ESCREVIAS PELA NOITE FORA

Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romãs no chão e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.

 

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▪Helder Moura Pereira
( Portugal 🇵🇹 )
in “De Novo as Sombras e as Calmas”- Contexto, 1990

Vem,minha irmã

 

Vem, minha irmã, traz o cântaro de azeite.

acompanha-me! Pois não esqueceste o ritual
entre nós devotamente guardado.
Este é o sétimo verão que ouvimos, enquanto,
tirando água da fonte, conversávamos:
nesse mesmo dia o nosso noivado morreu:
vamos à fonte do prado, onde dois álamos
estão de guarda perto de um pinheiro,
buscar água com o cântaro de barro cinzento.

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▪ Stefan George
( Alemanha 🇩🇪 )

Mudado para português por Luís Costa

 

ESQUEÇO-ME DE OLHAR

A fotografia da minha mãe no seu escritório dos anos 50
anda na minha carteira há vinte anos,
o papel acastanhado foi desbotando
e a borda recortada enrolou-se, depois endireitou-se.

A gola do vestido está discretamente cruzada.
Poderíamos supor que a chamam de longe,
dado o ângulo que o pescoço toma.

Era a primeira da família a apanhar
o autocarro de Claremont
que sobe a colina até à universidade.

A certa altura, durante as aulas na escola de medicina,
os estudantes negros tinham de arrumar as suas coisas
e de abandonar o anfiteatro, caminhando ao longo das filas de carteiras.

Atrás da porta fechada, decorria uma autópsia
e os estudantes negros não deviam ver
a pele branca exposta e cortada.

Sob a faca, sob a pele,
mistério da semelhança
num mundo que definia o modo como preto e branco
podiam olhar-se mutuamente, tocar-se,
a minha mãe olha para trás com uma desenvoltura intacta.

Cada vez que abro a carteira,
lá está ela, tão familiar que me esqueço
de olhar.

 


▪ Gabeba Baderoo
(🇿🇦 África do Sul)
Mudado para português por _ Soledade Santos _ a partir da versão francesa

Líquido amor

Líquido amor
meu lago de narciso
onde pra ver-me não posso penetrar
e onde penetro sempre
porque na minha imagem
destruída
talvez te encontre a ti
se tu existes

e então existiria
para o lado de lá da ironia
com que nem finjo já sequer acreditar
no que procuro
sempre
porque já sei demais que esta procura
é o seu próprio fim
para que eu teça
e seja
o falso corpo construído
verdadeiro
da minha luz perdida

se tivesse havido luz
que eu pudesse ter perdido

mas nem lagos há
onde
me olhando
eu veja a tua imagem
há o teu corpo
há o meu corpo
há esta raiva fria
que prevê
e além da roupa e do perfume
em que fingimos nossos corpos
não temos nada mais que ossos e sangue
os lagos que os rochedos separaram
pra que não possam mais que reflectir
a sua bloqueada comunhão

 

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▪ Helder Macedo
(🇿🇦 África do Sul)
in “Poemas Novos e Velhos”, Editorial Presença Lisboa, 2011

EU VI KAFKA NO QUARTO DE BRINQUEDOS

Eu vi Kafka no quarto de brinquedos
Conduzia um trem infinito
sobre trilhos que pareciam enguias
Debaixo da cama outra criança desarmava
uma lagarta fluorescente
A lagarta tinha o rosto de Kafka
também os móveis, os relógios
as paredes tinham seu rosto
as aranhas aborrecidas em suas teias
os brinquedos no quarto
O único que não tinha o rosto de Kafka
era o próprio Kafka cujo rosto
parecia uma página em branco.

 

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▪ Mario Meléndez
( Chile 🇨🇱 )
Mudado para português do brasil por _ Floriano Martins

LÁ BEM NO ALTO

 
Lá bem no alto
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA

 

 

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▪ Mario Quintana
( Brasil 🇧🇷 )

 

ESTOU AQUI SENTADO NA MINHA CASA

Estou aqui sentado na minha casa
que é grande como uma mesa de mármore
tenho um pequeno espaço de trevas à frente
vejo que está cheio de mim vejo que está
num canto aborrecido do meu desespero
está sentado na minha casa prostrou-se
à minha frente e então não tenho outra vontade
que não de anunciar sente-se amigo sente-se
ao que vem sou eu disse-me sou uma história
uma diligência um mito comes carne
perguntei lá de onde estava sentado cada vez
cada vez mais me parecia um trono e ela
ela diz-me tenho estepes e perco-me de vista
e eu estava aqui sentado na minha casa
de gestos contidos sabes como quando conquistei
Paris e dei dois pulinhos de emoção contidos
como quando era criança e julgava que toda
toda a gente estava a olhar para mim e ainda pior
que afinal tinha passado desapercebido dei
dei dois passinhos de emoção rejubilei contido
e hoje passei o dia na minha mesa do tamanho
de um estádio de mármore e sussurrei
és tu és tu aqui mãe com nome de seita
estou disposto a matar por tuas mentiras
por exemplo que sou teu que me queres
lembras-te quando me fazias sentar do outro
do outro lado da mesa enquanto me negavas
um beijo lembras-te Mãe Rússia quando
à noite te pedia um sorriso sem dizer palavras
e tu quase me aconchegavas antes de apagar
antes de apagares e então estou aqui agora
sentado à espera de um botão de um erro
de uma falha de comunicação para fazer de ti
Terra das Terras Monstro dos Monstros
uma mesa bem grande de um rio ao outro
ah estou aqui sentado na minha casa
à espera que não haja hoje paredes para ela
que se possa transviar intuir rasgar
e formar muros de pedra de madeira
lembras-te como aquele que destruíste
aquele pobre carrinho aquele pobre trenó
de brincar em que me arrastava à espera de ti
à espera de uma mãe e quando já de noite
decidia que nunca iria tocar em bebida
já tu estavas sentada à minha frente e agora
que agonizo como um comum mortal que acreditou
em histórias vejo tão claramente que quis o que quis
e prostrei a meus pés os meus inimigos rijos
eram tantos como as estrelas do céu ou mais
agora aqui deitado na minha casa rodeado
por pessoas que me temem mas não me respeitam
como a Mãe Rússia e os seus cabelos de palha
e os seus cabelos de puta agora aqui deitado
ou sentado na minha casa recordo- me
inflo-me exalto-me se fosse poeta seria capaz
de escrever tudo isto subjuguei os outros
os outros que foram nossos dei cabo deles
trucidei-os desfi-los arruinei-os
porque foram ainda por cima irmãos desavindos
e com o seu sangue fiz um risco na cara
e chorei pouco ou melhor nada porque
porque desde que me deste cabo dos brinquedos
mãe ando com desejo de invadir a Polónia
os Normandos os Vikings e os Sumérios
desde que me possa sentar de novo na minha mesa
com mármore de vinte e quatro quilates
e ter alguém à espera do meu nojo isto é
do meu lamento profundo pelo passado
e pela esperança de um grandioso futuro
cheio de cadeiras e de olhares sérios e tristes
porque afinal irmão tive que vos destruir
para saberdes que sempre vos amei
aqui sentado na minha casa
de onde se vê sempre o sol morrer
e onde não há trevas que me cubram
apenas uma mesa enorme debaixo da qual
me escondo à espera que as bombas caiam
num outro país que escolhi sentado.

 

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▪ Pedro Braga Falcão
( Portugal 🇵🇹 )

 

Os teus olhos

Direi verde
do verde dos teus olhos

um rugoso mais verde
e mais sedento

Daquele não só íntimo
ou só verde

daquele mais macio
mais ave
ou vento

Direi vácuo
volume
direi vidro

Direi dos olhos verdes
os teus olhos
e do verde dos teus olhos direi vício

Voragem mais veloz
mais verde
_________ ou vinco

voragem mais crespada
ou precipício

 

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▪ Maria Teresa Horta
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia Reunida”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009