CAIXA DE CHOCOLATES

Era uma desbragada comédia:
o pai oferecia caixas de chocolates
e a empregada de limpeza comia-os –

pensava-se que era uma oferta de amor,
mas ela ensinou-me que os presentes dos homens
servem para envaidecer o paladar da solidão

também eu os comi como se fossem para mim:
os doces cariavam as bonecas de porcelana
e doíam-me os seus olhos azuis de imobilidade

queria que sorrissem a minha boca suja
com as palavras que havia aprendido
quando encontrei os seus vestidos despenhados

num grande acidente doméstico, num grande
fim de aparelhos de cozinha que se avariavam
consoante o tempo passavam à espera de uma carta

foi assim que aprendi a limpar o silêncio,
à espera do tom certo para começar poemas
sobre essas vis atividades em que as mulheres

se despedem para continuarem a engrandecer as lides,
como se pudessem dizer adeus enquanto aquecem a panela:
e na mesa onde cabem muitos filhos genéticos

tiram-se os lugares suficientes para que o útero,
respire especiarias, um pouco de farinha branca
com que um dia fará as vezes de uma mãe a sós

e quando os créditos do filme passarem sob a sombra,
só a empregada se rirá do derradeiro presente:
o estômago estava cheio de um amor que não lhe era dedicado.

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▪ Lígia Reys
( Portugal 🇵🇹 )

Para os outros a bola era a meia

Para os outros a bola era a meia
altura, mas a ti batia-te na cara.
E ias muito zangado para dentro
de casa como se eu tivesse feito
de propósito e te tivesse atirado
a bola à cara. Eu era lá capaz de fazer
uma coisa dessas, também já fui
muito pequenino, sabes, chegaram
a levar-me ao psiquiatra, eu não
ia fazer uma coisa dessas. Quando
me apetece atirar a bola contra
alguém, atiro-a contra uma parede
ou uma árvore. O problema
é que nem sempre acerto na árvore
(na parede acerto sempre, porque
é grande) e às vezes, sem querer,
estás a ouvir, sem querer, acerto
em alguém que vai a passar.

 

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▪ Helder Moura Pereira
( Portugal 🇵🇹 )
in “Eu Depois Inventei o Resto”, Companhia das Ilhas, Açores, 2013

AS PESSOAS DE QUE EU GOSTO

Não gosto de pessoas que não têm sombras.
Não gosto de pessoas que não gostam de sombras.
Gosto de pessoas que se tornaram na sombra debaixo de uma árvore.
A luz do sol também precisa de sombra para brilhar e deslumbrar os olhos.
Sentado à sombra de uma árvore
observo a luz do sol brilhando entre as folhas,
que beleza a deste mundo.

Não gosto das pessoas que não têm lágrimas.
Não gosto das pessoas que não gostam de lágrimas.
Eu gosto das pessoas que se tornaram numa lágrima.
A alegria também não é alegria sem lágrimas.
Será que existe amor sem lágrimas?
A visão de alguém sentado à sombra de uma árvore
enxugando as lágrimas do outro,
beleza e quietude.

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▪ Jeong Ho-Seung
( Coreia do Sul 🇰🇷)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga

NO DESERTO

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia…

Disse-lhe: É bom, amigo?
É amargo – respondeu –,
amargo,
mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.

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▪ Stephen Crane
( E.U.A. 🇺🇲 )
Mudado para português por _ Herberto Helder

Qualquer coisa de intermédio

 

Se eu fosse o outro,
o do chapéu macio e do bigode
eternizado em cúbico arremedo,
angústia dividida em tantas partes
e óculos redondos,
podia-te contar eu guardador e sonhos

Se eu fosse o outro,
o delicado e bêbedo génio de nós todos,
o que amou estranho e sabia dizer
coisas enormes numa pequena língua
e fraco império,
se eu fosse aquele inteiro
ditado de exageros e exclusões,
falava-te de tudo em ingleses versos

E mesmo se não foi ele quem disse
(e podia até ser, que eram amigos
e o século a nascer arrepiava como já não
o fim) há razão nessa história do pilar
e do tédio a escorrer de um
para o outro

 

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▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Minha Senhora de Quê”, Quetzal Editores, Lisboa, 1999

X

 

doutora, hoje enviei o poema para a consulta, porque tenho a vida hasteada a meia altura. isto de ser eu, de cara destapada, já inundou muitos dedos na sede. muitas paredes enrugadas. durante a respiração, morre-me outra primavera nos braços e no sono e não sei o que fazer ao pássaro. a ligadura debaixo da pele vai segurando o corpo. e vou-me habituando à dor como árvore corcunda. doutora, eu sou os juros da ansiedade em estátua. o invisível em espaço farto, vazado pelo espírito levado aos bocados. cada pessoa, lugar, beijo, verso. coisa outra acontecida e tardia pela fala. a doação desmembrada, a rotura nos ligamentos pensados, o cansaço à queima-roupa. e esta linguagem toupeira, sem legendas, à procura. continuo a ensaiar no estúdio arcaico da solidão, repetidamente. há nódoas negras no ritmo, mas o casulo dilata o tronco. porque eu prefiro jantar com a morte do que a peste debaixo do tapete. porque a doutora sabe que a cidade da alegria está cheia de polícias contra o azul. em breve darei notícias. em tempo de hemorragia, falar é hospital

 

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▪ Diogo Costa Leal
( Portugal 🇵🇹 )

in “a depressão fala o fogo”, Edições Humus,2023

DIÁRIOS

Eu não saio, não ligo para ninguém. Cumpro uma estranha penitência.
O meu coração dói terrivelmente.
Tanta solidão. Tanto desejo. E a família pairando ao meu redor, sobrecarregando-me com a sua horrível carga de problemas diários.
Mas eu não os vejo. É como se eles não existissem.
Sinto, quando eles se aproximam de mim, uma aproximação de sombras irritantes.
É verdade que quase todos os seres me irritam.
Quero chorar. E faço-o.
Choro porque não existem seres mágicos.
O meu ser não estremece diante de qualquer nome ou olhar.
Tudo é pobre e sem sentido.

 

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▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )