Arte poética com melancolia

Preocupam-me ainda as coisas do passado. Escrevo
como se o poema fosse uma realidade, ou dele nascessem
as folhas da vida, com o verde esplêndido de uma súbita
primavera. Sobreponho ao mundo a linguagem; tiro
palavras de dentro do que penso e do que faço, como
se elas pudessem viver aí, peixes verbais no
aquário do ser. É verdade que as palavras não nascem
da terra, nem trazem consigo o peso da matéria;
quando muito, descem ao nível dos sentimentos, bebem
o mesmo sangue com que se faz viver as emoções,
e servem de alimento a outros que as leem como se, nelas,
estivesse toda a verdade do mundo. Vejo-as caírem-me
das mãos como areia; tento apanhar esses restos de tempo,
de vida que se perdeu numa esquina de quem fomos; e
vou atrás deles, entrando nesse charco de fundos movediços
a que se dá o nome de memória. Será isso a poesia? É
então que surges: o teu corpo, que se confunde com o das
palavras que te descrevem, hesita numa das entradas
do verso. Puxo-te para o átrio da estrofe; digo o teu nome
com a voz baixa do medo; e apenas ouço o vento que empurra
portas e janelas, sílabas e frases, por entre as imagens
inúteis que me separaram de ti.

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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )

NO MORE TEARS

Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo.
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos,
no more tears disse Johnson & Johnson.
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães.
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras.
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio,
e chorava,
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima,
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó,
onde além de mim só estava eu.
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar.

 

▪ Adília Lopes
( Portugal 🇵🇹 )

SEREIA

tinha de entrar na casa de banho por uma cena qualquer
e bati à porta
estavas na banheira tinhas lavado o rosto e o cabelo
eu vi o teu torso
e tirando os seios
parecias uma menina de cinco, oito anos
estavas tranquilamente feliz dentro de água
Linda Lee.
não somente eras a essência daquele
momento
mas de todos os meus momentos
até àquele
tu tranquilamente tomando banho no marfim
mas não havia nada
que eu te pudesse dizer.

peguei naquilo que queria da casa de banho
uma cena qualquer
e saí.

 

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▪ Charles Bukowski
(E.U.A. 🇺🇲)
in “Sobre o amor”
Mudado para português por Valério Romão

S

Suspenso sobre a minha cama um crucifixo
para mim o amor é invisível
quem olhar para cima vê uma coroa de espinhos
a minha filha não compreende diz que sou doida
então tenho que pendurar o Filho do Homem
atrás da porta da dispensa  para ela saber que tenho uma coroa

 


▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “O guardador de segredos”

SAPATOS

Sapatos no guarda-roupa como lírios de Páscoa,
os meus sapatos sozinhos neste momento,
e outros sapatos com outros sapatos
como cães andando por avenidas,
e só o fumo não basta
e recebi uma carta de uma mulher no hospital,
amor, diz ela, amor,
mais poemas,
mas eu não escrevo,
não me compreendo a mim mesmo,
ela manda-me fotografias do hospital
tiradas do ar,
mas eu lembro-me dela noutras noites,
quando não estava a morrer,
sapatos com saltos como adagas
ladeando os meus,
como essas noites intensas
podem mentir tanto,
como essas noites se transformaram finalmente
nos meus sapatos no guarda-roupa
encimados por sobretudos e camisas sem jeito,
e olho para o buraco deixado pela porta
e para as paredes, e não
escrevo.

 

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▪ Charles Bukowski
(E.U.A. 🇺🇲)
in “Sobre o amor”
Mudado para português por Valério Romão

ESPERA

Esperamos e esperamos. Todos nós. Não saberia o analista que a espera é uma das coisas que faziam as pessoas ficarem loucas? Esperavam para viver, esperavam para morrer. Esperavam para comprar papel higiénico. Esperavam na fila para levantar dinheiro. E, se não tinham dinheiro, precisavam  de esperar em filas mais longas. A gente tinha de esperar para dormir e esperar para acordar. Tinha de esperar para se casar e para se divorciar. Esperar para comer e esperar para comer de novo. A gente tinha de esperar na sala de espera do analista com um monte de doidos, e começava a pensar se não estava doido também.

 

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▪ Charles Bukowski
(E.U.A. 🇺🇲)
in “O último suspiro do velho safado”

 

Esta é a melhor altura do ano

Esta é a melhor altura do ano
para cortar o cabelo, profere Sandy,
remexendo com a ponta dos dedos
alguns fiozinhos na testa.
A porra da lua atrai as marés,
cria tsunamis, invade o Japão,
provoca uma crise nuclear,
porque é que não haveria de fazer
crescer o cabelo?

Deus puxa os poetas pelos cabelos, explica Hölderlin
acrescento então,
preocupada com a importância literária do assunto.
Mas, para ter a certeza,
quis perguntar a um especialista,
isto é, a qualquer uma das mulheres
que estavam agora a fazer fila
à entrada do Ginásio Clube Português
como os grandes bandos de antílopes Impala
à beira de um pântano,
num documentário na Animal Planet.

Quis dizer-lhes que o dinheiro, a idade não conta,
que amanhã é outro dia,
mas depois lembrei-me dos terramotos,
da crise nuclear, do IVA,
e fiquei calada.

 

▪ Golgona Anghel
( Portugal 🇵🇹 )
in ‘Vim Porque Me Pagavam’, 2011

PERDAS E GANHOS

Eu vim aqui e soube imediatamente
que alguma coisa iria acontecer comigo
eu não sei o quê
porque tem dias na vida da gente
que a gente é capaz de perder tudo

perder a carteira
perder os documentos
perder o ônibus para casa
perder a casa
perder a mulher que estava dentro dela
perder o pai
perder a mãe
perder o filho

tem dias em que você é capaz de perder tudo
só que nesses dias você não percebe
que você pode começar a ganhar alguma coisa
porque quando você sempre ganha tudo
você não sabe
você não sabe o que está perdendo

 

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▪ Tavinho Paes
( Brasil 🇧🇷 )

Natal de ’44

Desde miúdo alegrava-se-me a face
quando chegava a festa do Natal.
Toda a noite trabalhava a peneira
e de manhã davam-me o fato bonito.

Então escapava-me de casa a correr
e andava na praça a mostrar-me;
e ao meio-dia em ponto na mesa enfeitada
comíamos todos em santa paz.

Oh, o meu Natal, o cheiro dos doces,
hoje passei-o às voltas numa estrada,
sem um pedaço de pão, a roupa emprestada,
longe de casa e sem amor de ninguém.

 


▪ Tonino Guerra
( Itália 🇮🇹 )
Mudado para português por Nuno Dempster