SYRINX, FICÇÃO PASTORAL (III)

Debaixo do colchão tenho guardado
o coração mais limpo desta terra
como um peixe lavado pela água
da chuva que me alaga interiormente
Acordo cada dia com um corpo
que não aquele com que me deitei
e nunca sei ao certo se sou hoje
o projecto ou memória do que fui
Abraço os braços fortes mas exactos
que à noite me levaram onde estou
e, bebendo café, leio nas folhas
das árvores do parque o tempo que fará
Depois irei ali além das pontes
vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;
mas com cuidado, para não ferir
as minhas mãos astutas de princesa.

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▪ António Franco Alexandre
( Portugal 🇵🇹 )

 

SONHO

SONHO: estou sentado à mesa com os meus antepassados. mortos.
as crianças brincam com as bonecas de cabeça de corvo.
os meus antepassados. mortos. dão gargalhadas.
comem e brindam à vida. ao sangue acidulado das crianças e dos animais.
as crianças olham-nos. brincam com as bonecas. feitas de trapos.
brincam. com as bonecas. ao lado, as mães. tristes e velhas.
as crianças saltam. dançam. riem. não sabem que é um banquete
de mortos.
riem para dentro dos espelhos com a inocência dos animais.
deslumbrantes.
as crianças trazem em si a agilidade dos espelhos. a grande sabedoria:
sabem, não sabendo, que os mortos vivem entre nós.
que circulam em nós. como nós. nas casas. no mistério dos rostos.
na luz das velhas fotografias – persistentes e viris como um abandono.

(Breslávia, outono 2010)

 

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▪ Luís Costa
( Portugal 🇵🇹 )
Poemas eslavos
in “Vozes periféricas”

Não gosto de contar os desastres em detalhe

Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.

Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.

Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.

Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.

 

▪ Golgona Anghel
( Portugal 🇵🇹 )
in “Como uma flor de plástico na montra de um talho”, 2013

 

CRIANÇAS E ADULTOS

Aos dez anos achava
que o mundo era dos adultos.
Podiam fazer amor, fumar, beber à vontade,
ir aonde quisessem.
Sobretudo, esmagar-nos com seu poder indomável.

Agora sei, por vasta experiência, o lugar comum:
em verdade, não há adultos,
só crianças envelhecidas.

Querem o que não têm:
o brinquedo do outro.
Sentem medo de tudo.
Sempre obedecem a alguém.
Não dispõem de sua existência.
Choram por qualquer coisa.

Mas não são valentes como eram aos dez anos:
fazem-no à noite e em silêncio e sozinhos.

 

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▪ José Emílio Pacheco
( México 🇲🇽 )
Mudado para português por Nelson Santander

 

RENUNCIO

Toldaste o meu Outono
limpaste a frente da minha casa
das folhas da minha memória
a fusão do ser e do saber
que sempre procuro

Agora decidi matar-te no próximo inverno
renunciando ao lugar do sono comum

A terra continuará a mover-se
e sei que sempre encontrarei uma palavra
que me ajudará a sucumbir.

 

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▪ Luis  Raimundo Rodrigues
( Portugal 🇵🇹 )