SAI DE CASA

Rasga este poema depois de o leres.
E depois espalha os bocados
Pelo vasto mundo
Ou então na tua rua, vai à aldeia, à praia,
Atira-o ao mar,deita-o ao lixo,
Para que venha o vento,o sol,a chuva,os homens do lixo,
Acabar com ele de vez.
Passado um dia,
Sai de casa e procura
Encontrá-lo de novo.

 

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▪ Manuel Resende
( Portugal 🇵🇹 )

AGORA

Há um martelo de enigmas,
um martelo louco batendo nos nervos,
esmagando as fibras,
há um estrondo subterrâneo que sobe para as fontes,
mas não explode,
não explode esta cabeça vencida, caída sobre
a mesa,
sobre a toalha bordada entre o jejum e as
missas,
nas terras do pai.

Há um globo de magias em desuso que não
perturba quem chega, quem se senta
com as mãos abertas, com a faca atrás,
pelo lado das costas que lançam nas paredes
um vulto sinistro, em silêncio, à espera.

Eu sei porque veio, o que quer, o que faz aqui,
mas tu ergues os cálices,
tu olhas para ela e ofereces uma rosa e
repartes o pão,
e depois adormeces e entras no túnel que dá
para as colinas de Deus,
para os seus antigos.

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▪ José Agostinho Baptista
( Portugal 🇵🇹 )
in “Biografia”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000

ÚLTIMO SOL NO ROCHEDO

Último sol no rochedo.
Último horizonte vigilante
de marés e tufões.

Lembrei-me de repente daquele deus marinho
…………………………………………………………de Camões
sem nenhuma nereida que lhe aqueça
a pele petrificada do desejo,
o corpo de ostras e camarões
– a cabeça coberta
com a casca
de um caranguejo.

Só a casca?
E o resto? Quem o comeu?
– gula de águia.

Talvez aquela nuvem além no céu
com bico de vapor de água.

 

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▪ José Gomes Ferreira
( Portugal 🇵🇹 )
in “ Poesia VI”

SYRINX, FICÇÃO PASTORAL (III)

Debaixo do colchão tenho guardado
o coração mais limpo desta terra
como um peixe lavado pela água
da chuva que me alaga interiormente
Acordo cada dia com um corpo
que não aquele com que me deitei
e nunca sei ao certo se sou hoje
o projecto ou memória do que fui
Abraço os braços fortes mas exactos
que à noite me levaram onde estou
e, bebendo café, leio nas folhas
das árvores do parque o tempo que fará
Depois irei ali além das pontes
vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;
mas com cuidado, para não ferir
as minhas mãos astutas de princesa.

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▪ António Franco Alexandre
( Portugal 🇵🇹 )

 

SONHO

SONHO: estou sentado à mesa com os meus antepassados. mortos.
as crianças brincam com as bonecas de cabeça de corvo.
os meus antepassados. mortos. dão gargalhadas.
comem e brindam à vida. ao sangue acidulado das crianças e dos animais.
as crianças olham-nos. brincam com as bonecas. feitas de trapos.
brincam. com as bonecas. ao lado, as mães. tristes e velhas.
as crianças saltam. dançam. riem. não sabem que é um banquete
de mortos.
riem para dentro dos espelhos com a inocência dos animais.
deslumbrantes.
as crianças trazem em si a agilidade dos espelhos. a grande sabedoria:
sabem, não sabendo, que os mortos vivem entre nós.
que circulam em nós. como nós. nas casas. no mistério dos rostos.
na luz das velhas fotografias – persistentes e viris como um abandono.

(Breslávia, outono 2010)

 

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▪ Luís Costa
( Portugal 🇵🇹 )
Poemas eslavos
in “Vozes periféricas”

Não gosto de contar os desastres em detalhe

Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.

Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.

Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.

Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.

 

▪ Golgona Anghel
( Portugal 🇵🇹 )
in “Como uma flor de plástico na montra de um talho”, 2013