Na corda da roupa
os meus pedaços de corpo estendidos,
para que o sol
me encolha a dor.
_
▪ Marta Rocha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Metamorfoses do corpo enquanto dorme”, Editora Urutau, 2023
Na corda da roupa
os meus pedaços de corpo estendidos,
para que o sol
me encolha a dor.
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▪ Marta Rocha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Metamorfoses do corpo enquanto dorme”, Editora Urutau, 2023
Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me, uma vez mais, que o par
do conto foi feliz até à morte,
que ela não lhe foi infiel, que ele nem sequer
pensou em enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam cada noite a beijar-se.
Conta-mo mil vezes, se faz favor:
é a história mais bela que conheço.
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▪ Amalia Bautista
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português do brasil por Nelson Santander
O café está aberto anda,
os mortos estão lá sentados
em cadeiras acorrentadas, bebendo vinho
À nossa custa. Há algumas casas –
Retiradas do mar – a ver.
Um pedinte recolhe moedas e
atira -as aos mortos como um sacrifício.
Do bar, estendendo-se até ao mar,
há uma estreita faixa de luz
pela qual os mortos se afastam,
sobre a água. Permanecemos, ali sentados,
até o dia esfregar os olhos.
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▪ Michael Krüger
( Alemanha 🇩🇪 )
in “ Deus escreveu demasiado”, edição do lado esquerdo,2022
Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho
Sempre que olho para o oceano, sempre quero falar com as pessoas,
mas quando estou a falar com as pessoas, sempre quero olhar para o oceano.
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▪ Haruki Murakami
(Japão 🇯🇵 )
quando a casa se cala
de repente aprendo a ter medo
e fui eu que pedi este silêncio
abro e fecho armários e gavetas
quero um lugar fechado para guardar memórias
depois fico ali sentada
à espera que algo aconteça
–
▪ Maria Sousa
( Portugal 🇵🇹 )
Levo comigo uma bagagem silenciosa.
Fechei-me tão profundamente e por tanto tempo no silêncio
que nunca consigo abrir-me através das palavras.
Apenas me fecho de outras formas quando falo.
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▪ Herta Muller
(Alemanha 🇩🇪 )
Mordisca-me os lábios
cão pássaro rapaz
(não quero que te vás embora
e sei que vais ter de te ir embora)
quero dormir contigo
com a tua mão
sobre o meu coração
para que saibas
os meus segredos
beliscas-me ao de leve
eu sei que não é um sonho
mas é como um sonho
para mim
_
▪ Adília Lopes
( Portugal 🇵🇹 )
in “Dobra” (Poesia Reunida 1983 – 2007)
Eis tudo quanto me resta, este desejo:
Que, no aconchego da noite,
Me deixem morrer
E serenamente dormir
O mais próximo possível de um bosque.
Desejaria para os meus pés,
Sob um claro céu deitado,
A imensa praia do mar.
Não exijo cortejo fúnebre
Nem um sumptuoso ataúde,
Que alguém me construa um leito,
Um leito de arbustos me basta.
Nada de lágrimas sobre o meu túmulo,
Que apenas alguém escute,
Na voz do outono e do vento,
O vagaroso rumor das folhas a cair.
Pelo murmúrio das fontes,
Passam a dulcíssima lua,
De cume em cume, resvaladiça
Por sobre os abetos,
E, agravado pelo estribilho
De chocalhos ao longe,
O frio vento da noite.
Que um amante da flor da tília
Se debruce sobre o meu leito.
Nunca serei um exilado
Para o futuro.
E carinhosamente, as reminiscências
Poderão vir a ocultar-me
De todo o ócio.
Protegidas pelos negros abetos,
As estrelas da tarde
Voltarão a sorrir-me.
E as paixões poderão bramir
No ávido suspiro do mar.
Solitário, serei terra,
Terra restituída à terra.
–
▪ Mihai Eminescu
( Roménia 🇹🇩 )
in “Transversões, Poemas Reescrito Para Português”, por Zetho Cunha Gonçalves
Editora Contracapa, 2021
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