacidade
sinuosa de uma árvore: tendo a luz de um lado sido bloqueada não há muito,
vira-se para outro. Uma inteligência cega, claro.
Mas de tal persistência surgiram tartarugas, rios,
mitocôndria, figos – toda esta terra resinosa, que se não retrai.

 

_
▪ Jane Hirshfield
(E.U.A., n. 1953)
in “Given Sugar, Given Salt: Poems”, HarperCollins Publishers, E.U.A, 2001

Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

Optimism

 

More and more I have come to admire resilience.
Not the simple resistance of a pillow, whose foam
returns over and over to the same shape, but the sinuous
tenacity of a tree: finding the light newly blocked on one side,
it turns in another. A blind intelligence, true.
But out of such persistence arose turtles, rivers,
mitochondria, figs — all this resinous, unretractable earth.

 

_
▪ Jane Hirshfield
(E.U.A., b. 1953)
From “Given Sugar, Given Salt: Poems”, HarperCollins Publishers, E.U.A, 2001

 

AO SUL

Ao sul de algum país está a minha casa
com discos de Bob Dylan e Purcell, e facturas,
e pudim de Yorkshire e livros a esperar-me,
e vozes que se cruzam pelos seus aposentos.
Mas o sangue tão frio do jasmim atravessa-me
quando a tarde tomba e escrevo, como agora,
ou pelo meus ausentes me calo no terraço.
Um cão grande acossado ladra no elevador.

 

 

_
▪ María Victoria Atencia
(Málaga, n. 1931)
in “Paulina o El Libro de Las Aguas”, Antologia Poética, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000
Mudado para português por _ José Bento