░ ÉPOCA DE CRISE

Este edifício tem
os tijolos ocos,
sabe-se tudo
uns dos outros,
aprende-se a distinguir
as vozes e os coitos.
Uns aprendem a fingir
que são felizes,
outros, que são profundos.
Às vezes, algum beijo
dos andares de cima
perde-se nos apartamentos
de baixo,
e é preciso descer para o recuperar:
“O meu beijo, por favor,
se tiver a gentileza.”
“Guardei-lho em papel de jornal.”
Um edifício tem
a sua época de ouro,
os anos e o desgaste
roubam-lhe a espessura,
assemelham-no
à vida que passa.
A arquitectura perde peso
e ganha hábitos,
ganha decoro.
A hierarquia das paredes
dissolve-se,
o tecto, o chão, tudo
se torna côncavo,
é quando os jovens fogem,
dão a volta ao mundo.
Querem morar em edifícios
virgens,
querem por tecto o tecto
e por paredes as paredes,
não querem outro género
de espaço.
Este edifício não satisfaz
ninguém,
está na sua época de crise,
se é para ser demolido havia
de ser agora,
depois vai ser difícil.

 

_
▪ Fabio Morábito
(México, n. 1955 no Egipto )
in “Un Náufrago Jamás Se Seca” Antología, Ediciones Gog Y Magog, Argentina, 2011

Mudado para português por – Maria Soledade Santos (Poeta e Tradutora). Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ ÉPOCA DE CRISIS

 

Este edificio tiene
los ladrillos huecos,
se llega a saber todo
de los otros,
se aprende a distinguir
las voces y los coitos.
Unos aprenden a fingir
que son felices,
otros que son profundos.
A veces algún beso
de los pisos altos
se pierde en los departamentos
inferiores,
hay que bajar a recogerlo:
“Mi beso, por favor,
si es tan amable”.
“Se lo guardé en papel periódico”.
Un edificio tiene
su época de oro,
los años y el desgaste
lo adelgazan,
le dan un parecido
con la vida que transcurre.
La arquitectura pierde peso
y gana la costumbre,
gana el decoro.
La jerarquía de las paredes
se disuelve,
el techo, el piso, todo
se hace cóncavo,
es cuando huyen los jóvenes,
le dan la vuelta al mundo.
Quieren vivir en edificios
vírgenes,
quieren por techo el techo
y por paredes las paredes,
no quieren otra índole
de espacio.
Este edificio no contenta
a nadie,
está en su época de crisis,
de derrumbarlo habría
que derrumbarlo ahora,
después va a ser difícil.

 

_
▪ Fabio Morábito
(México, n. 1955 no Egipto)
in “Un Náufrago Jamás Se Seca” Antología, Ediciones Gog Y Magog, Argentina, 2011

 

░ Não sou paciente

Não sou paciente eu só finjo
que tenho paciência.
Aprendi a abrandar marés contando lentas
inspirações expirações alternadas completas,
aprendi a dormir com a chuva a lavar os telhados.
Mas em dias
como o de hoje era capaz,
de te arrancar os olhos e fazer com eles dois anéis
para usar como punhais
entalados no cinto da saia.

 

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▪ Soledade Santos
(Sabugal, n. 1957)
in “Agio”, Revista de literatura – nº. 1, Editora Artefacto, Lisboa, 2011

░ Pátria Minha

Entre nós e o futuro há arame farpado
levaram o que se via além de nós
não resta mais que a ponta do nariz
como esperar agora o inesperado?
Somos do Sul e o saldo somos nós
contra o bezerro de oiro o teu quadrado
o poema tem de ser o teu país.

Entre nós e amanhã há uma taxa de juro
uma empresa de rating Bruxelas Berlim
entre hoje e o futuro há outra vez um muro
resgate é a palavra que nos diz
tens de explodir o não dentro do sim
não te feches em torres de marfim
o poema tem de ser o teu país.

 

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▪ Manuel Alegre
(Águeda, n. 1936)
in “Bairro Ocidental”, Editora D. Quixote, Lisboa, 2015

░ As nuvens apressam-se

Terça-feira. As nuvens apressam-se.
A minha mãe teria agora cem anos.
O meu pai um pouco mais velho.
Os avós o dobro das idades.
Esses não os conheci. Os muros da terra
já os devem ter engolido.
O tempo sussurra os seus nomes debaixo das árvores.

Serenamente ouço o rumor das aves
à entrada do paraíso.

Somos apanhados em todos os lugares.

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Inédito publicado com autorização prévia da autora



VERSIONE ITALIANO

░ Le nuvole si affrettano

 

Martedì. Le nuvole si affrettano.
Mia madre avrebbe ora cent’anni.
Mio padre un po’ più vecchio.
I nonni il doppio dell’età.
Non li ho conosciuti. I muri della terra
li avranno già ingoiati.
Il tempo sussurra i loro nomi sotto gli alberi.

Serenamente sento il mormorio degli uccelli
all’ingresso del paradiso.

Siamo presi in tutti i luoghi.

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Inédito publicado com autorização prévia da autora

Mudado para italiano por – Daniela Di Pasquale, tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.

░ Herança

A mulher deixou cair uma filha da barriga.
A barriga que tinha crescido morreu.
Deixou estampada uma folha de neve no chão.
Lá dentro meteu pauzinhos para fazer no inverno um caixão.
A filha que tinha crescido com uma folha da lua sepultada na face,
Deixou tombar os ponteiros de neve na sala.
Depois começou a lamber o sangue das paredes
como o útero de Deus.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal )
– inédito – 



– VERSION BY LESLEY SAUNDERS –

 

LEGACY

 

The woman let drop a daughter from her belly.
The belly that had grown big died.
She let a leaf of snow imprint the ground.
There within she stacked some little sticks to make a winter coffin.
The daughter who’d grown tall with a leaf of moonlight buried in her face
felled the pillars of snow in the room.
Then she began to lick the blood off the walls
as if they were the womb of God.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal )
– Unpublished –
Version by Lesley Saunders (Poet and educationalist)

░ Orientation

J’ai écrit des milliers de vers
pour oublier. J’ai embrassé quelques femmes
pour me rappeler. Maintenant je peux déjà dire
le son à chair vive.

La ville ressemble à un camp
abandonné dans le désert. Les nomades
sont partis sur leurs chameaux, avec provision
de tamars et d’eau.
Il y a des restes de déchets, panneaux de signalisation
feuilles arrachées à des revues pornographiques,
au gré du vent, parmi des pétales sèches.

Il y a des résidus d’endroits où j’ai été avec toi
fragments de vers en verre, tout
très net, inscrit, plié en or.

 

_
▪ António Barahona
(Lisboa, n. 1939)
in “O Som do Sôpro”, Edição Livraria Poesia Incompleta, Lisboa, 2011

Mudado do português por Eduardo Veras, pesquisador colaborador e pós-doutorando na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Brasil, onde atuou em 2016 como professor de Literatura Francesa. Especialista na obra de Charles Baudelaire, sobre quem escreveu tese de doutorado (UFMG, 2013), realizou dois estágios de pesquisa no “Centre de Recherche sur la Littérature Française du XIXe Siècle” da Université Paris-Sorbonne, sob a supervisão do professor Dr. André Guyaux. Atualmente, prepara uma nova tradução dos poemas em prosa de Baudelaire, de quem já traduzira o ensaio “L’École Païenne”. É autor de “O oratório poético de Alphonsus de Guimaraens” (Relicário, 2016) e co-organizador da coletânea de ensaios “Por uma literatura pensante: ensaios de filosofia e literatura” (Fino Traço, 2012). Tem publicado artigos sobre diversos poetas, brasileiros e franceses, em periódicos especializados.



VERSÃO ORIGINAL

 

Orientação

 

Escrevi milhares de versos
para esquecer. Amei algumas mulheres
para lembrar. Agora já posso dizer
o som em carne viva.

A cidade assemelha-se a um acampamento
abandonado no deserto. Os nómadas
partiram nos seus camelos, com provisão
de tâmaras e água.
Há restos de detritos, sinais de trânsito,
folhas arrancadas a revistas pornográficas,
ao sabor do vento, por entre pétalas sêcas.

Há resíduos de sítios onde estive contigo,
fragmentos de versos de vidro, tudo
muito nítido, anotado, vincado a oiro.

 

_
▪ António Barahona
(Lisboa, n. 1939)
in “O Som do Sôpro”, Edição Livraria Poesia Incompleta, Lisboa, 2011

░ A montanha-russa

Durante meio século
A poesia foi
O paraíso do tolo solene.
Até que cheguei eu
E me instalei com a minha montanha-russa.

Subam, se vos apetecer.
Claro que eu não respondo se descerem
A jorrar sangue pelo nariz e pela boca.

 

_
▪ Nicanor Parra
(Chile, n. 1914)
in “Acho que Vou Morrer de Poesia” – Antologia Breve, Língua Morta, Lisboa, 2015
Selecção e tradução – Miguel Filipe Mochila

░ a rosa é sem mais nem porquê

Angelus Silesius

uma mulher
espera
na margem do rio
para dizer ____o que não sabe

e o rio vê-a
e não a vê
e ela
na sua desnuda inexperiência
a ponto de chegar
ao que procura
isso
que talvez poderia dizer
mas não sabe
querer

canta
canta como se dormisse
no regaço da água
que a escreve
como falando
ao rio do seu corpo
que cala de desejo
na indecisa noite
que o inspira

e assim
na medida das coisas
espera
o que ansiaria preferir

um líquido tremor
uma música por cumprir
para saber
o que diz
quando diz
não saber

outono na ribeira
abertamente noite

não há
mais história além desta

uma mulher que invade
a página nervosa do desejo
como uma morte atenta
ao que vive
dentro dela

essa impaciência
por ser o que seria
se o coração falasse
calmo na sua orfandade

e o rio vê-a
e depois não a vê
e ela
que ignora o que soube
sem mais nem porquê a inverosímil casa
das coisas

canta
está cantando agora
como empreender um voo
até si mesma

e o rio vai
vai-se a pena escrita
levando a sua imagem
às terras do mar
onde ela
ainda não nasceu
e é já
uma conclusão

 

_
▪ María Negroni
(Argentina, n. 1951)
in “de Arte y Fuga”, Editorial Pre-Textos, 2010

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.



  VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ la rosa es sin por qué

Angelus Silesius

una mujer
espera
a la orilla del río
para decir ____lo que no sabe
y el río la ve
y no la ve
y ella
en su desnuda inexperiencia
a punto de llegar
a lo que busca
eso
que tal vez podría decir
pero no sabe
querer
canta
canta como dormirse
en el regazo del agua
que la escribe
como llamando
al río de su cuerpo
que calla de deseo
en la indecisa noche
que lo inspira
y así
en la medida de las cosas
espera
lo que ansiaría preferir
un líquido temblor
una música incumplida
para saber
qué dice
cuando dice
no saber
otoño en la ribera
abiertamente noche
no hay
más historia que ésta
una mujer que invade
la página nerviosa del deseo
como una muerte atenta
a lo que vive
dentro de ella
esa impaciencia
por ser lo que sería
si el corazón hablara
tranquilo en su orfandad
y el río la ve
y después no la ve
y ella
que ignora lo que supo
sin por qué la inverosímil casa
de las cosas
canta
está cantando ahora
como emprender un vuelo
hacia sí misma
y el río se va
se va la pena escrita
llevándose su imagen
a las tierras del mar
donde ella
todavía no nació
y es ya
una desinencia

_
▪ María Negroni
(Argentina, n. 1951)
in “de Arte y Fuga”, Editorial Pre-Textos, 2010

░ Lua cheia

nas palavras lavo os panos tristes
que ao fim de uma estação retêm agora
a sensação dos dias, o lume dos passos.

sinto que é um outro tempo,
um outro jeito de dobrar esquinas,
um outro modo de pisar a terra
– é tudo isto comprimido num pulso,
cingido dentro de veias como pequenas vozes
mudadas em canção ao acordar do ano.

vem, vem comigo, neste magnífico nascimento,
ouvir bater a espuma no cinzento das rochas,
e deixar passar as horas como quem flutua
à tona do tempo, inteiramente mergulhado no mundo
– vem dormir sob o luminoso manto da lua cheia.

hei-de dizer-te um dia
como se escolheu a cor do mar.

 

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▪ Vasco Gato
(Lisboa, n. 1978)
in “Um Mover de Mão”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000