GANHAR A VIDA

Mãe,
acho que vou fazer uma visita ao Inferno.
Não importa que seja muito longe.
Partirei de manhã como se estivesse a sair para o trabalho,
voltarei à noite como se tivesse saído do trabalho.
Não te esqueças das refeições, mastiga bem os alimentos antes de engolir,
certifica-te que desligas o gás quando saíres
e não te preocupes comigo.
O inferno deve ser um lugar onde vivem pessoas.
Se eu for para o Inferno para ganhar a vida
poderei finalmente tornar-me uma pessoa.

 

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▪ Jeong Ho-Seung
( Coreia do Sul 🇰🇷)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga

ANNA IMROTH

Cruzar-lhe os braços sobre o peito – assim.
Endireita-lhe um pouco mais as pernas – assim.
E chamar o carro para que a leve a casa.
A mãe dela há de chorar, e também as irmãs e os
irmãos.
Mas os outros salvaram-se todos: foi ela a única
rapariga da fábrica que não teve sorte ao saltar cá
p’ra baixo quando o fogo irrompeu:
Andou aqui a mão de Deus – e a falta de uma saída
de emergência.

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▪ Carl Sandburg
(Estados Unidos 🇺🇸)
Mudado para português por Alexandre O’Neill

SEM CHAVES E ÀS ESCURAS

Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradaram.
Não pedia mais.
Saí então para deixar o lixo no corredor
e atrás de mim, com a corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
ouvindo as vozes dos meus vizinhos
através das portas.
É transitório, disse a mim mesmo;
assim também pudesse ser a morte;
um corredor escuro,
uma porta fechada à chave por dentro
e na mão o lixo.

 

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▪ Fabián Casas
( Argentina 🇦🇷 )
Mudado para português por Hugo Miguel Santos

A ÁRVORE DO OUTONO

No Outono eu sou a árvore da casa
e começo a recolher-me, a guardar
as últimas tranças do sol. Um frio ligeiro
arranha o pouco que tenho, as noites
começam a ser mais longas e as pessoas
que amava vão-se embora. É mais difícil
o início.
a ideia da ausência, do meu corpo sem folhas,
do que a ausência viva que habitará o Inverno.

À minha frente, parada como eu, a árvore
da outra casa sofre a mesma agonia. E não falamos,
não aprendemos como se falam e abraçam,
as árvores no outono.

 

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▪ Teresa Agustín
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga

O FUNERAL

Na noite do funeral
eles abraçaram-me,
beijaram-me, mesmo esses
que habitualmente não beijam.
Apoiaram-me e perguntaram
se precisava de soporíferos,
estimulantes,
um xerez ou companhia para a noite.

Cada noite é um funeral
mas ninguém vem para me abraçar.
Ninguém pergunta como as coisas vão
se preciso de companhia para a noite,
um xerez, um soporífero.

Porque é apenas um dia como tantos
que morreu, e todos
temos que gerir isso o melhor que pudermos.

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▪ Margareta Ekström
(Suécia  🇸🇪 )

Mudado para português por João Luís Barreto Guimarães

EN ROUTE

 

1 – SEM BAGAGEM

….. Viajar sem bagagem, dormir no comboio
….. num banco de madeira duro,
….. esquecer a terra natal,
….. sair de pequenas estações
….. quando um céu cinzento se levanta
….. e os barcos de pesca se dirigem para o mar.

 

2 – NA BÉLGICA

….. Na Bélgica chuviscava
….. e o rio serpenteava entre montes.
….. Sou tão imperfeito, pensei.
….. As árvores estavam nos campos
….. como padres de sotainas verdes.
….. Outubro escondia-se nas ervas.
….. Não, minha senhora, disse eu,
….. este é o compartimento de não faladores.

 

3 – UM FALCÃO ÀS VOLTAS POR CIMA DA AUTO-ESTRADA

….. Ficará desapontado se se lançar
….. sobre uma placa de ferro, gasolina,
….. uma cassete de música rasca,
….. os nossos corações apertados.

 

4 – MONT BLANC

….. De longe brilha, branco e cauteloso,
….. como uma lanterna para as sombras.

 

5 – SEGESTA

….. No campo um vasto templo—
….. um animal selvagem
….. aberto ao céu.

 

6 – VERÃO

….. O verão era gigantesco, triunfante—
….. e o nosso pequeno carro parecia perdido
….. na estrada para Verdun.

 

7 – A ESTAÇÃO EM BYTOM

….. No túnel subterrâneo
….. crescem pontas de cigarro,
….. não malmequeres.
….. Tresanda a solidão.

 

8 – REFORMADOS NUMA VIAGEM DE ESTUDO

….. Estão a aprender a andar
….. em terra.

 

9 – GAIVOTAS

….. A eternidade não viaja,
….. a eternidade espera.
….. Num porto de pesca
….. só as gaivotas são faladoras.

 

10 – O TEATRO EM TAORMINA

….. Do teatro em Taormina vê-se
….. a neve no cume do Etna
….. e o mar resplandecente.
….. Qual é o melhor actor?

 

11 – UM GATO PRETO

….. Um gato preto sai para nos saudar
….. como a dizer olhem para mim
….. e não para uma velha igreja românica.
….. Eu estou vivo.

 

12 – UMA IGREJA ROMÂNICA

….. No fundo do vale
….. uma igreja Românica em repouso:
….. há vinho neste barril.

 

13 – LUZ

….. Luz nas paredes de casas velhas,
….. Junho.
….. Transeunte, abre os olhos.

 

14 – DE MADRUGADA

….. A materialidade do mundo ao amanhecer –
….. e a fragilidade da alma.

 

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▪ Adam Zagajewski
(Polónia, n. 1945)
in “Eternal Enemies”, published by Farrar, Straus and Giroux, New York, 2008

*

Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão para inglês de Clare Cavanagh | (https://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poems/detail/57094)

As minhas mãos haviam esquecido Lorca

Embora o meu corpo estivesse cheio dele pois
passara parte do sábado anterior a discutir
a sua poesia com um marinheiro chileno, as minhas mãos
haviam esquecido Lorca.

………………………………. Até esta noite em que,
dando uma vista de olhos a uma antologia,
deparei com um poema dele chamado Córdoba.

E, abrindo um atlas para procurar
esta cidade, apercebi-me ao deslocar
os dedos sobre o mapa de Espanha

de que afagava a face de Lorca.

 

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▪ Mark Young
(Nova Zelândia, n. 1941)
in “The Right Foot of the Giant“ publicado por Bumper Books em 1999

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho

PELAS NOITES LEIO MAIS A BÍBLIA

Os ruídos das rodas do carro no asfalto molhado:
viajar num táxi toda a vida
e crer firmemente que a fé é inútil
e que, depois da esquina, se não a felicidade
pelo menos indícios dela: um novo pressentimento.
Na rua nocturna, porém,
as folhas mortas, empapadas, fazem a calçada
escorregadia à luz ténue dos faróis
e ninguém fala de modo natural.
Nos rostos que se esboçam na obscuridade
não se pode decifrar uma expressão compreensível.

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▪ Jarkko Laine
(Finlândia 🇫🇮)
Mudado para português por _ Luís Filipe Parrado