░ Deus nos lírios

sinto deus, todas as noites, nos lírios
de Monet. olham por mim,
por esta sombra incerta que morre
aos poucos comigo, cobrem
de seiva viva a escuridão da casa
e afastam os demónios
que se escondem nas frestas do sono.

pela manhã, junto as pétalas tenras
caídas no lençol, e rezo baixinho,
com os pardais, um verso branco.

 

_
▪ Renata Correia Botelho
(Açores, n. 1977)
Da revista “Telhados de Vidro – n.º 12”, Edições Averno, 2009

░ Dois poemas

 

░ Restos

 

Os ossos da minha mãe num nicho.
As cinzas da minha tia também.

Uma vida.
Uma vida.

 

 

░ Aprendam com a folha da amendoeira

 

 

Aprendam com a folha da amendoeira
que se incendeia ao cair.
O solo arde.
A terra arde.
O resplendor
é o mais importante.

 

__
▪Eunice de Souza
(India, 1940–2017)
in “Learn from the almond leaf”, Poetrywala, Paperwall Media and Publishing Pvt. Ltd., England, 2016

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)

 

░ Blake

Observo William Blake, que descobria anjos
nas copas das árvores todos os dias,
encontrou Deus nas escadas
da sua pequena casa e via luz em vielas sujas —
Blake que morreu cantando alegremente
numa Londres apinhada
de prostitutas, almirantes e milagres,
William Blake, gravador, que trabalhou
e viveu na pobreza mas não em desespero,
que recebeu sinais ardentes
do mar e do céu estrelado,
que nunca perdeu a esperança, pois a esperança
renascia sempre como a respiração,
vejo os que como ele caminharam por ruas sombrias,
na direcção da orquídea rósea da madrugada.

 

_
▪ Adam Zagajewski
(Polónia, n. 1945)
in “Eternal Enemies”, Editora Farrar, Straus and Giroux, EUA, 2008

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão para inglês de Clare Cavanagh



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

Blake

 

I watch William Blake, who spotted angels
every day in treetops
and met God on the staircase
of his little house and found light in grimy alleys—
Blake, who died
singing gleefully
in a London thronged
with streetwalkers, admirals, and miracles,
William Blake, engraver, who labored
and lived in poverty but not despair,
who received burning signs
from the sea and from the starry sky,
who never lost hope, since hope
was always born anew like breath,
I see those who walked like him on graying streets,
headed toward the dawn’s rosy orchid.

 

_
▪ Adam Zagajewski
(Poland, b. 1945)
From “Eternal Enemies”, Published by Farrar, Straus and Giroux, USA, 2008
Translated, from the Polish, by Clare Cavanagh

░ O MISTÉRIO DAS ORAÇÕES

Na minha família
as orações eram rezadas secretamente,
em voz baixa, o nariz vermelho sob o cobertor;
quase murmuradas,
com um suspiro no princípio e no fim,
fino e limpo como uma gaze.

Junto à casa
havia apenas uma escada para subir,
de madeira, encostada à parede o ano inteiro,
de modo a reparar o telhado em Agosto, antes das chuvas.
Mas, em vez de anjos,
subiam e desciam homens
sofrendo de ciática.

Rezavam-Lhe olhos nos olhos,
na esperança de renegociar os seus contratos
ou adiar os respectivos prazos.

“Senhor, dá-me forças”, nada mais,
pois eram descendentes de Esaú,
abençoados com a única bênção que restara de Jacob
– a espada.

Na minha casa
a oração era considerada uma fraqueza
que nunca se devia mencionar,
tal como fazer amor.
E, tal como fazer amor,
era seguida pela assustadora noite do corpo.

 

_
▪ Luljeta Lleshanaku
(Albânia, n. 1968)
in “Telhados de Vidro n.º 22”, Averno, Lisboa, 2017

Mudado para português por _Inês Dias_ e _Marjeta Mendes_

░ Há quem diga

A morte tem luvas brancas tão belas.
Todos os que amo já têm as suas.
E o temor das pessoas é como estrelas
sobre o seu arco de triunfo.

Seus dedos longos de bruma.
Revoltos pela luz do luar.
E pelo temor das pessoas.

Há quem diga que ela é um alforge da lua.

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
— Inédito

 



Cambiado a español

 

░ Hay quien dice

 

La muerte tiene hermosos guantes blancos.
Tienen los suyos todos los que amo.
Y el temor de la gente, como estrellas
en su arco de triunfo.

Dedos largos de bruma.
Revueltos por la luz de la luna.
Y por el temor de las personas.

Hay quien dice que es alforja de la luna.

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
— Inédito

                                                                                                     *

Cambiado a español por — José Ángel Cilleruelo — Poeta, narrador, traductor y crítico.

 

░ Os Abutres

 

Ao Herberto Helder, in memoriam

 
I

Morre um poeta
cai um avião
os abutres limparão os corpos
deixando os ossos espalhados
pelas encostas frias das montanhas

Roubarão ao poeta
as palavras não-ditas
que ele fora amortalhando
como se adivinhasse…

Bastaria morrer
para que se abrissem
as páginas dos jornais
com o seu rosto cansado

Poderá ver de longe
com um sorriso amargo
alguma correria aos livros
mais antigos, de que ele
dizia irónico são apenas folhetos…

II

Eu guardo para mim
os primeiros encontros
no café Gelo, ao Saldanha,
diante da bica
nesses anos sessenta, onde
o sucesso pouco importava e
apenas se falava do livro
entregue para publicação
ou de algum outro autor
que se estivesse a ler

Vivia-se entre amigos,
era o Carlos Ferreiro, pintor,
quem fazia as vinhetas
e os desenhos que o Vítor S. T.
lhe ia pedindo para as edições & etc.
Os seus desenhos eram ampliação
da palavra mais negra, mais oculta
batiam no coração.

Anos mais tarde, já depois
da Revolução de Abril,
era com o Alberto Pimenta
outro poeta, um amigo de sempre,
que se discutia o interesse da tão
aguardada nova escrita:
escassa e rara, fazia-se politiquice,
não se lia, o mundo lá fora pouco
ou nada existia
e era assim que o poeta
entristecia

Pego ao acaso num desses “folhetos”
que ele sabia enviar-me, sabia que eu gostava
fui sempre fiel e lia –
desde A Colher na Boca não mais me separara

E aqui o tenho e leio, um deles,
as folhas amareladas pelo ouro do tempo
O Corpo O Luxo A Obra
reparo que há lá dentro uma carta
de que não me lembrava,
estamos em 1978 e ele escreve
a agradecer algo que eu lhe tinha enviado.
É uma carta gentil, caligrafia miúda,
muito bem desenhada…

Para O Corpo O Luxo A Obra
ele escolhera uma epígrafe de Húmus
anterior de dez anos (1966/67)
mas já fecha o seu livro, o tal folheto,
com uma citação da Tabula Smaragdina,
de Hermes Trismegisto, o Pai fundador
da alquimia: é um aceno discreto que me faz
recordando que também ele estudava o ouro
da alquimia, “ouro que se gera a si próprio
no interior da terra”…

Queria ver talvez se eu tinha mesmo
chegado ao fim do livro, o seu folheto,
que o não era, era já o poema contínuo
de uma vida, ela sim forrada por dentro
a folha de ouro, o ouro das palavras
“o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra”.

Despeço-me, aqui mesmo,
como no café Gelo,
sem saber até quando

A mim, também já de saída,
citar ou evocar já não me chega,
aguardarei o sinal que a Mãe
na véspera me tinha dado
mas sem dizer mais nada:
era um sonho, vejo a Mãe,
aguardando de pé, elegante
e de negro, vestida para uma festa,
enquanto à sua frente, na mesa coberta
por toalha de linho, vários talheres de prata
ainda espalhados, iam ser arrumados

Vejo-a que espera, ainda faltava alguém,
ainda viria alguém para arrumar aquele
resto de vida: era afinal o Poeta,
o filho tão aguardado…

 

_
▪ Yvette K. Centeno
(Lisboa, n. 1940)
in “Poemas Com Endereço” (2010-2015), Mariposa Azual, Lisboa, 2015

░ APONTAMENTOS PARA UMA LENDA

Uma mulher está parada numa ponte
que nunca existiu
A sua pele que nunca foi beijada
flutua sobre as águas do tempo
como uma lembrança sem rosto
Uma carta nunca lida
esforça-se por alcançar a margem
no intuito de que alguém a encontre
Um homem que nunca leu
que não sabe ler
que nunca aprendeu
encontra a carta e o corpo
debaixo da ponte
O homem chora de impotência
enquanto a carta se desfaz
entre os seus dedos
O rio que está cheio de lágrimas
condói-se daquele homem
e revela-lhe o segredo da carta
E o homem louco de amor
reúne as suas noites e sonhos
para se lançar dessa ponte
que nunca existiu

 

_
▪ Mario Meléndez
(Chile, n. 1971)
in “Vuelo Subterráneo”, Talca, Chile, 2004

*

Mudado para português por _ Maria Soledade Santos _ (Poeta, tradutora e professora).
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

APUNTES PARA UNA LEYENDA

 

Una mujer está parada sobre un puente
que no existió jamás
Su piel que jamás fue besada
flota sobre las aguas del tiempo
como un recuerdo sin rostro
Una carta que jamás fue leída
lucha por alcanzar la orilla
para que alguien la descubra
Un hombre que jamás ha leído
que no sabe leer
que no aprendió jamás
halla la carta y el cuerpo
debajo de ese puente
El hombre llora de impotencia
mientras la carta se deshace
entre sus dedos
El río que está lleno de lágrimas
se apiada de aquel hombre
y le revela el secreto de esa carta
Y el hombre loco de amor
junta sus noches y sus sueños
para arrojarse de ese puente
que no existió jamás

 

_
▪ Mario Meléndez
(Chile, n. 1971)
Extraido del libro “Vuelo Subterráneo”, Talca, Chile, 2004

 

░ O excesso mais perfeito

Queria um poema de respiração tensa
e sem pudor.
Com a elegância redonda das mulheres barrocas
e o avesso todo do arbusto esguio.
Um poema que Rubens invejasse, ao ver,
lá do fundo de três séculos,
o seu corpo magnífico deitado sobre um divã,
e reclinados os braços nus,
só com pulseiras tão (mas tão) preciosas,
e um anjinho de cima,
no seu pequeno nicho feito nuvem,
a resguardá-lo, doce.
Um tal poema queria.
Muito mais tudo que as gregas dignidades
de equilíbrio.
Um poema feito de excessos e dourados,
e todavia muito belo na sua pujança obscura
e mística.
Ah, como eu queria um poema diferente
da pureza do granito, e da pureza do branco,
e da transparência das coisas transparentes.
Um poema exultando na angústia,
um largo rododendro cor de sangue.
Uma alameda inteira de rododendros por onde o vento,
ao passar, parasse deslumbrado
e em desvelo. E ali ficasse, aprisionado ao cântico
das suas pulseiras tão (mas tão)
preciosas.
Nu, de redondas formas, um tal poema queria.
Uma contra-reforma do silêncio.
Música, música, música a preencher-lhe o corpo
e o cabelo entrançado de flores e de serpentes,
e uma fonte de espanto polifónico
a escorrer-lhe dos dedos.
Reclinado em divã forrado de veludo,
a sua nudez redonda e plena
faria grifos e sereias empalidecer.
E aos pobres templos, de linhas tão contidas e tão puras,
tremer de medo só da fulguração
do seu olhar. Dourado.
Música, música, música e a explosão da cor.
Espreitando lá do fundo de três séculos,
um Murillo calado, ao ver que simples eram os seus anjos
junto dos anjos nus deste poema,
cantando em conjunção com outros
astros louros
salmodias de amor e de perfeito excesso.
Gôngora empalidece, como os grifos,
agora que o contempla.
Esta contra-reforma do silêncio.
A sua mão erguida rumo ao céu, carregada
de nada—

 

_
▪ Ana Luísa Amaral
(Lisboa, n. 1956)
in “Às vezes o paraíso”, Quetzal, Lisboa, 1998



– Traduzione –

 

L’eccesso più perfetto

Vorrei una poesia dal respiro teso
e senza pudore.
Con l’eleganza rotonda delle donne barocche
e tutto il contrario di un esile arbusto.
Una poesia che Rubens invidierebbe, nel vederla,
là dal profondo di tre secoli,
il suo corpo magnifico sdraiato su un divano,
e le braccia nude adagiate,
solo con braccialetti tanto (ma tanto) preziosi,
e un angioletto in cima,
nella sua piccola nicchia fatta nube,
a proteggerlo, dolce.
Una poesia così vorrei.
Molto più tutto che le greche dignità
dell’equilibrio.
Una poesia fatta d’eccessi e dorature,
eppure splendida nella sua potenza oscura
e mistica.
Ah, come vorrei una poesia differente
dalla purezza del granito, e dalla purezza del bianco,
e dalla trasparenza delle cose trasparenti.
Una poesia che esulti nell’angustia,
un grande rododendro color del sangue.
Un intero bosco di rododendri dove il vento,
passando, sostasse incantato
e premuroso. E lì restasse, catturato dal canto
dei suoi braccialetti tanto (ma tanto)
preziosi.
Nuda, dalle forme rotonde, una poesia così vorrei.
Una controriforma del silenzio.
Musica, musica, musica a colmarle il corpo
e i capelli intrecciati con fiori e serpenti,
e una fonte di stupore polifonico
a scivolarle tra le dita.
Adagiata sul divano foderato di velluto,
la sua nudità rotonda e piena
farebbe impallidire grifoni e sirene.
E i poveri templi, dalle linee tanto contenute e pure,
tremare di paura alla sola folgorazione
del suo sguardo. Dorato.
Musica, musica, musica e l’esplosione del colore.
Scrutando là dal fondo di tre secoli,
un muto Murillo, al veder che erano semplici i suoi angeli
insieme agli angeli nudi di questa poesia,
cantando in coro con altri
astri biondi
salmodie d’amore e di perfetto eccesso.
Gôngora impallidisce, come i grifoni,
ora che lo contempla.
Questa controriforma del silenzio.
E la sua mano tesa verso il cielo, carica
di nulla–

_
▪ Ana Luísa Amaral
(Lisbona, n. 1956)
in “Talvolta il Paradiso”, Quetzal, Lisbona, 1998
Traduzione di Chiara De Luca (Escritora, Traductora y Ensayista)