AMOR DEPOIS DO AMOR

Chegará o tempo
em que, com alegria,
te saudarás a ti mesmo ao tocares
à tua porta, ao olhares-te no espelho,
e cada um dará ao outro as boas-vindas com um sorriso,

e dirás, senta-te aqui e come.
Amarás de novo o estranho que há em ti.
Oferece-lhe vinho. E pão. Devolve o teu coração,
ao estranho que te amou

toda a tua vida, aquele a quem trocaste
por outro, aquele para quem não tens segredos.
Varre as cartas de amor da estante,

as fotografias, os bilhetes desesperados.
Arranca a pele à tua imagem no espelho.
Senta-te. Festeja contigo a tua vida.

 

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▪ Derek Walcott
( Santa-Lúcia 🇱🇨 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

Notícias do Paraíso

No paraíso a semana de trabalho é de trinta horas
os salários são elevados e os preços descem regularmente
o trabalho manual não é cansativo (devido à reduzida gravidade)
derrubar árvores não é mais pesado do que dactilografar
o sistema social é estável e as leis são sábias
na verdade no paraíso vive-se melhor do que em qualquer outro lado
A princípio era para ter sido diferente
círculos luminosos coros e graus de abstracção
mas não foram capazes de separar completamente
o espirito da carne de tal modo que quem chega
traz sempre uma gota de gordura uma fibra de músculo
foi necessário enfrentar as consequências
misturar um grão de absoluto com um grão de argila
mais um desvio da doutrina o ultimo desvio
só o apostolo João o entreviu: ressuscitaremos na carne
São poucos os que acreditam em Deus
isso é só para aqueles cem por cento pneuma
os outros ouvem os comunicados sobre milagres e dilúvios
um dia Deus revelar-se-á a todos
quando irá isso acontecer ninguém sabe

Como agora todos os sábados ao meio-dia
as sirenes tocam docemente
e das fábricas saem os proletários celestes
envergonhados debaixo ds braços carregam as suas asas como violinos

 

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▪ Zbigniew Herbert
( Polónia 🇵🇱 )
Mudado para prtuguês por Jorge Sousa Braga a partir da versão inglesa de Czeslaw Milosz

MAS

O deus do canto e do riso há muito
fechou as portas da eternidade atrás de si.
Desde então apenas de vez em quando
uma ténue memória ecoa em nós.
E desde então só a dor
não é de tamanho natural,
é sempre maior que o homem
e no entanto, deve alojar-se no seu coração.

 

▪ Vladimir Holan
( Checoslováquia 🇨🇿)
Mudado para português por Carlos Mendonça Lopes

 

EU QUERIA VIVER CONTIGO

 

… Eu queria viver Contigo,
numa pequena cidade
onde o crepúsculo é eterno
e o repicar dos sinos também.
Num modesto hotel rural –
com o som minimamente audível
de um antigo relógio – como gotinhas de tempo.
Por vezes, a meio da tarde, vinda de qualquer sótão –
a melodia de uma flauta
e o flautista junto à janela,
grandes tulipas nas varandas
e entretanto é possível que Tu
nem nunca me tenhas amado…

_________

No meio da sala – uma lareira de azulejos,
em cada azulejo – um desenho:
uma rosa – um coração – um barco. –
E na única janela –
neve, neve, neve.

Tu estarias deitado – como gostava de ver-te:
preguiçoso, indiferente, descuidado.
Uma vez por outra o raspar
de um fósforo.

O cigarro arde e apaga-se,
na sua ponta treme,
como um poste consumido – a cinza.
Dá-Te preguiça sacudi-la –
o cigarro inteiro atravessado pelo fogo.

 

10 de Dezembro 1916

▪ Marina Tsvetáieva
( Rússia 🇷🇺 )
Mudado para português por _ Diogo Vaz Pinto (a partir de tradução para espanhol de Natalia Litvinova)
 

2 POEMAS DE ALBA FLORES ROBLA


Onde vives, qual o número do teu telemóvel

onde vives, qual o número do teu telemóvel
qual é o teu prato favorito
lês ou preferes jogos de vídeo
o que gostarias que te oferecesse no aniversário
onde costumas passar as férias na praia ou na montanha
doce ou salgado
o que causa alergia
de que flores gostas
quantos beijos deste quantas bocas beijaste
alguma vez choraste a ver um filme
de que tens medo
escolhe sol ou lua rio ou piscina cabelo curto ou comprido
dormes mal de noite
preferes o verão
que fazes quando não tens nada que fazer
o que achas
maquilhas-te saltos altos ou sapatilhas
olhos claros olhos escuros
que amigos tinhas em miúda que querias ser quando
fosses grande
quais eram os teus sonhos
o que sabes sobre as estrelas podes encontrar o norte
seguindo-as
gostas de animais

alguma vez partiste uma costela
quem foi o teu primeiro amor onde foi o teu primeiro
amor
como queres que os teus filhos se chamem
queres ter filhos quantos
por que te puseram esse nome
que fizeste como começou quantos anos tinhas
achas que alguma vez chegarei a conhecer-te como se te
tivesse conhecido sempre

*

Coisas prestigiantes

Adoro que faças coisas prestigiantes,
que tenhas um mestrado e um doutoramento
numa coisa que eu não sei o que quer dizer,
que viajes pelo mundo inteiro fazendo conferências
de ponteiro laser na mão
e de gravata à volta do pescoço.
Que te aplaudam

e tires dúvidas com received pronunciation* e
sorriso perfeito,
que façam os teus pais parar na rua
e se possam comprar online os teus livros sobre
coisas prestigiantes
que eu não sei o que significam.

*Pronúncia considerada tradicionalmente como
norma para o inglês britânico (Wikipedia).

_
▪ Alba Flores Robla
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹

AMANHÃ, VOU SER OPERADA

A morte veio e ficou ao meu lado.
Eu disse: estou pronta.
Estou deitada numa cama da Clínica Cirúrgica de Cracóvia.
Amanhã
vou ser operada.
Há muita força em mim. Posso viver,
posso correr, dançar e cantar.
Tudo isso está em mim, mas se for necessário,
partirei.

Hoje
faço contas à minha vida.
Eu era uma pecadora,
batia com a cabeça contra a terra,
implorava à terra e ao céu
que me perdoassem.

Eu era bonita e feia,
sábia e estúpida,
muito feliz e muito infeliz,
frequentemente tinha asas
e flutuava no ar.

Percorri mil caminhos ao sol e na neve,
dancei com o meu amigo sob as estrelas.
Eu vi amor
em muitos olhos humanos.
Comi com prazer
a minha fatia de felicidade.

Agora estou deitada numa cama da Clínica Cirúrgica de Cracóvia.
Ela está comigo.
Amanhã
vão-me operar.
Pela janela as árvores de maio, lindas como a vida,
e em mim, humildade, medo e paz.

 

_
▪ Anna Swir
( Polónia 🇵🇱 )
Mudado para prtuguês por Jorge Sousa Braga

(O poema foi escrito enquanto estava no leito da morte.)

TANTAS CIDADES A QUE DEVÍAMOS TER IDO

O nosso sonho é feito de cidades cultas,
com música e cafés familiares,
a majestade de um porto e estações
de ferro e de vidro com comboios brunidos pela noite
e pela chuva, a mesma chuva
que nos acompanha num pequeno hotel
ou nas janelas de um museu.
Há recantos ao abrigo de grandes árvores,
gente calada, educada e bem vestida
e as silenciosas livrarias
onde os olhos vagueiam enquanto cai a tarde.

Tantas cidades a que devíamos ter, ido, meu amor.
A lua emerge para lá daquelas pontes de ferro
dos anos que mudaram a nossa lei.
Desde então o tempo é uma chuva
que nos inunda como inunda os telhados.
Mas na luz do pátio vemos os templos
de mármore branco e dourado travertino.
Encontramos, nas ruas de pequenas aldeias,
faustosos estuques cor de terra
esgrafiados pelo vento. Esta casa
da varanda e do pátio tem uma luz
de conversas e conforto. De nós,
aquele que ficar terá por companhia
a memória do cipreste e das heras
até nos reencontrarmos nas cidades do sonho.

 

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▪ Joan Margarit
(Espanha 🇪🇸)
in “Misteriosamente Feliz”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2015
Selecção, tradução e posfácio – Miguel Filipe Mochila 🇵🇹
 

Essas coisas sempre acontecem de repente

Nada acontece. Ela está
num comboio expresso com destino
a Barcelona, e eu estou aqui,
na minha mesa de trabalho, a escrever
estes versos.
Ela partiu apenas há duas horas. Amanhã
falaremos por telefone.
Na TV, o seu sorriso esplêndido.
Nada acontece, como eu disse.
E de repente não sei o que fazer
com tanta solidão.

 
_
▪ Karmelo C. Iribarren
( Espanha 🇪🇸 )

 

“A solidão é, assim, a configuração extremada da ausência do Outro. O Outro que se torna presente pela própria ausência configura em meu ser a sua necessidade. O desespero do homem contemporâneo apresenta várias facetas de sofrimento, mas seguramente a ausência do Outro é um dos maiores espectros dessa realidade.”

Valdemar Augusto Angerami
in solidao-a-ausencia-do-outro_compress
 

 

OS GRANDES DIAS DO POETA

Os discípulos da luz apenas inventaram trevas pouco opacas.
O rio empurra um pequeno corpo de mulher e isso significa que
o fim está próximo.
A viúva em trajo de núpcias engana-se de escolta.
chegaremos todos atrasados ao nosso túmulo.
Um navio de carne atola-se numa pequena praia. O timoneiro
convida os passageiros a calarem-se.
As vagas esperam impacientemente. Mais perto de Ti ó meu Deus!
O timoneiro convida as ondas a falar. E elas falam.
A noite sela as suas garrafas com estrelas e faz fortuna na
exportação.
Constroem-se grandes feitorias para vender rouxinóis.
Mas não podem satisfazer os desejos da Rainha da
Sibéria que quer um rouxinol branco.
Um comodoro inglês jura que nunca mais será apanhado a colher salva
durante a noite, entre os pés das estátuas de sal.
A propósito, um pequeno saleiro levanta-se a custo em equilíbrio sobre as suas finas pernas. No meu prato ele verte aquilo que me resta viver.
Quanto basta para salgar o Oceano Pacífico.
Colocai no meu jazigo uma bóia de salvação.
Porque nunca se sabe.

 


▪ Robert Desnos
( França 🇨🇵 )
in “Sonhador definitivo e perpétua insónia”, Editora Contracapa, 2021
Mudado para português por _ Regina Guimarães