fecham-se as cortinas
dos sentidos
desfaço-me no pensamento
e talvez um piano seja o espaço ideal
para uma palavra que não me cabe agora
¿que riso de criança alastrada é este?
a ecoar
entre a saudade de mim
e a morte
brincando ao baloiço arcaico da vida:
alma-sobe
alma-desce
alma-sobe
alma-desce
alma-sobe e um gato na minha língua
a querer saber porque é que nunca prevê as pancadas
alma-desce
e os pés da nudez
descalços
nas arcadas da saudade
…
és tu?
és tu
quota parte enigmática de mim
na persiana aberta do amanhã
à minha espera
de mão nua
ambos separados por este inverno granítico de ser
dentro do próprio verão de amar,
o palato da substancia crua das coisas
e o piano entre as mãos como cântaro
para a lama do coração na memória esquecida
– amei até enterrar-me com as sementes
e quem me colhe são as cruzes adiantadas
nos expoentes.
Poema e Voz | Diogo Costa Leal
Guitarra | João Canedo
As formigas são eussociais
Pequenas reticências terrestres
As formigas são a força mais coesa esquecida pelos homens
Cada pequena formiga
segura as suas gerações inteiras num único ninho de abundância secreta
cada pequena formiga
cuida de patas dadas alastradas a uma só unidade
a prole insuperável, porque longe das coroas maiores que as formigas.
Cada pequena formiga divide e ausculta a sua minúscula indispensável tarefa
Cada pequena formiga é reprodutora
E outra é operária
Todas na sua tarefa sanguínea da sabedoria do verbo mais contínuo
Suor longevidade impenetrável inquestionável sob os nossos pés
E nós
Os monstros homens
A atropelarmo-nos a cada novo dia
Como grandes e tenebrosas formigas amnésicas
Homens ausentes dos próprios homens
Pisando os homens como quem pisa a negligência com o ombro que esbate na pressa
De um outro homem passado.
Vejo uma pétala sozinha a caminhar.
Não. É uma formiga que a leva.
A pétala é bem maior que a formiga e a formiga não se detém:
Chama mais uma formiga e outra e outra
Mil formigas a não descansar enquanto a pequena grande pétala não for levada
Para dentro de um pequeno buraco
Porta para uma grande vida geral.
Uma nova formiga sobe a minha mão
Faz-me amar a coerência perfeita da sua espécie…
Quem me dera que ela me chamasse as amigas
E me servisse pétalas à sua mesa..
Escrevo sobre o prolongamento invisível das formigas
Ah formigas pequenos deuses da derradeira coesão inquebrável
E nós, os homens
Essa longa interrogação egoexcêntrica
Cantamos quando devíamos suar.
Suamos demais quando devíamos cantar
Desço a mão
E uma formiga regressa a casa
E fica-me um formigueiro nos dedos
Prontos enfim
Para uma escrita de novo mais animal mais incansável
Uma escrita que leve um pequeno grão de areia
Ou uma pequena pétala
Ao amor abandonado da humanidade.
Aos amantes das belas letras
Faço chegar os meus melhores desejos
Vou mudar o nome de algumas coisas
A minha posição é esta:
O poeta não cumpre a sua palavra
Se não mudar o nome das coisas.
Por que razão o sol
Há-de continuar a chama-se sol?
Peço que se chame Micifuz
O das botas de quarenta léguas!
Os meus sapatos parecem ataúdes?
Pois saibam que de hoje em diante
Os sapatos se chamam ataúdes.
Comunique-se, anote-se e publique-se
Que os sapatos mudaram de nome:
Doravante chamam-se ataúdes.
Bem, a noite é longa
Qualquer poeta que se tenha em boa conta
Deve ter o seu próprio dicionário
E antes que me esqueça
Ao próprio deus é preciso mudar o nome
Que cada qual o chame como queira:
Esse é um problema pessoal.
_
▪ Nicanor Parra
( Chile 🇨🇱 )
in “Acho que Vou Morrer de Poesia” – Antologia Breve, Língua Morta, Lisboa, 2015
Selecção e tradução – Miguel Filipe Mochila
Muda mil e uma vezes de sapatos,
de blusa, de casaco, de batom…
Por fim dá um último toque
numa sobrancelha e sorri: “Já está”.
Trauteando uma velha canção,
pega no saco e sai. Feliz.
Como nunca pensou poder sentir-se.
_
▪ Karmelo C. Iribarren
( Espanha 🇪🇸 )
in “Estas Coisas Acontecem de Repente” _ Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho
Acho que me posso desintegrar;
uma noite fria
fechada em casa
Acho que posso explodir.
Talvez as minhas chamas saiam pelas janelas,
E as minhas cinzas inundem a sala
– a cor das paredes finalmente mudaria –
As minhas cartas provavelmente disparariam
violentamente até ao teto
e a fumaça perfuraria o céu –
uma dessas noites vazias.
Chove uma grossa chuva inesperada,
Que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
Duma vida que é chuva e não parece.
Chove, grossa e constante,
Uma paz que há-de ser
Uma gota invisível e distante
Na janela, a escorrer…
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