ANIVERSÁRIO

Hoje fazes anos, Mãe,
não de ter nascido mas de ter morrido.
Não quero fazer contas para saber quantos.
Não é preciso, não te vamos acender velas num bolo
nem cantar os parabéns.
Vamos lembrar-te de ti, eu e os teus netos,
como algo que desapareceu do Universo
que, sem ti, se tornou imperfeito e incompleto.
Só então ficámos mesmo a saber
o que morrer quer dizer
– e como faz doer!
Foi-se a última infância
para os que de nós ainda mantinham essa pele
– as cobrinhas mais jovens da família.
A minha tinha ficado esfarrapada
no arame farpado do exílio
e também dos amores imperfeitos
e desfeitos.
Sei que não morreste infeliz
porque, três meses antes, anunciaste:
“Quero viver ainda mais dez anos!”
O Tempo não te fez a vontade.
“Amaldeçoado!” – se diz na nossa terra algarvia
donde nunca saíste, apesar de teres andado comigo pelo mundo.
Agora onde estarás?
Juro-te que para lá partiria agora mesmo
se soubesse o teu endereço!
Há tanto tempo que não dás notícias!
É a única coisa que me espanta em ti
e não consigo entender nem perdoar!
Será que a morte é o fim?
Mas contigo não deveria ser assim!
Sorrio:
Talvez que esta rima a brincar
Sejas tu a mandar-me sorrisos e beijos!

 

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▪ Teresa Rita Lopes
( Portugal 🇵🇹 )

 

SAI DE CASA

Rasga este poema depois de o leres.
E depois espalha os bocados
Pelo vasto mundo
Ou então na tua rua, vai à aldeia, à praia,
Atira-o ao mar, deita-o ao lixo,
Para que venha o vento, o sol, a chuva, os homens do lixo,
Acabar com ele de vez.
Passado um dia,
Sai de casa e procura
Encontrá-lo de novo.

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▪ Manuel Resende
( Portugal 🇵🇹 )

AUSCHWITZ

Porque e ainda, ainda perdura no discurso de Duma
uma exacerbada violência
acusatória
de impropérios de dilaceração e
despedaçamento — em que o filho a mãe acusa
de ser a tempo inteiro, de ser
Mãe mais que mulher ou amante
amanhecida — aquém e além da luz do dia: a acusa de ser
seu natural direito separar de si o filho. — Somos
programados para nos dissolvermos na origem
em que, por fim, o pó chorará “de alívio”.
Que significado terão hoje os
recentes Anjos da Noite
na claridade e crueldade espantosas
de uma sem lua: ausência sem retorno,
numa dor sem sinal de emoção; de graça e empatia?

 

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▪ Eduarda Chiote
( Portugal 🇵🇹 )
in ‘NERVO / 13 – colectivo de poesia’, Editora Maria F. Roldão, janeiro-abril, 2022

ENVIA-ME UMA CARTA

Envia-me uma carta
Envia-me uma carta, ainda que se perca.
Envia-me velas acesas, não sei,
um monte, por exemplo, que me olhe de cima.
Envia-me sonetos, pergaminhos,
capitéis coríntios que reforcem
esta luz da tarde que resvala.
Alguma coisa de Brahms, o mar e o seu epicentro.
Bandeiras sem manchas de cores,
que se possam pintar como se quiser.
E sobretudo ar, sem condutas, ar livre.
Por agora, a carta, ainda que se perca.

 

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▪ Blanca Sarasua
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por Luis Filipe Parrado

LLUEVE

En la ventana
la calle y la habitación se hacen una.
No hay adentro ni afuera.
La puerta quedó del lado de la lluvia.
Alguien
quedó a la intemperie de sí mismo

 

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▪ Bibiana Bernal
( Colômbia 🇨🇴 )
in “Pájaro de piedra”, Valparaíso Ediciones, Granada, 2020
 

É TEMPO DE NATAL

É tempo de Natal. Exibe-se um pinheiro,
Com lâmpadas de cor, sobre o balcão.
Tem, também, pendurados, a isca do dinheiro
E flocos finos de algodão.

Nas férias, foge a freguesia
Do final das manhãs,
Com os seus kispos disformes, de inflada fantasia,
E o conforto das lãs.

Bebem-se mais bebidas quentes.
O chão, mais húmido, incomoda.
E há apelos insistentes
Do cauteleiro que anda à roda.

Os embrulhos, nas mesas, nos regaços,
Com vistosos papéis,
Florescem de acetinados laços,
Lembram o oiro, o incenso, a mirra, em mãos de reis.

Muitos adultos. Pouca criançada.
Muito cansaço. Pouca animação.
A vida (a cruz!) tão cara, tão pesada!
E dão-se as boas-festas sem se sentir que o são.

Consigo mesa junto à vidraça.
E é em mim que procuro, ou é lá fora,
A estrela que não luz, o pastor que não passa,
O anjo que não vem anunciar a hora?

 

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▪ António Manuel Couto Viana
( Portugal 🇵🇹 )

POEMA DO NATAL

Caíram bombas em Seul, minha mãe
e dizem que não foi ninguém.
Vieram das sete partes da loucura
e em pássaros sombrios
e deitaram bombas em Seul
e não foi ninguém.
– Hoje é Natal, minha longínqua mãe.

Como eu o mundo tem a mãe ausente.
– Seul fica longe
mas é vizinha da nossa alma
amarga e doente…

Não foi ninguém
mas há cravos vermelhos e mortais
nos pulsos das crianças
e enquanto o Natal se pendura
nos pinheiros de todos os pontos cardeais
meteram-se estilhaços
na carne das esperanças
e as mulheres grávidas abrem os ventres
às estrelas das metralhas
e as entranhas estão quentes
de balas e vinganças.

Hoje é Natal e dizem que Cristo nasceu
e nós todos nascemos cada qual em sua cruz…
e depois cuspimo-nos nas caras
e morremos iluminados de pus.

Hoje é Natal, minha mãe
e caíram bombas em Seul
e apesar de não ser ninguém
secaram-se todos os pinheiros da pequena cidade.
– O mundo não tem Natal nem mãe.

 

–
▪ Herberto Helder
( Portugal 🇵🇹 )
in “Eco do Funchal,1953)