░ Poema

Ao início da noite, como agora, um homem está curvado
sobre a sua secretária. Lentamente ergue a cabeça; uma mulher
surge, trazendo rosas.
O seu rosto flutua até à superfície do espelho,
marcado pelos raios verdes dos pés das rosas.

É uma forma
de sofrimento: depois a página transparente
levada sempre à janela até as suas veias aparecerem
como palavras por fim cheias de tinta.

E é minha obrigação compreender
o que as une
ou à casa cinzenta mantida no sítio com firmeza pelo crepúsculo

porque eu devo entrar nas suas vidas:
é primavera, a pereira
a cobrir-se com uma fina camada de flores brancas e frágeis.

 

_
▪ Louise Glück
(EUA, n. 1943)
in “Poems 1962-2012”, Editora Farrar, Straus and Giroux, First Edition, USA, 2012

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░  Poem

In the early evening, as now, a man is bending
over his writing table.
Slowly he lifts his head; a woman
appears, carrying roses.
Her face floats to the surface of the mirror,
marked with the green spokes of rose stems.

It is a form
of suffering: then always the transparent page
raised to the window until its veins emerge
as words finally filled with ink.

And I am meant to understand
what binds them together
or to the gray house held firmly in place by dusk

because I must enter their lives:
it is spring, the pear tree
filming with weak, white blossoms.

 

_
▪ Louise Glück
(USA, b. 1943)
From “Poems 1962-2012”, Farrar, Straus and Giroux, First Edition, USA, 2012

 

░ Este poema tem como hipotexto

Este poema tem como hipotexto
o Florbela Espanca espanca de Adília Lopes
e o Livro de Mágoas da Florbela
não me interessa quanto valem
na cotação da bolsa literária –
ainda não gozei nenhuma e
bolsa que me interesse
só mesmo a do canguru
mas tu não és minha mãe
nem meu pai, ou tia, ou
irmão, pseudo-Electra –
nem do seu mainstream.
Este poema é dedicado
à minha amiga Mónica
que faz ioga aos sábados de manhã,
cabeleireiro e depilação 2 vezes por mês
(cf. poema anterior)
luta contra uma auto-estima precária
mas sabe o que quer
quando lourifica o cabelo
como 43, 33 % das mulheres
com idade > 40 anos,
licenciadas,
em Portugal,
no ano de 2004:

«falar, falar, falar
a este àquele
a toda a gente
e não falar a ninguém»

«Bom dia, meu amor» ou
«Bonjour, tristesse»
como dizia Françoise Sagan
ao seu amante
trocado
por falsos versos.

 

_
▪ Ana Paula Inácio
(Porto, n. 1966)
in “Telhados de Vidro, nº. 9 “, Editora Averno, Lisboa, 2007

░ Aurora Consurgens

veja bem, como poderemos
desafogar o mercúrio, Antonio
se tudo o que temos
são apenas trapos fervidos?
e este vinho
fermentado em plena sexta-feira
poderá por acaso
extrair de nossa loucura
uma lucidez estóica?
os ciganos se vão, Antonio…
as caravanas
o amargo da nectarina velha
até mesmo aquele velho romance
que relemos tantas vezes
por não termos mais que um livro
e um vidro de azeitonas.

o calendário na porta
uma mandrágora seca
para espantar os espíritos
e impedir que as crianças
morram todas
de uma disenteria industrial.
aqui neva,
mas nunca tivemos gelo
ou sequer um recinto
com os mantimentos que duram.
você fuma demais
e bebe exageradamente:
deve ser por isso que neva
mas nunca tivemos gelo.

foi algum conquistador
que esqueceu seu canhão
no deserto em que moramos
e agora as crianças brincam
enfurecendo o espírito ruivo
de um bucaneiro qualquer.
veja como pulam sobre a boca
e testam o eco
sem medo de serem mutiladas.
quando eu crescer serei como elas
só que mais velha
e sem canhão.
serei mais negra também
guardando em cada bolso
uma esperança e uma estrela
(não importa a ordem).

parece um sonho, Antonio
este lugar que moramos
e você fazendo amor:
o vento que abre
tanto as pernas
quanto os demônios que você me ensinou.
agora tenho mais demônios
do que quando casamos.
naquela época eu apenas sabia
que a primeira vez iria doer.
o resto aprendi tudo sozinha.
por isso neva
e nunca tivemos gelo,
apenas o barulho das crianças
e o canhão enferrujado.

veja lá
se encontram um tabuleiro de xadrez.
meu bisavô dizia
que o jogo de xadrez
explicaria a vida
se ele soubesse jogar,
por isso o enterrou bem longe
na esperança que seu segredo
não fosse achado por ninguém.
morreu sabendo apenas
que o peão andava para frente
e era peça
pouco importante.
o sol é longe, Antonio?
pensam que somos pobres
porque somos ignorantes
– eles não sabem
que você é alquimista
e que faremos ouro
com o parafuso da fábrica.

já está noite.
não quero fazer amor.

 

_
▪ Augusto Meneghin
(Brasil SP, n. 1987)
in “O mar sem nós”, Editora Urutau, Brasil SP, 2015

 

░ Violoncelo

Quem não gosta dele diz que é
apenas uma mutação do violino
que foi corrida do coro.
Não é assim.
O violoncelo tem imensos segredos,
mas nunca soluça,
canta apenas na sua voz baixa.
Nem tudo se transforma numa canção,
porém. Às vezes apanhamos
um murmúrio ou um sussurro:
sinto-me sozinho,
não consigo dormir.

 

_
▪ Adam Zagajewski
(Polónia, n. 1945)
in “Without End: New and Selected Poems”, Editora Farrar, Straus and Giroux, EUA, 2002

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão para inglês de Clare Cavanagh



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░  Cello

 

Those who don’t like it say it’s
just a mutant violin
that’s been kicked out of the chorus.
Not so.
The cello has many secrets,
but it never sobs,
just sings in its low voice.
Not everything turns into song
though. Sometimes you catch
a murmur or a whisper:
I’m lonely,
I can’t sleep

 

_
▪ Adam Zagajewski
(Poland, b. 1945)
From “Without End: New and Selected Poems”, Published by Farrar, Straus and Giroux, USA, 2002
Translated, from the Polish, by Clare Cavanagh

 

░ Reencontro

Na noite infinita dos que não têm consolo,
Sob a tremenda luz do suicídio perdem-se
suas palavras talvez, enquanto o gelo range
pelo amor que um dia, por certo, contiveram,
e que agora os levanta – oh, sim: bem lentamente –
até à própria face da Suprema Beleza.

 

__
▪ María Victoria Atencia
(Málaga, n. 1931)
in “El coleccionista”, Antologia Poética , Assírio & Alvim, Lisboa, 2000
Tradução – José Bento

░ Um evangelho úmido

Gostava que o mundo semeasse crimes,
que os sonhos fossem abertos com um machado.
No teatro, galgava o lugar desabado,
a fileira onde se podia fazer amor.
Queria entrar para sempre na fumaça
e desertar os traidores da sombra e da ira.
Sua mãe – não era sua mãe.
Seu pai – não era seu pai, etc.
Assim, para deixar sua casa intacta,
cobriu-a de memórias,
entregou-a ao coveiro mudo.
Era um passageiro, desses que se perdem.
Por isso, podia sempre dizer: “Eu retornei”.

Apreciava mudar as árvores de lugar
e também as montanhas.
Atirava a esmo nos escritórios
e somente distribuía as próprias dívidas.
Era, para as vacas, um novo profeta,
liberto das profecias e sobretudo do futuro.
Seus olhos nunca miravam a alvenaria
ou a engenharia fictícia dos filósofos,
porque ele sabia que o mundo não estava
assentado nas costas de um pote de barro.
Por isso, podia sempre dizer: “Não sou um oleiro
[das coisas”.

Comia as ramagens que se multiplicam,
sobretudo durante a noite.
Não raro seu prato continha vidros de estrela.
Preferia o esquecimento das grandes eternidades
e não se entristecia com a origem de tudo.
Em sua mão, o espaço se inaugurava a partir de um vazio,
como um útero que viesse do céu.
Por isso, podia sempre dizer: “Não sirvo às altitudes”.

 

_
▪ Augusto Meneghin
(Brasil SP, n. 1987)
Poema inédito publicado com prévia autorização do autor

░ UM SENHOR DE AZUL

e de barba por fazer. Aproveita
a época baixa, o desdém
de algum jovem desiludido
para tentar, uma vez mais, o amor.
Passeia sem ninguém a acompanhá-lo.
Dorme pouco. Não teve nada e agora,
na cidade, basta estender a mão:
os livros estão todos, corpos sempre
aguardam nesse bar conhecido.
Basta passar a porta que o faça feliz.
Por isso ano atrás de ano se veste
de azul, descuida o seu aspecto, fuma,
e regressa na época baixa
ao lugar afastado. Tal como então.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
in ”Trípticos Espanhois 2º VOLUME”, Editora Relógio de Água, 2005, Lisboa

Mudado para português por _ Joaquim Manuel Magalhães _ (Ensaísta, poeta e professor catedrático na Faculdade de Letras de Lisboa)

░ No fogo das estradas é que

No fogo das estradas é que
o medo de ter
tempo de mais as mãos pousadas
no amor nas espáduas
na amargura do rio
é que molhar as mãos
na água dos joelhos e andar
um pouco mais ainda sobre o fogo
das pernas e alcançar a terra
o ar do tronco o vapor o
movimento infindável do corpo em torno
do amor é que o mar as estradas
é que a locomoção por sobre a mágoa
no fogo das estradas é que tudo
se pode incendiar

 


▪ Gastão Cruz
(Portugal, n. 1941)
in “Poemas de Gastão Cruz”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005