Ele contou os amigos
pelos dedos da mão.
Reparei então
que a mão não tinha dedos.
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▪ Qassim Haddad
( Bahrein,🇧🇭 )
Ele contou os amigos
pelos dedos da mão.
Reparei então
que a mão não tinha dedos.
_
▪ Qassim Haddad
( Bahrein,🇧🇭 )
Contigo mãe
Terminaram todas as recordações
Resta-nos o esquecimento como um muro
Sobre a tragédia da vida
Tu levaste todas as dores
Para que nada fique connosco
Nem o arrependimento sequer
De não estarmos mais contigo enquanto foi móvel a tua existência
Mãe, eu já lavei o meu rosto com lágrimas
Para que não ficasse nenhuma pegada
Do teu derradeiro olhar.
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▪ Julián Petrovick
( Peru 🇵🇪 )
Era a casa do pai,
desde que ele morreu,
a árvore do quintal
nunca mais foi regada
o cão recusou-se a sair
e apareceu enforcado no varandim,
não sei se por tristeza
ou porque, entretanto, enlouquecera,
o violino ficou como estava
depois da última valsa
uma das cordas continua partida,
os livros, nas estantes de castanho,
parecem ser eternos
a alimentar a voracidade das traças
e eu nunca cheguei a saber
se toda aquela sabedoria encaixotada,
a forrar as paredes e os vãos das escadas,
não significava apenas
a volúpia de um ócio ancestral
como se fosse um culto profano,
e, naquele labirinto,
nem sequer a luz do dia
varria as sombras de todos
os antepassados que por ali viveram
e dos quais a genealogia fala.
Só os fantasmas, ainda vivos,
deambulavam aos tropeções
pelo sótão,
nas noites de temporal
ou quando fazia frio,
e era nesses momentos
que eu tinha medo
de ficar só.
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▪ Alexandre de Castro
( Portugal 🇵🇹 )
Se um quarto se pode abrir para o sonho,
quando a noite é pesada e o barulho da chuva entra
pela janela, já o sonho não se abre para quem não
dorme, enrolado na insónia como num velho
cobertor. Então o que passa pela cabeça são
os pensamentos que não se deveriam ter. Mas
a noite é assim: não faz distinção entre quem
dorme e quem está acordado; e o barulho da chuva
aumenta, com o vento, trazendo o que está
fora do quarto para dentro do quarto, e obriga
quem não dorme a agarrar-se ao cobertor, como
se fosse a última bóia no naufrágio da noite.
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▪Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )
in “«Fórmulas de uma luz inexplicável», D. Quixote”
Bébetela
Dile cosas bonitas a tu novia:
“Tienes un cuerpo de reloj de arena
y un alma de película de Hawks.”
Díselo muy bajito, con tus labios
pegados a su oreja, sin que nadie
pueda escuchar lo que le estás diciendo
(a saber, que sus piernas son cohetes
dirigidos al centro de la Tierra,
o que sus senos son la madriguera
de un cangrejo de mar, o que su espalda
es plata viva). Y cuando se lo crea
y comience a licuarse entre tus brazos,
no dudes ni un segundo:
bébetela.
Bebe-a
Diz coisas bonitas à tua namorada:
“Tens um corpo de relógio de areia
e uma alma de filme de Hawks.”.
Di-lo muito baixinho, com os lábios
colados à sua orelha, sem ninguém
poder escutar o que estás a dizer
(ou seja, que as suas pernas são foguetes
dirigidos para o centro da Terra
ou que os seus seios são a madrigueira
de um caranguejo ou que as costas
são prata viva). E quando ela acreditar
e começar a derreter-se nos teus braços,
não hesites um segundo:
bebe-a.
No está muerta
Ella dijo, después de mil besos y abrazos:
“Soy tan feliz que quiero que el tiempo se detenga.”
Y él respondió: “No sufras, ya inventaré la fórmula
de que el tiempo no pase para ti.” Y la miraba
con los ojos nublados por la melancolía.
Y entonces ella dijo: “Si logras detenerlo,
que no vaya a dolerme y, sobre todo, que haga
juego con mi vestido.”
Não está morta
Depois de mil beijos e abraços, ela disse:
“Estou tão feliz que quero que o tempo páre.”.
“Não te preocupes, vou já inventar a maneira de o tempo
não passar para ti.”, respondeu ele. E olhava-a
com os olhos nublados pela melancolia.
Diz ela então: “Se conseguires detê-lo,
que não me doa e, sobretudo, que condiga
com o meu vestido.”
_
▪ Luis Alberto de Cuenca
(España 🇪🇸 )
*
Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Matemático
No corpo, onde tudo tem seu preço,
eu era um mendigo. Ajoelhado,
olhava, pela fechadura, não
o homem no banho, mas a chuva
a atravessar seu corpo: cordas de guitarra a
estalar sobre ombros em forma de globo.
Ele cantava, e é por isso
que eu lembro. Sua voz —
me preenchia até o osso
como um esqueleto. Até mesmo meu nome
se ajoelhava dentro de mim, pedindo
para ser poupado.
Ele cantava. É tudo que lembro.
Pois no corpo, onde tudo tem seu preço,
eu estava vivo. Eu não sabia
que havia motivo melhor.
Que certa manhã meu pai ia parar
— potro negro em tempestade —
& tentar escutar minha respiração contida
atrás da porta. Eu não sabia que o custo
de entrar numa canção — era perder
o caminho de volta.
Por isso entrei. Por isso perdi.
Perdi tudo com meus olhos
bem abertos.
_
▪ Ocean Vuong
( Vietname 🇻🇳 )
*
Mudado para português do brasil por _ Rogério W. Galindo _ 🇧🇷
Las metáforas nacen en la piel. De la brisa húmeda que la ventana cuela. De una imagen que estremece recordar. De una caricia que se sintió durante un sueño. La piel da sentido a muchas palabras que prenden en las sensaciones del tacto. A otras que la cubren, en cantidad durante el invierno, com liviandad durante los días calurosos del verano. Y aun a términos que la explican, que la nutren, que la vivifican. Tanta locuacidad brota de la fuente incesante de sensaciones que es la piel. Pero lo decisivo, aquello que revive, dentro lo ya perdido, son las metáforas.
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▪ José Ángel Cilleruelo
(España 🇪🇸 )
in “Añil”, Editorial: Cypress Cultural, Sevilla (España), 2021
Na vossa vida,
Dizeis.
Não houve lágrimas nem nostalgia sob os ulmeiros.
Jamais escrevestes uma carta de amor
Nem pensaste em suicídio.
Como sabeis então que haveis vivido?
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▪ Izet Sarajlic
( Bósnia e Herzegovina 🇧🇦)
in o “Universo está Pintado à Mão” – Uma Antologia Fanática”, Língua Morta
*
Mudado para português por _ Luís Filipe Parrado 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Professor
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