A DIVISIBILIDADE DOS AROMAS

Pela janela vem o cheiro da manhã, da relva
e das rosas salpicadas de fresco que se casam com o cheiro
dos lençóis sonolentos. Ao bater a porta já só sinto
o meu perfume, o que pomos por cima das certezas
e das duvidas, por cima dos segredos que trespassam a pele.
Em breve me confundirei com o cheiro dos outros,
——————————————————  ——–daquele homem
vergado pelo saco das batatas, da florista a compor as
—————————————————–  ————–margaridas,
da peixeira à porta da vizinha mostrando as goelas
—————————————————-  ————— sangrentas
(talvez porque se tenha levantado cedo e apregoar assim
fere a garganta), das crianças a caminho da escola, de todos
os que hão-de cruzar o meu dia e de ti que hás-de cruzar
também a minha noite. Contar-te-ei todas as horas com
——————————————————–  ————-a mistura
dos aromas que me compõem e ouvirei na tua pele
a subtil diferença entre os dias. Amanhã fecharemos a porta
e o teu cheiro irá entranhado em mim até a uma
——————————————————– —–distância infinita
das rosas que cantam à janela e seguirei pela estrada
estendendo a pele às dádivas do dia.

 

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▪ Rosa Alice Branco
( Portugal 🇵🇹 )
In “Das Tripas Ao Coração”, Campo das Letras, Porto

PARTO

O poema doía
porque queria nascer.

Agora
já não está cá dentro.
Sanguinolento
já me resvala
rápido-lento.
Parteira dele
dele me aparto deixo-o partir
ao sol da lua
ao ar do vento.

Agora é ele
já não sou eu.

Já não me dói. (Só me doeu)

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▪ Ana Goês
( Portugal 🇵🇹 )
in “Queria dizer palavras

É a minha vez

Estou aqui,
agitando os baldes que a chuva
encheu durante a madrugada
para evitar que o silêncio faça mais vítimas.
Fui colocar essa peruca de pardais e vim
a voar até aqui acima,
e agora não sei como inventar as escadas para descer.
Dizes que é apenas uma questão de tempo,
que só foste renovar o contrato para não ficares assim com
o pé no vazio.

Já nem reparas,
mas estou aqui como um animal pré-histórico
a ficar enternecido com a bailarina
da tua caixa musical.
Aguardo, ainda, como qualquer vulcão lunar
o fim da era glaciar.

Passo a mão pelos cabelos molhados,
chove,
outra vez.
Há ecos de corpos rasgados
na gargalhada dos palhaços
e as hienas começam a ficar impacientes:
é tarde mas sobretudo urgente.

Deixa-me pôr esse vestido
com corte jovem demais para o meu corpo em queda.
É a minha vez.
Sei o papel de cor.
Mas não chego para uma história.

 


▪ Golghona Angel
( Portugal 🇵🇹 )

 

REFEITÓRIOS

Os enfermos não têm encontros marcados
Nem jantam à luz das velas
Em mesas de toalhas de linho e pratos de porcelana
Nem bebem vinho de reserva
Em copos de cristal de pé alto
Nem são convidados para festins
Cheios de homens sábios que falam sobre Eros
Exuberantes e orgiásticos
Com Platão, Sócrates e Diotima sentados à cabeceira
Ficam calados
As mãos quietas sobre os joelhos
E histórias que deixaram esquecidas na mesinha junto à cama
Das que contaram nas horas de tédio
E que despejaram dentro de um jarro
De água
E que bebem de vez em quando
Para matar uma sede desconhecida
De vida e de beleza
De delírio
São como um enorme simpósio de silêncio
Uma voz oracular
Sem reflexões filosóficas.

 


▪  Ana Paula jardim
( Portugal 🇵🇹 )
in “Enfermaria”, Guerra e Paz Editores, 2022

UM DIA VIRÁ

Um dia virá
em que a minha porta
permanecerá fechada
em que não atenderei o telefone
em que não perguntarei
se querem comer alguma coisa
em que não recomendarei
que levem os casacos
porque a noite se adivinha fresca.

Só nos meus versos poderão encontrar
a minha promessa de amor eterno.

Não chorem; eu não morri
apenas me embriaguei
de luz e de silêncio.


▪ Rosa Lobato de Faria
( Portugal 🇵🇹 )
in ‘A Noite Inteira Já Não Chega’ | (Poesia – 1983-2010)

Dizias que gostavas

Dizias que gostavas de poemas.
Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
São muito bonitos, disseste,
hei de mostrá-los ao meu namorado.
Nunca mais confiei nos versos
nem no gosto feminil.

 

_
▪ José Miguel Silva
( Portugal 🇵🇹 )
in “Vista para um pátio seguido de Desordem”

INSTANTE

 

INSTANTE

Uma boneca sem cabeça
ao colo de uma criança morta
entre destroços

uma aranha
em
seus cabelos

não há perguntas nem respostas

 
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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “A Casa da Memória”
— inédito —

 

MOMENT

A doll with no head
lolling in a dead child’s lap
among the wreckage

a spider
in
her hair

nothing to ask or to answer

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “The House of Remembrance
— unpublished —

 Translation by Lesley Saunders 🇬🇧 Poet and educationalist 

 

Quarta-Feira de Cinzas!

Os rituais antigos não esquecem mais.
O meu tempo de menina era ritmado por essas datas
que implicavam gestos e comeres próprios.
Até o laico Carnaval!
Esses símbolos foram-se e nada os substituiu.
Os dias do ano agora são meninos de asilo
vestidos todos com o mesmo bibe.
Estes versos são talvez uma maneira de os distinguir.
O dia acordou taciturno
de cinzas mesmo.
Em menina a Quarta-feira de cinzas era o meu clandestino
Carnaval
sozinha na varanda
lançando para meu único regalo
os restos de serpentinas e confetis que tinha trazido
da festa de Terça Feira Gorda.
Agora todos os dias são magros.
É da tristeza do dia
esta melancolia
bem sei.
Dantes a minha Quarta-feira de Cinzas era alegre
porque gozava em solidão o já passado Carnaval.
“Tu gostas da solidão.
Eu não.”
Dizia a minha Mãe
e é verdade.
Vá lá saber porquê.
Mas a solidão não é triste
quando fazemos boa companhia a nós próprios.
E a melancolia toca violino.


▪ Teresa Rita Lopes
( Portugal 🇵🇹 )