notas do caderno de apontamentos do meu avô francisco

Os
que entram no mundo
pelo silêncio das florestas.
Os que vêem apenas
quando a luz
os cega.
Os que repetem
em voz alta
os nomes dos frutos.
Os que procuram até ao fim
a árvore
dos significados.
Os
que não
acreditam.
Os que não temem
o frio
do inverno.
Os
que não têm
contas a prazo.
Os que chegam sempre
tarde
às paragens dos autocarros.
Os que se esquecem
de riscar os dias
nos calendários.
Os que se recusam
a serem jovens
para sempre.
Os que guardam
as sementes
nas gavetas das cómodas.
Os
que não têm
pátria.
Os que deixam
entre as folhas dos livros
os retratos antigos.
Os
que enlouquecem
devagar.
Os
que têm
a obsessão dos mapas.
Os
que se rendem
à linguagem.
Os que crêem
no poder obscuro
dos acasos.
Os
que olham
as estrelas.
Os
que se
perdem.
Os
que não esperam nada
do mundo.
Os
que não têm nada
a perder.

 

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▪ José Carlos Barros
( Portugal 🇵🇹 )

 

O SENHOR DEGAS ENSINA ARTE E CIÊNCIA NA ESCOLA INTERMEDIÁRIA DE DURFEE – DETROIT, 1942

Ele fez uma linha no quadro,
um traço negro da direita para a esquerda
a descer e recuou
para perguntar, sem olhar para ninguém em particular
como de costume: “O que é que eu fiz?”
Do fundo da sala Freddie
exclamou: “Quebrou um pedaço
de giz.” O senhor Degas não sorriu.
“O que é que eu fiz?” repetiu.
Os alunos mais inteligentes
concentraram o olhar nas escrivaninhas
excepto Gertrude Bimmler, que levantou
a mão antes de falar. “Senhor Degas,
o senhor criou a hipotenusa
de um triângulo isósceles.” Degas meditou.
Toda a gente sabia que Gertrude não podia
estar errada. “É possível,”
precisou ainda Louis Warshowsky,
“que tenha começado a representar
o telhado de um celeiro.” Lembro-me
de que passavam exactamente vinte das
onze, e eu pensei que na pior das hipóteses
isto continuaria por mais quarenta
minutos. Era o inicio de Abril,
a neve não tinha ainda derretido nos
pátios do recreio, os olmos e o ácer
bordejando passeios rachados
tremiam com o vento novo, e ocorreu-me
que antes que me desse conta estaria
a caminho da loja de doces
para comprar um Milky Way. O senhor Degas
enrugou os lábios e a aula
acalmou até que o braço longo
do relógio se moveu para o vinte e um
como que em cumplicidade com Gertrude,
que acrescentara confidente: “O senhor começou
a separar o escuro do escuro.”
Voltei-me a pedir ajuda mas agora as
árvores resistiam e tremiam e eu
percebi que isto podia durar eternamente.

 

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▪ Philip Levine
( E.U.A. 🇺🇲 )
Mudado para português por João Luís Barreto Guimarães

O HÓSPEDE

Perguntava-te tarde na outra noite
de onde brotam as violências do mundo
e tu abriste os teus olhos de farol em repouso
e convidaste-me a hospedar-me no teu silêncio.

Há tantas coisas, amor, que não entendi,
mas a tua hospitalidade não é uma delas.

 

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▪ Juan Gabriel Vásquez
( Colômbia 🇨🇴 )
Mudado para português por Nuno Júdice

QUEM SOU EU ?

A minha cabeça bate contra as estrelas.
Os meus pés estão nos cumes dos montes.
As pontas dos meus dedos estão nos vales e litorais da vida universal.
Na espuma sonora das coisas primeiras estico as mãos
e brinco com os seixos do destino.
Fui ao inferno e voltei várias vezes.
Conheço bem o céu, pois conversei com Deus.
Chapinho no sangue e nas entranhas do terrível.
Conheço o arrebatado assomo da beleza
E a revolta maravilhosa do homem diante de todos os letreiros
a dizer “Não Entrar

O meu nome é Verdade e sou o prisioneiro mais esquivo
do universo.

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▪ Carl Sandburg
(Estados Unidos 🇺🇸)
Mudado para português por Vasco Gato

HOJE, AS CIDADES

Hoje, as cidades
ficaram um pouco mais longe
e eu não sei porquê
só sei que ficaram mais longe
as cidades
à beira-mar, havendo por todo o globo
as duas vidas:
eleanor damortis animada de festas e de estios
ou a rapariga que vive
a mil e quinhentos paus por mês
não sabendo no armário
outros sítios de ser festa ou esperar.
(do outro lado da ribeira o velho cão
Guarda o corpo como algas
E compotas de frio às seis da tarde…)
A rapariga do armário
Mata-se na cidade
Do outro lado de ser diferente o mesmo tempo.

 

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▪ R. Lino
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sião”, Organização e notas de Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, Editora Frenesi, Lisboa, 1987

Confesso

Andei a persegui-la
pelo mini-mercado: a sua coroa
de tranças imaculadas, presas na perfeição por um gancho prateado,
a sua postura direita, irradiando suavidade,
o modo como colocou os iogurtes e os abacates no cesto,
espalhando paz como a Estrela Polar.
Quis perguntar-lhe “Em que corredor encontraste
a tua serenidade, sabes como
se consegue estar casado durante cinquenta anos, ou como viver sozinho,
desculpa-me por estar a interromper, mas pareces ter
um grau de sabedoria que faz a terra arder e girar no seu eixo -“,
só que nós não pedimos este tipo de informações a estranhos
nos nossos dias. Pelo que me limitei a dizer, “Adoro o seu cabelo.”

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▪ Alison Luterman
(Estados Unidos 🇺🇸)
Mudado para português por L.F. Parrado