¿A QUÉ NECESITO EL AIRE SI NO MUERO?

¿A qué necesito el aire si no muero?
Pero sí la vista para discernir entre el gesto
y la ternura de los dioses –y la elegancia
en el portar su hábito plegado- Necesitaré
ironía para las reconvenciones y un cierto
rubor ante su sabiduría. Querré, además,
guardar memoria de todo ello por lo que
pudiera pasar. Me pondré, para el caso,
mi mejor discreción y el ánimo a punto
con la imaginación desnuda.

Respirando aquí, en la orilla, es
gozoso pensar: ‘lo que será (si acaso)

 
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▪ Ricardo Martínez-Conde
(España 🇪🇸 )
in “El pétalo”
 

NUNCA SOUBE DIFERENCIAR O POEMA

NUNCA SOUBE DIFERENCIAR O POEMA do mundo
nem do meu corpo
mal distingo um cais ou o peso de um entardecer
da pele avultada que arredonda as unhas
mas posso, por exemplo, colocar a palavra ilha
no limite do esterno aonde só chega o ar
e a partir daí, talvez pronunciar povo
muitas vezes, a partir daí
a partir daí: a vida

e o resto céu

 

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▪ Silvia_Penas
( España 🇪🇸 )
in “O resto é céu”, pág. 19, Editora Urutau (Galiza, Brasil, Portugal), 2021

 

UMA CADEIRA

 

( para Caroline Tyssen )

 

Eu já não peço muito:
uma cadeira ao sol
perto da Galileu
uma bica na mesa
dois dedos de conversa
com a Caroline amiga
olhar à minha volta
ver quem está a ler livros
e quem saiu com pressa

 
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▪ Yvette K. Centeno
( Portugal 🇵🇹 )
— inédito —

EN CUANDO EL SOL NOS DA LA ESPALDA EN SU VIAJE

En cuanto el sol nos da la espalda en su viaje
enigmático y familiar, corre el susurro de que
cada cosa habría de recuperar su verdadera identidad
y, en esa limpia postura, habrá de ocupar su lugar
a la espera de la noche.
¿Por qué? (Sería una preguntas, como tantas,
dirigidas al tiempo…)
Porque ha de haber un equilibrio –una íntima armonía-,
porque la noche tiene una entidad tan grande como el
Destino, o casi, y sería una grave vulneración poética no
tomar en consideración esta premisa elemental de que el
gusano ha de estar en su guarida, y el búho vigilante…

 
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▪ Ricardo Martínez-Conde
(España 🇪🇸 )
in “El pétalo”
 

I

Durante essa tua natação de fera oculta
há um papiro que se desdobra na minha boca
e nunca o futuro teve o sabor
de palavras tão sobejamente pronunciadas
família___rapaz___umbigo
palavras com que se poderia redigir
tão pouca coisa
se não fosse a reinvenção da tua chegada
inscrita no mundo como pedra preciosa
que não é pedra
antes um modo inalienável de reluzir
pelas braços fora

Sei que haverás de te deslocar
timidamente
por estas ruas e prédios que bocejam
dos nomes que lhes deram
e que contigo terão uma razão mais forte
para conspirarem na longa malha
inanimada
em que se decidem os bichos
a que chamamos homens
e que tão pobremente os têm
habitado – garanto-te –
à excepção de uma ou outra carne
mais obstinada em escapar
à bala comum

Para tudo isso terás tempo
ainda que rapidamente te dês conta
de que tudo é já tão tarde
eu próprio lamento o tempo que esperei
e que não terei para testemunhar
o incêndio dos teus olhos
o fruto magro que hás-de roer noite dentro
nalgum bairro de pormenor
quando o escasso amor que te deram
for alimento oportuno
de um amor mais desenvolto
– estranho comércio, sim –
o tempo que não terei para nos lançarmos
os dois ao mar
nalguma noite desesperada
partilhando o sal de tudo largar
esse gosto tão raro
tão sigilosamente próximo

Perdoa a falta de graça
o tom melancólico _____ a guerra
mas é que vivo numa época
que como muitas antes dela
repetiu os subsídios ao nojo
bateu o sangue em castelo
para se levar ao forno da ambição
deu uma sova às pequenas respirações
– sim, intersticiais, subtis, difíceis –
sem as quais um corpo é apenas
um estorvo à sua própria morte
percebes isso?
um estorvo à sua própria morte

Porque essas finuras de que te falo
são sem dúvida a única ousadia
frente à inevitável conflagração do espaço
– perdoa uma vez mais, eu reformulo –
tudo isto que ainda não vês mas verás
tudo isto que ainda não tocas mas tocarás
não durará mais do que a sua própria
experiência
e é essa a única lei
e é esse o único hino
país tão desabitado que festejado
cada desembarque como se trouxessem
o oceano

Se a eternidade fosse um espelho
o que mostraria?
Isto agora porque é aqui
que vive a luz e é está a paisagem
que nenhum deus pode apagar
senão à custa da sua fome
não receies por isso deus nenhum
nem eternidade nenhuma
a tua carne é o único tesouro
– sei-o enquanto nadas –
digno de ser embrulhado pela treva

 

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▪ Vasco Gato
( Portugal 🇵🇹 )
in “Fera Oculta”, Douda Correria, Lisboa, 2014

 

ENCONTRO NUMA FESTA EM LONDRES

Durante um minuto permanecemos desconcertadamente juntos.
Perguntas a ti mesmo em que língua hás-de falar-me,
ofereces, antes, uma cebola avinagrada num palito.
És jovem e talvez te esqueças
de que o Império vive
apenas nos sons puros das vogais que te ofereço
acima do ruído.

 

_
▪ Eunice de Souza
( India 🇮🇳 )
in “Rosa do Mundo” [2001 Poemas para o Futuro], Assírio & Alvim, 2001

*

Mudado para português por _ Cecília Rego Pinheiro 🇵🇹  Tradutora e Professora

PÁGINA ANTIGA DE UM DIÁRIO INEXISTENTE

Mandei hoje cortar a araucária do
jardim.
_____Plantei-a ali há cerca de dezasseis
anos. Tinha um palmo de altura, como os
companheiros da Branca de Neve. Cresceu,
agigantou-se, ultrapassou o telhado da casa,
impregnou-se de azul.
_____Há dias, pelo S. João, pousou-lhe nos
ramos ásperos, penetrantes como agulhas,
um balão aceso. Ficou chamuscada, perdeu
a compostura, a elegância. Há nela, agora,
alguns ramos secos. Também em mim algo
vai secando, morrendo.
_____Mandei hoje cortar a araucária do
Jardim…

No mesmo dia

_____Adiei a decisão. Adiei-a, não: anulei-a.
Há feridas que não saram, males para os
quais não há remédio.
_____Ao subir, há pouco, ao terraço, reparei,
ajudado pelos olhos do Frederico e pela sua
sensibilidade ecológica, naqueles ramos
verdes a roçar as telhas. E recuei, então.
Emendei o gesto.
Cresce, minha araucária, cresce! De mim
não se dirá que tirei a vida a quem dei.

__

▪ Albano Martins
( Portugal 🇵🇹 )
in “Assim São As Algas” – Poesia 1950-2000, Campo das Letras, Porto, 2000