SEREIA

tinha de entrar na casa de banho por uma cena qualquer
e bati à porta
estavas na banheira tinhas lavado o rosto e o cabelo
eu vi o teu torso
e tirando os seios
parecias uma menina de cinco, oito anos
estavas tranquilamente feliz dentro de água
Linda Lee.
não somente eras a essência daquele
momento
mas de todos os meus momentos
até àquele
tu tranquilamente tomando banho no marfim
mas não havia nada
que eu te pudesse dizer.

peguei naquilo que queria da casa de banho
uma cena qualquer
e saí.

 

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▪ Charles Bukowski
(E.U.A. 🇺🇲)
in “Sobre o amor”
Mudado para português por Valério Romão

SAPATOS

Sapatos no guarda-roupa como lírios de Páscoa,
os meus sapatos sozinhos neste momento,
e outros sapatos com outros sapatos
como cães andando por avenidas,
e só o fumo não basta
e recebi uma carta de uma mulher no hospital,
amor, diz ela, amor,
mais poemas,
mas eu não escrevo,
não me compreendo a mim mesmo,
ela manda-me fotografias do hospital
tiradas do ar,
mas eu lembro-me dela noutras noites,
quando não estava a morrer,
sapatos com saltos como adagas
ladeando os meus,
como essas noites intensas
podem mentir tanto,
como essas noites se transformaram finalmente
nos meus sapatos no guarda-roupa
encimados por sobretudos e camisas sem jeito,
e olho para o buraco deixado pela porta
e para as paredes, e não
escrevo.

 

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▪ Charles Bukowski
(E.U.A. 🇺🇲)
in “Sobre o amor”
Mudado para português por Valério Romão

ESPERA

Esperamos e esperamos. Todos nós. Não saberia o analista que a espera é uma das coisas que faziam as pessoas ficarem loucas? Esperavam para viver, esperavam para morrer. Esperavam para comprar papel higiénico. Esperavam na fila para levantar dinheiro. E, se não tinham dinheiro, precisavam  de esperar em filas mais longas. A gente tinha de esperar para dormir e esperar para acordar. Tinha de esperar para se casar e para se divorciar. Esperar para comer e esperar para comer de novo. A gente tinha de esperar na sala de espera do analista com um monte de doidos, e começava a pensar se não estava doido também.

 

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▪ Charles Bukowski
(E.U.A. 🇺🇲)
in “O último suspiro do velho safado”

 

Natal de ’44

Desde miúdo alegrava-se-me a face
quando chegava a festa do Natal.
Toda a noite trabalhava a peneira
e de manhã davam-me o fato bonito.

Então escapava-me de casa a correr
e andava na praça a mostrar-me;
e ao meio-dia em ponto na mesa enfeitada
comíamos todos em santa paz.

Oh, o meu Natal, o cheiro dos doces,
hoje passei-o às voltas numa estrada,
sem um pedaço de pão, a roupa emprestada,
longe de casa e sem amor de ninguém.

 


▪ Tonino Guerra
( Itália 🇮🇹 )
Mudado para português por Nuno Dempster

SER VELHO

Entre as sombras dos galos
e dos cães nos pátios e currais
de Sanaüja, abre-se um buraco
que se enche de tempo perdido e água suja
quando as crianças caminham para a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha,
a escolher lentilhas
em noites de borralho,
vejo os que me amaram.
Tão pobres que no fim da guerra
tiveram de vender o miserável
vinhedo e aquele frio casarão.
Ser velho é a guerra ter terminado.
É saber onde ficam os refúgios, agora inúteis.

 

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▪ Joan Margarit
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por Soledade Santos

ÁGAPE

Hoje ninguém veio perguntar alguma coisa;
nem nesta tarde ninguém me pediu nada.

Não vi sequer uma flor de cemitério
em tão alegre procissão de luzes.
Perdoa-me Senhor: morri tão pouco!

Nesta tarde todos, todos passam
sem nada me perguntar nem pedir nada.

E não sei o que esquecem e que fica
em minhas mãos tão mal, qual coisa alheia.

Saí até à porta,
tenho vontade de gritar a todos:
Se alguma coisa lhes falta, ela está aqui!

Porque em todas as tardes desta vida,
não sei que portas nos atiram na cara
e algo estranho se apodera da minha alma.

Não veio ninguém hoje;
e que pouco hoje nesta tarde morri!

 


▪ César Vallejo
( Perú 🇵🇪 )

HÁ GENTE

Há gente que acredita que está viva
porque lê jornais e faz amor
com a mulher duas vezes por ano, ou por mês
ou por semana,
e toma café com os amigos
e sonha pertencer a alguma máfia.
Há gente que acredita que está viva
porque se levanta todos os ias às seis
da madrugada, para se arrastar para o trabalho,
e fuma um cigarro
e comenta o jogo de ontem
ou o último escândalo político
com os colegas. Há gente
que acredita que está viva porque tem um carro,
um apartamento e duas dúzias
de camisas e uma firme opinião
acerca de quem deveria governar este país.
há gente que acredita que está viva
porque vai tirando cursos por correspondência,
acorre a carimbar a declaração de desemprego,
chuta pr´á veia ou snifa coca ou sai para tomar
um copo ou levar no cu ao fim-de-semana,
vai ao cinema, liga a televisão,
fala ao telefone ou abre uma nova conta bancária.
Há gente que por estas coisas e algumas outras,
– quaisquer umas que queiram –
acredita que está viva e, o que é pior:
que tem algum direito à vida.

 


▪ Roger Wolfe
( Inglaterra 🇬🇧 )
in “Fazer o trabalho sujo”, Língua morta, 2020
Mudado para português por Luís Pedroso

VELAS (1899)

Os dias do futuro estão à nossa frente
como uma fila de velas acesas
velas douradas, quentes e vivazes.
Os dias do passado ficam para trás,
triste fila de velas apagadas;
ainda deitam fumo as mais chegadas,
mas frias, derretidas e torcidas.
Não quero vê-las, dói-me o seu aspecto
dói-me lembrar a sua luz primeira.
Olho em frente as minhas velas acesas.
Não quero voltar-me pra não ver, aterrado,
que depressa vai crescendo a fila sombria,
que depressa vão crescendo as velas apagadas.

 

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▪ Konstantinos Kaváfis
( Egipto  🇪🇬 )
Poesia mudada para português por Manuel Resende

MUDANÇA

Havia meses que não escrevia
nem um único poema.
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder
e nas causas da obediência.
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação),
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros
e o silêncio da noite.
Via os girassóis a pendurarem
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído
passeasse por entre os jardins.
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos
se escondiam nas curvaturas dos muros.
Dava longos passeios,
sedento duma coisa só:
dum relâmpago,
duma mudança,
de ti.

 

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▪ Adam Zagajewski
( Polónia 🇵🇱 )
in “Sombras de sombras”, Selecção e Tradução de Marco Bruno 🇵🇹, Editora Tinta da China, Lisboa, 2017