Essas coisas sempre acontecem de repente

Nada acontece. Ela está
num comboio expresso com destino
a Barcelona, e eu estou aqui,
na minha mesa de trabalho, a escrever
estes versos.
Ela partiu apenas há duas horas. Amanhã
falaremos por telefone.
Na TV, o seu sorriso esplêndido.
Nada acontece, como eu disse.
E de repente não sei o que fazer
com tanta solidão.

 
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▪ Karmelo C. Iribarren
( Espanha 🇪🇸 )

 

“A solidão é, assim, a configuração extremada da ausência do Outro. O Outro que se torna presente pela própria ausência configura em meu ser a sua necessidade. O desespero do homem contemporâneo apresenta várias facetas de sofrimento, mas seguramente a ausência do Outro é um dos maiores espectros dessa realidade.”

Valdemar Augusto Angerami
in solidao-a-ausencia-do-outro_compress
 

 

CORAÇÃO SEM IMAGENS

Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

 

▪Raul de Carvalho
( Portugal 🇵🇹 )

CARTA DA INFÂNCIA

Amigo Luar:

Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
…………minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
…………nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
………….cedo e te oiço bater, chamar e bater, na fresta
………….da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.

 

▪Carlos de Oliveira
( Portugal 🇵🇹 )
in “Trabalho Poético”, 1998

 

IMAGENS

Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.
E que senil te pendure outra vez
na mesma corda, as molas sempre iguais
e que se chove corra a apanhar
-te,
não te vás desbotar ou romper,
ou sei lá, por húmida metáfora
ou bolorenta imagem de cordel.

 

▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Coisas de partir”

A QUEM DEIXAREI O MEU CANSAÇO

A quem deixarei o meu cansaço,
as unhas sujas, as marcas
do martelo falhado, a quem
senão a quem…?
– Serão de quem viver depois do dia de hoje
o dia de hoje que eu vivi doado
e a obra pequenina que fabrico
no silêncio que a rua me permite.

 

 


▪ Pedro Tamen
( Portugal 🇵🇹 )
in “O Livro do Sapateiro”

Os namorados pobres

O namorado dá
flores murchas
à namorada
e a namorada come as flores
porque tem fome

Não trocam cartas
nem retratos nem anéis
porque são pobres

Mas um dia
têm muito medo
de se esquecerem
um do outro
então apanham
um cordel
do chão
cortam o cordel
com os dentes
e trocam alianças
feitas de cordel

Não podem
combinar encontros
porque não têm
número de telefone
nem morada
assim encontram-se
por acaso
e têm medo
de não se voltarem
a encontrar

O acaso
não os favorece

Decidem nunca sair
do mesmo sítio
e ficarem sempre juntos
para não se perderem
um do outro

Procuram um sítio
mas todos os sítios
têm dono
ou mudam de nome

Então retiram
dos dedos
os anéis de cordel
atam um anel
ao outro
e enforcam-se

Mas a namorada
tem de esperar
pelo namorado
porque o cordel
só dá par um
de cada vez

O namorado
descansa à sombra
da figueira
e a namorada
baloiça
na figueira

O dono da figueira
zanga-se
com os namorados pobres
porque julga
que estão a roubar figos
e a andar de baloiço

 

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▪ Adília Lopes
(Lisboa, n. 1960)
in “Dobra” Poesia Reunida, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009

OS GRANDES DIAS DO POETA

Os discípulos da luz apenas inventaram trevas pouco opacas.
O rio empurra um pequeno corpo de mulher e isso significa que
o fim está próximo.
A viúva em trajo de núpcias engana-se de escolta.
chegaremos todos atrasados ao nosso túmulo.
Um navio de carne atola-se numa pequena praia. O timoneiro
convida os passageiros a calarem-se.
As vagas esperam impacientemente. Mais perto de Ti ó meu Deus!
O timoneiro convida as ondas a falar. E elas falam.
A noite sela as suas garrafas com estrelas e faz fortuna na
exportação.
Constroem-se grandes feitorias para vender rouxinóis.
Mas não podem satisfazer os desejos da Rainha da
Sibéria que quer um rouxinol branco.
Um comodoro inglês jura que nunca mais será apanhado a colher salva
durante a noite, entre os pés das estátuas de sal.
A propósito, um pequeno saleiro levanta-se a custo em equilíbrio sobre as suas finas pernas. No meu prato ele verte aquilo que me resta viver.
Quanto basta para salgar o Oceano Pacífico.
Colocai no meu jazigo uma bóia de salvação.
Porque nunca se sabe.

 


▪ Robert Desnos
( França 🇨🇵 )
in “Sonhador definitivo e perpétua insónia”, Editora Contracapa, 2021
Mudado para português por _ Regina Guimarães

Arte poética com melancolia

Preocupam-me ainda as coisas do passado. Escrevo
como se o poema fosse uma realidade, ou dele nascessem
as folhas da vida, com o verde esplêndido de uma súbita
primavera. Sobreponho ao mundo a linguagem; tiro
palavras de dentro do que penso e do que faço, como
se elas pudessem viver aí, peixes verbais no
aquário do ser. É verdade que as palavras não nascem
da terra, nem trazem consigo o peso da matéria;
quando muito, descem ao nível dos sentimentos, bebem
o mesmo sangue com que se faz viver as emoções,
e servem de alimento a outros que as leem como se, nelas,
estivesse toda a verdade do mundo. Vejo-as caírem-me
das mãos como areia; tento apanhar esses restos de tempo,
de vida que se perdeu numa esquina de quem fomos; e
vou atrás deles, entrando nesse charco de fundos movediços
a que se dá o nome de memória. Será isso a poesia? É
então que surges: o teu corpo, que se confunde com o das
palavras que te descrevem, hesita numa das entradas
do verso. Puxo-te para o átrio da estrofe; digo o teu nome
com a voz baixa do medo; e apenas ouço o vento que empurra
portas e janelas, sílabas e frases, por entre as imagens
inúteis que me separaram de ti.

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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )

NO MORE TEARS

Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo.
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos,
no more tears disse Johnson & Johnson.
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães.
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras.
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio,
e chorava,
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima,
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó,
onde além de mim só estava eu.
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar.

 

▪ Adília Lopes
( Portugal 🇵🇹 )