CONFORMIDADE

Chego ao hotel e peço
o quarto mais barato que tiverem,
uma cama limpa e sem vestígios de humanidade.

Quero um quarto sem cortinas
porque a lua vai cheia e as cortinas não fazem falta,
também não desejo aquecimento e odeio ar condicionado.

Quero tudo reduzido à expressão mais simples –
não preciso de espelho para lavar os dentes,
não quero telefone nem televisão.

O cinzeiro deixem-no ficar,
embora eu não fume propiciará
o justo ritual de um auto-de-fé.

 

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▪ Soledade Santos
( Portugal 🇵🇹 )

 

REFLEXÕES

O nível médio daquilo que se publica, seja onde for, é muito baixo. Esta é a verdade em todo o mundo. As pessoas compram coisas que falam sobre o hoje e quando o hoje se tornar ontem já ninguém vai ler aquilo.

 

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▪ António Lobo Antunes
( Portugal 🇵🇹 )

 

A CADEIRA AMARELA DE VAN GOGH

No chão de tijoleira uma cadeira rústica,
rusticamente empalhada, e amarela sobre
a tijoleira recozida e gasta.
No assento da cadeira, um pouco de tabaco num papel
ou num lenço (tabaco ou não?) e um cachimbo.
Perto do canto, num caixote baixo,
a assinatura. A mais do que isto, a porta,
uma azulada e desbotada porta.
Vincent, como assinava, e da matéria espessa,
em que os pincéis se empastelaram suaves,
se forma o torneado, se avolumam as
travessas da cadeira como a gorda argila
das tijoleiras mal assentes, carcomidas, sujas.

Depois das deusas, dos coelhos mortos,
e das batalhas, príncipes, florestas,
flores em jarras, rios deslizantes,
sereno lusco-fusco de interiores de Holanda,
faltava esta humildade, a palha de um assento,
em que um vício modesto – o fumo – foi esquecido,
ou foi pousado expressamente como sinal de que
o pouco já contenta quem deseja tudo.

Não é no entanto uma cadeira aquilo
que era mobília pobre de um vazio quarto
onde a loucura foi piedade em excesso
por conta dos humanos que lá fora passam,
lá fora riem, mas de orelhas que ouçam
não querem mesmo numa salva rica
um lóbulo cortado, palpitante ainda,
banhado em algum sangue, o «quantum satis»
de lealdade, amor, dedicação, angústia,
inquietação, vigílias pensativas,
e sobretudo penetrante olhar
da solidão embriagadora e pura.

Não é, não foi, nem mais será cadeira:
Apenas o retrato concentrado e claro
de ter lá estado e de ter lá sido quem
a conheceu de olhá-la, como de assentar-se
no quarto exíguo que é só cor sem luz
e um caixote ao canto, onde assinou Vincent.

Um nome próprio, um cachimbo, uma fechada porta,
um chão que se esgueira debaixo dos pés
de quem fita a cadeira num exíguo espaço,
uma cadeira humilde a ser essa humildade
que lhe rói de dentro o dentro que não há
senão no nome próprio em que as crianças têm
uma fé sem limites por que vão crescendo
à beira da loucura. Há quem assine,
a um canto, num caixote, o seu nome de corvo.
E há cantos em pintura? Há nomes que resistam?
Que cadeira, mesmo não-cadeira, é humildade?
Todas, ou só esta? Ao fim de tudo,
são só cadeiras o que fica, e um modesto vício
pousado sobre o assento enquanto as cores se empastam?

 

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▪ Jorge de Sena
( Portugal 🇵🇹 )

 

O LIVRO

Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para
ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para
metade da livraria.
Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa,
senão estou perdido.
No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas
muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.

Comprei um livro de filosofia. Filosofia é a ciência que trata
da vida; era justamente do que eu necessitava-pôr ciência na minha
vida.
Li o livro de filosofia, não ganhei nada, Mãe! não ganhei nada.
Disseram-me que era necessário estar já iniciado, ora eu só
tenho uma iniciação, é esta de ter sido posto neste mundo à imagem
e semelhança de Deus. Não basta?

Imaginava eu que havia tratados da vida das pessoas, como
há tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim
parecidos com o tratamento que há para os animais domésticos,
não é? Como os cavalos tão bem feitos que há!
Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como há
hóstias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma
hóstia. Um livro pequenino, com duas páginas , como uma hóstia.
Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com
a morada e o dia.

 

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▪ Almada Negreiros
( Portugal 🇵🇹 )

 

O horizonte claro

 

Um dia reencontraremos as nossas pombas
e o amor e a beleza serão colhidos à mão.

O dia
em que o mínimo canto será um beijo
e cada pessoa um irmão para a outra.

O dia em que ninguém feche a sua porta,
o cadeado se converta em relíquia
e o coração seja suficiente para viver.

O dia em que o sentido de cada palavra seja desejar,
para que não procures a última palavra.

O dia em que a melodia de cada letra seja vida
para que eu não persiga a rima do meu último poema.

O dia em que cada lábio seja canção
para que o mínimo canto seja um beijo.

O dia em que chegues e fiques para sempre
e o amor se identifique com a beleza.

O dia em que voltaremos a atirar miolo de pão às nossas pombas.

Espero esse dia,
mesmo que cá não esteja.

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▪ Ahmad Shamlú
(Irão 🇮🇷 )
Mudado para português por Luis F. Parrado

Anoitece em inferno a minha casa

Anoitece em inferno a minha casa.
Fico com este começo de verso
a serenar a exaltação de não dizer nada.
Deixem-me com este sorriso a morrer
por uma sílaba mais real onde um verso
me sossegue
com unhas de lama e sangue,
como garras.
Anoitece em inferno a minha casa.
Fica a certeza de não ter fim o que
de inutilidades se basta,
ou apenas o instante em que,
por um verso, eu fui
à outra parte da casa.

 

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▪ Helga Moreira
( Portugal 🇵🇹 )

In “Agora que falamos de morrer”, & Etc Editora, Lisboa, 2006

ESCREVIAS PELA NOITE FORA

Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romãs no chão e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.

 

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▪Helder Moura Pereira
( Portugal 🇵🇹 )
in “De Novo as Sombras e as Calmas”- Contexto, 1990

Vem,minha irmã

 

Vem, minha irmã, traz o cântaro de azeite.

acompanha-me! Pois não esqueceste o ritual
entre nós devotamente guardado.
Este é o sétimo verão que ouvimos, enquanto,
tirando água da fonte, conversávamos:
nesse mesmo dia o nosso noivado morreu:
vamos à fonte do prado, onde dois álamos
estão de guarda perto de um pinheiro,
buscar água com o cântaro de barro cinzento.

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▪ Stefan George
( Alemanha 🇩🇪 )

Mudado para português por Luís Costa