DIÁRIOS

Eu não saio, não ligo para ninguém. Cumpro uma estranha penitência.
O meu coração dói terrivelmente.
Tanta solidão. Tanto desejo. E a família pairando ao meu redor, sobrecarregando-me com a sua horrível carga de problemas diários.
Mas eu não os vejo. É como se eles não existissem.
Sinto, quando eles se aproximam de mim, uma aproximação de sombras irritantes.
É verdade que quase todos os seres me irritam.
Quero chorar. E faço-o.
Choro porque não existem seres mágicos.
O meu ser não estremece diante de qualquer nome ou olhar.
Tudo é pobre e sem sentido.

 

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▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )

Manhã de Agosto

Nesta manhã de Agosto
encontrei o papel onde tinha escrito
a idade em que Blaise Cendrars
perdeu a mão direita
e fiquei a sentir a dor
que me atormentava. Não tomei aspirina
nem esqueci a tua carta
de ontem, aquele momento
em que dizes eu querer
arrastar-te comigo “para esse universo
onde a vida é trocada por palavras”.

Tenho lido os poetas
da minha geração. Conheço
o primeiro poema, aquele que inaugurou
a vida, também em mim.
Cansada de ir à praia, à piscina,
procuro livros, uma emoção linguística,
o verso desconhecido.
Guardei uma frase de Musil, na caixa
onde tenho os selos, um minúsculo relógio
que decidi não usar.

Não posso viver sem a música de Schubert,
ou aquela peça de Brahms – tudo isto
são palavras, a vida passa-se lá fora,
o Inverno há-de vir e não poderei
totalmente fugir ao desconforto.

Falava-se de As Túlipas
e começo a entender. Esta música,
estas palavras, a morte na dobra do lençol,
meu frio corpo na penumbra, no paraíso inicial
da anestesia. Perdida a razão no inferno
da dor, a cabeça irreal, meu poema
esquecido na margem do sono. A morfina,
as enfermeiras, tudo o que pudesse
polir o tormento.

E hoje acabei
por tomar aspirina, gastar o rosto,
permanecer em casa.

 

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▪ Isabel de Sá
( Portugal 🇵🇹 )
In “ O Duplo Dividido”, &etc Editora, Lisboa, 1993

DA DIFICULDADE DA BELEZA

A beleza é difícil.

Queria ensaiar uma magia menor
com a consciência de que cada homem tem a sua porção de paraíso
mesmo nos lugares mais adversos.

Mas a minha adversidade é uma paisagem
povoada de medos e de cinzas.
Vejo morte e sofrimento lá longe
e o que me comove está mais perto e é inapreensível.

Penso naquele pátio medieval de uma aldeia da Beira Interior
onde ontem assisti ao prelúdio de uma noite de verão.
O poço negro dos céus. A hera baloiçando ao vento. O cortejo das estrelas.
Um rumor de insectos roendo os interstícios do silêncio.

Poderia enumerar todas as coisas que então preencheram os meus sentidos
e reduzir essa expressão de coisas que desfilam, recebem nomes,
a um falhanço sem limites.

Retomo a pedra fria em que estive sentado naquela noite.
Toco-a com o pensamento até à falaz eloquência da realidade.

Falhar é seguir, novamente, a estrada da atrocidade quotidiana.

Penso em Ungaretti nas trincheiras
recordando os seus rios: o Isonzo, o Nilo, etc.
Há uma fuga nesta indiferença.
São nobres os exemplos
e exemplar a responsabilidade do alheamento.

Vejo um campo devastado dentro de mim,
a torre da Canção erguendo-se sobre as ruínas da tranquilidade
que me cerca.

A beleza é difícil.

Procuro a noite e a solidão num pátio medieval.
Procuro na minha memória esta noite e essa solidão.
É preciso salvar o momento, penso.
E distante no tempo, um outro o salva:
um poeta nomeia os seus rios
numa frente de combate.
A morte envolve-o. Porém, ele assume a ventura da beleza.
Assina o seu rosto junto ao sofrimento.

Com o início desse conhecimento
escrevo: «A beleza é difícil. Pode derrubar-nos, entretanto.»

 

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▪ Luís Quintais
( Portugal 🇵🇹 )
in “A Imprecisa Melancolia”, Editorial Teorema, Lisboa, 1995

MEDO DO QUE SOMOS

A multidão toca sempre a violência.
Mas a solidão é que é sempre considerada um castigo:
Assusta tanta gente. E, no entanto, o monstro
está na multidão: dos manifestantes,
ou dos polícias, dos grandes comícios políticos,
dos estádios cheios, dos desfiles com armas,
dos exércitos atacando ou defendendo,
a multidão dos mortos, as casas arrasadas.
Então porquê todo este medo?
Quão impiedosa, esta espécie
a que pertenço. Nenhuma outra é tão malvada.
Engana quando é frágil e nos mostra
o sofrimento de crianças de velhos e doentes.
Mas as multidões precisam de matar.
Com as entranhas frias, agora afasto-me
como um animal de bosque.

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▪ Joan Margarit
(Espanha 🇪🇸)
in “Animal de Bosque”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2024
Mudado para português por Miguel Filipe Mochila

DÍVIDA ETERNA

Um dia descerão do céu
os novos anjos com as suas asas
e gravatas
as suas pastas com títulos e ações
do céu
em alta.

Descerão
ouvindo música pop
nos seus auscultadores de prata
e entrarão no templo
a trautear canções
e a exigir-nos os juros
de tudo quanto devemos.

A nós que tudo devemos.

Aqui na terra
como no céu.

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▪ António Quintas Mendes
( Portugal 🇵🇹 )