A LEI

Em criança fui um homem sozinho numa casa de mulheres.
À excepção do meu pai, à excepção do meu avô e do meu irmão,
fui um homem sozinho numa casa de mulheres
que se vestiam de vermelho e, em segredo,
usavam nomes de princesas antigas
para que o sonho coubesse todo na sua absurda forma de cristal.
Às vezes sozinho, sem nunca as entender,
falava a sua própria língua, como se fosse acreditar sempre
que a minha mãe e as minhas irmãs inventaram, só para elas,
todo o pranto e todo o silêncio que cabem no mundo.

Um dia Raquel ensinou-me a brincar com bonecos vestidos de púrpura
e a imaginar neles Hannah, em oração, quarenta anos mais nova,
na sua cama rodeada de arame farpado, a apaixonar-se pelo senhor F.
e pelos seus olhos cinzento-anjo.
Foram de longe os anos mais felizes da minha vida,
os que antecederam a clausura do Inverno no meu peito,
no dia em que o meu avô morreu.

Só então chorei, quando vi o meu pai aproximar-se do corpo
para o tapar, antes que os corvos lhe ensinassem
o que há que fazer àqueles que morrem.
Mal se suspendeu o céu fez-se negro o seu rosto.
Comprei-o, comprámo-lo caro com o trabalho doloroso das nossas mãos.
Aquietaram-se as árvores, o vento, as mudanças
e os pássaros puderam enfim repousar do seu voo de séculos.
Trinta dias de sol e secura se seguiram e, à primeira gota de chuva,
o meu pai abriu as portas de casa e houve festa.
O meu pai abriu as portas de casa e saíram as mulheres
e entraram os senhores da lei. Disseram
Sempre que invocarmos o teu nome virás a nós e nos abençoarás
Nessa mesma noite ensinaram-me
que Deus desenha o tempo à régua e nunca ao compasso
e que para Ele os olhos têm horizonte.

Anos mais tarde, quando já nenhum homem se importava
que chovesse ou não, deixei os meus antepassados sozinhos,
uns com os outros, a escrever e a pensar a lei e o sangue,
como se isso fosse pelo menos metade da vingança que o Senhor nos merece.
Uma fé inexistente talvez tivesse sido uma fé melhor,
no extenso bosque do meu peito negro,
com o meu avô, com o meu pai e com os seus olhos vazios virados para Leste.

 

▪ David Teles Pereira
( Portugal 🇵🇹 )

 

CONTEXTO

Eu não fiz nada de errado
e a morte veio para metade da minha família.
Três mães e uma amiga. Eu não fiz nada de errado.

Eu não fiz nada de errado
e perdi o meu bebé no chão.
Eu perdi metade da minha mente
na sala de espera do hospital. Eu não fiz nada de errado.

Eu não fiz nada de errado.
e eu perdi você.

Ferida estranha e complicada.
Acumulação de todas as perdas que vieram antes.
Eu só estava tentando proteger.
Eu não fiz nada de errado.

Eu sei que a minha vida é de ouro.
Eu sei que, com ajuda, lutei muito.
Não sei como gravar a marca d’água nos calcanhares,
como impedir que meus membros recuem.
Como sentir metade de alguma coisa. E recuse educadamente a outra peça.
Como me manter em um só lugar. Eu não fiz nada de errado.

Como estancar o sangramento, em todas as circunstâncias, no chão.

Eu não fiz nada de errado.

 

_

▪ Elizabeth M. Castillo
( Inglaterra 🇬🇧 )

 

O SILÊNCIO

Tu não terás outra morada senão teu coração;
Pois sobre a Terra, onde somos viajantes,
Ninguém construirá sua morada permanente:
Tu não terás outra morada senão teu coração.
Então, ao redor dele, na atmosfera ardente,
Que nasce dele, que o envolve e que aspira
Todos os raios vindos das coisas que ele deseja,
Evoca o silêncio e o divino silêncio;
A forma que reveste a primeira hipostase,
Obedecendo a quem a espera com poder,
Levar-te-á sobre as quatro asas do êxtase.
A vida interior é feita de silêncio.
Ela é o palácio cuja base é o silêncio.
Ela é a flor de fogo: o silêncio é o vaso,
O silêncio é o vaso onde bebes a beleza.
Tu que aqui passas, é certo, mas indeciso
Entre tua vida real e tua vida aparente,
Tua vida real, tenebrosa e veemente
Como a paixão, o trovão e a morte,
Cobre com um véu de sombra e de noite o tesouro
Dessa vida interior, que mede
Entre tuas almas a melhor e a mais pura,
A fim de que nada atente contra seu mistério intenso,
E que sua força virgem, integral, se empregue
A vestir a ocupação em que as mãos do silêncio
Se incumbirão de tecer o tecido da tua alegria.

 


▪Victor-Émile Michelet
( França 🇨🇵 )