LA MÁS BELLA ENTRE LOS MUERTOS

Prefiero historias con personas que se matan
dentro de casas entre sábanas blancas
porque tienen hambre de Dios.
Una vez un niño que dormía
vio cómo Dios abría un agujero en el corazón de Marilyn.
Marilyn, aterrada, abrió un foso
y se escondió dentro.
Ahora todas las noches otros muertos
cavan en las profundidades de la tierra
para encontrar el corazón de Marilyn.

Este poema pertenece a la antología de la poeta portuguesa Maria Azenha que, preparada y traducida por José Ángel Cilleruelo (traductor también Casa de leer en lo oscuro, publicado por Trea en 2019), verá la luz en español a principios del próximo año bajo el título Descalzar los zapatos.

(…)

En palabras de José Ángel Cilleruelo, Maria Azenha «no le pone nunca puertas a la poesía y su obra es omnímoda, lo absorbe todo y a nada renuncia. (…)

In https://trea.es/la-mas-bella-entre-los-muertos/

ADEUS

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro
nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um
ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes
verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um
aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

 

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▪ Eugénio de Andrade
( Portugal 🇵🇹 )
in “Os Amantes sem Dinheiro “

 

LI POR CRISES

Li por crises. Algumas duraram dois anos. Nesses casos, era obrigada a ler de dia nas grandes bibliotecas universitárias de Paris. É caso para perguntar por que aberração as grandes bibliotecas públicas estão fechadas de noite. Raramente li em praias e jardins. Não se pode ler com duas luzes simultâneas, a do dia e a do livro. Lê-se à luz eléctrica, com o quarto na penumbra, apenas a página iluminada.

 

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▪Marguerite Duras
(Vietname 🇻🇳 )
in “O Mundo Exterior”
Tradução de Clarisse Tavares

PADRE

O Tio Knut era padre.
Era um homem prático, mas para ele
o Latim era Grego.
Morreu depois da reforma, estava
a escavar o local para a sua casa nova
quando o coração deu de si.

Mais um electricista
que um pregador, começava sempre a homilia
dizendo: “Não sou muito de discursos”
e quanto a isso estava certo.

Realmente não tinha muito a ensinar
aos paroquianos, eles tinham seus próprios problemas
com os nascimentos, o amor, com as mortes,
e ele não possuía palavras para tais coisas.

Mas aprendera como consertar
fios eléctricos e visitava as gentes em suas casas
e reparava curtos-circuitos e caixas
de fusíveis com defeito, atarraxava lâmpadas no sítio

e onde quer que ele tivesse estado, havia luz.

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▪ Knut Ødegård
(Noruega 🇳🇴)
Mudado para português por João Luis Barreto Guimarães

A IDEIA DO FIM

Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.
Preferia pensar que só adormeceste; mas,
se encostar ao teu pulso o meu ouvido,
não escutarei senão a minha dor.
Deus precisou de ti, bem sei. E
eu não vejo como censurá-lo
ou perdoar-lhe.

 

 

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▪ Maria do Rosário Pedreira
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia Reunida, Quetzal, 2012“