░ Um suspiro

Cresci ao lado do piano de minha irmã
a pedir-lhe Um suspiro, de Liszt: as notas
desencadeadas como o mar, querendo uma
voz , uma sentença, um rastro de silêncio,

que eu, bruto e lírico, ouvia entre pedras
de marfim. O medo a cobrir-me o rosto
sempre que pedia… Era bom sentir a vida
derretendo, se os dedos de outono vestiam-se

de mãe. As cordas do tempo no Essenfelder
− já agora vejo – a se romperem eram
as do meu peito (incapazes de sofrer).

Por mil e uma noites dentro do teclado,
segui, movendo-se distante – como eu ainda
hoje −, o frágil coração de minha irmã.

 

_
▪ Sérgio Nazar David
(Brasil, n. 1964)
Da revista “Relâmpago”, nº.33, Outubro 2013

 

░ BOGOTÁ, DEPOIS DE UMA VISITA A HELENA IRIARTE

Não há relação entre as coisas
e aquilo que as encarna.
A realidade acaso é um vazio
e o reflexo nos espelhos
a evidência de sua precariedade.
Os homens vão pelo mundo
retratando a angústia de não ser o que nomeiam.
Pessoas correm perseverantes rumo aos vagões do metrô
ou dos ônibus porque a vida depende de um conceito.
Tampouco a pontualidade corresponde a sua palavra,
Pois não se pode chegar com atraso ao destino.
É possível que convivam alma e corpo?
não serão um binômio inseparável
uma só coisa que não sabemos nomear ainda?
Nestes temas, como em tantos outros,
me atropela a retórica,
e volto a me perguntar se será possível
nada mais viver.

 

_
▪ Lauren Mendinueta
(Colombia, n. 1977)
in “Del tiempo, un paso”, Editorial Denes, España, 2011

Mudado para português por _Gustavo Petter_ (Poeta e tradutor), mora em Araçatuba/SP-Brasil, trabalha como professor da rede estadual. Mantém o blog agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL /VERSIÓN ORIGINAL

 

░ BOGOTÁ, DESPUÉS DE UNA VISITA A HELENA IRIARTE

 

No hay relación entre las cosas
y aquello que las encarna.
La realidad acaso es un vacío
y el reflejo en los espejos
la evidencia de su precariedad.
Los nombres van por el mundo
retratando la angustia de no ser lo que nombran.
La gente corre afanada hacia el vagón del metro
o el autobús porque la vida depende de un concepto.
Tampoco la puntualidad corresponde a su palabra,
Pues no se puede llegar con retraso al destino.
¿Es posible que convivan alma y cuerpo?
¿no serán un binomio inseparable,
una sola cosa que no sabemos nombrar aún?
En estos temas, como en tantos otros,
me atropella la retórica,
y vuelvo a preguntarme si será posible

nada más vivir.

 

_
▪ Lauren Mendinueta
(Colômbia, n. 1977)
Poema del libro “Del tiempo, un paso”, Editorial Denes, España, 2011

 

░ O barco fantasma

Flutua
Pela rua apinhada de gente,

A sua tonelagem
Imprecisa como o vento.

Desliza
Pela tristeza

Dos bairros de lata
Para os campos da periferia.

Lentamente,
Ora junto a um boi,

Ora junto a um moinho de vento,
Vai-se deslocando.

Passando
De noite como um sonho

Da morte,
Não se consegue ouvir;

Desloca-se clandestinamente
Sob as estrelas.

Tripulação
E passageiros de olhos fixos;

Mais brancos do que os ossos
Os seus olhos

Não
Se viram ou fecham.

 

_
▪ Mark Strand
(Norte-americano nascido no Canadá, 1934-2014)
in “Reasons for Moving”, Atheneum, New York , 1968

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

The Ghost Ship

 

Through the crowded street
It floats

Its vague
Tonnage like wind.

It glides
Through the sadness

Of slums
To the outlying fields.

Slowly,
Now by an ox,

Now by a windmill,
It moves.

Passing
At night like a dream

Of death,
it cannot be heard;

under the stars
It steals.

Its crew
And passengers stare;

Whiter than bone,
Their eyes

Do not
Turn or close.

 

_
▪ Mark Strand
(North American born in Canada, 1934-2014)
From “Reasons for Moving”, Atheneum, New York , 1968

 

░ Sinto a falta de D. L.

sentado

ao
piano

descobrindo

que as mãos


não estão

em harmonia
…………… uma

com a outra

_
▪ Mark Young
(Nova Zelândia, n. 1941)
in “Some more strange meteorites”, Meritage & i.e. Press, California / New York, 2017

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

░  I am missing D. L.

sitting

down at the
piano

finding

that the hands

are
no longer
in sympathy with

……….……..…. one
another

_
▪ Mark Young
(New Zealand, b. 1941)
From “Some more strange meteorites”, Meritage & i.e. Press, California / New York, 2017

░ HINO A SATÃ

Somente a neve sabe
a grandeza do lobo
a grandeza de Satã
vencedor da pedra desnuda
da pedra desnuda que ameaça o homem
que invoca em vão a Satã
senhor do verso, desse agulheiro
na página
por onde a realidade
cai como água morta.

 

HINO A SATÃ (2ª versão)

A grandeza do lobo
não é a penumbra
nem o ar
é somente o fulgor de uma sombra
de um animal ferido no jardim
à noite, enquanto tu choras
como no jardim um animal ferido.

 

HINO A SATÃ (3ª versão)

Os cães invadem o cemitério
e o homem sorri, inquieto
ante o mistério do lobo
e os cães invadem a rua
em seus dentes brilha a lua
mas nem tu nem ninguém, homem morto
espectro do cemitério
saberá se aproximar amanhã nem nunca
do mistério do lobo.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(Espanha, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994

Mudado para português por _Gustavo Petter_(Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL /VERSIÓN ORIGINAL

 

HIMNO A SATÁN

 

Sólo la nieve sabe
la grandeza del lobo
la grandeza de Satán
vencedor de la piedra desnuda
de la piedra desnuda que amenaza al hombre
y que invoca en vano a satán
señor del verso, de ese agujero
en la página
por donde la realidad
cae como agua muerta.

 

HIMNO A SATÁN (2ª versión)

La grandeza del lobo
no es la penumbra
ni aire
es sólo el fulgo de una sombra
de un animal herido en el jardín
de noche, mientras tú lloras
como en el jardín in animal herido.

 

HIMNO A SATÁN (3ª versión)

Los perros invaden el cementerio
y en hombre sonríe, extrañado
ante el misterio del lobo
y los perros invaden la calle
y en sus dientes brilla la luna
pero ni tú ni nadie, hombre muerto
espectro del cementerio
sabrá acercarse mañana ni nunca
al misterio del lobo.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(España, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994

░ Escrever

Se me roubarem a palavra escreverei com o silêncio.
Se me roubarem a luz escreverei na escuridão.
Se perder a memória inventarei outro olvido.
Se detiverem o sol, as nuvens, os planetas,
serei eu a girar.
Se suspenderem a música cantarei sem voz.
Se queimarem o papel, se secarem as tintas,
se estourarem as telas dos computadores,
se derrubarem as paredes, escreverei no meu sopro.
Se apagarem o fogo que me ilumina
Escreverei no fumo.
E quando o fumo já não existir
escreverei nos olhares que hão de nascer sem os meus olhos.
Se me roubarem a vida escreverei com a morte.

 

            (de Poemas para los demás)

_
▪ Ángel Guinda
(Espanha, n. 1948)
in “Di Versos” Poesia e Tradução, nº. 17, Edições Sempre-em-pé, Porto, 2012

Mudado para português por _ Giselle Unti_ nasceu em São Paulo, onde viveu até aos 20 anos. Licenciou-se em Letras Modernas em França e conta vários livros publicados na área de Ciências Humanas. Actualmente vive em Lisboa e trabalho como tradutora freelancer para várias instituições e editoras.



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

Escribir

 

Si me quitan la palabra escribiré con el silencio.
Si me quitan la luz escribiré en tinieblas.
Si pierdo la memoria me inventaré otro olvido.
Si detienen el sol, las nubes, los planetas,
me pondré a girar.
Si acallan la música cantaré sin voz.
Si queman el papel, si se secan las tintas,
si estallan las pantallas de los ordenadores,
si derriban las tapias, escribiré en mi aliento.
Si apagan el fuego que me ilumina
escribiré en el humo.
Y cuando el humo no exista
escribiré en las miradas que nazcan sin mis ojos.
Si me quitan la vida escribiré con la muerte.

 

          (de Poemas para los demás)

_
▪ Ángel Guinda
(España, n. 1948)
in “Di Versos” Poesia e Tradução, nº. 17, Edições Sempre-em-pé, Porto, 2012

░ Os artistas do momento

ah, quanta da arte que agora se faz
é puro entulho: estilo baralha e volta a dar.
é só ter a compulsão de instalar
e ser um bom rapaz,
usando lixos convincentes,
e, mais do que barriga, ter bons dentes.
conquista-se espaço cultural de um jacto.
o que é preciso é ter um bom contacto.
e, o que mais interessa , pelo sim pelo não,
é aparecer na televisão.
na solene parada das vaidades,
desfila os eleitos e confrades,
qual deles o mais gabiru,
arrastando a sua instalação.

e o povoléu aplaude
e não vê que o rei vai nu.

 

_
▪ Adalberto Alves
(Lisboa, n. 1939)
in “Os indícios da palavra”, Editora Althum.com, Lisboa, 2017

░ Silêncio

O meu pai costumava dizer
“Pessoas superiores nunca fazem visitas demoradas,
não precisam que se lhes mostre o túmulo de Longfellow
nem as flores de vidro em Harvard.
Independentes como o gato —
que leva a presa para a sua intimidade,
a cauda frouxa a cair da boca como um atacador —
têm prazer por vezes na solidão e podem ficar sem palavras
roubadas por outras que os encantaram.
O sentimento mais profundo revela-se no silêncio;
não no silêncio, mas na contenção”.
Nem faltava à verdade quando dizia “Façam da minha casa a vossa estalagem.”
Estalagens não são residências.

 

_
▪ Marianne Moore
(E.U.A, 1887 – 1972)
– Poema de domínio público –

Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ Silence

 

My father used to say,
“Superior people never make long visits,
have to be shown Longfellow’s grave
nor the glass flowers at Harvard.
Self reliant like the cat —
that takes its prey to privacy,
the mouse’s limp tail hanging like a shoelace from its mouth —
they sometimes enjoy solitude,
and can be robbed of speech
by speech which has delighted them.
The deepest feeling always shows itself in silence;
not in silence, but restraint.”
Nor was he insincere in saying, “Make my house your inn”.
Inns are not residences.

 

_
▪ Marianne Moore
(E.U.A, 1887 – 1972)
– This poem is in the public domain –

 

░ SERENIDADE

 

A Martin Heidegger

Há somente duas coisas: meu rosto desfigurado
e a dureza da pedra.
A consciência somente se acende
quando o ser está contra ela:
é assim que todo conhecimento
e a matriz de toda figura
é uma ferida,
e somente é imortal
o que chora.
A noite, mãe da sabedoria
tem a forma inacabada do pranto.

***

A luz, a luz
quando estava muito perto do mar
limite do deserto
do deserto em que florescem as rosas cruéis
famélicas do homem.

***

As palavras
constroem o bosque
uma árvore é somente uma árvore
quando tocada pelo poema.

***

Os sinos varrem o som
anunciam letra a letra o deserto
em que uma flor apodrece entre as mãos murchas
de uma velha
que chora por haver perdido seu nome.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(Espanha, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994

Mudado para português por _Gustavo Petter_(Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



Versão original /Versión original

 

░ SERENIDAD

A Martin Heidegger

Sólo hay dos cosas: mi rostro desfigurado
y la dureza de la piedra.
La conciencia sólo de enciende
cuando el ser está contra ella:
y es así que todo conocimiento
y la matriz de toda figura
es una herida,
y sólo es inmortal
lo que llora.
Y la noche, madre de la sabiduría
tiene la forma inacabable del llanto.

***

La luz, la luz
cuando estaba demasiado cerca del mar
límite del desierto
del desierto en que florecen las rosas crueles
hambrientas del hombre.

***

Las palabras
construyen el bosque
un árbol es sólo un árbol
cuando lo toca el poema.

***

Las campanas barren el sonido
enuncian letra a letra el desierto
en que una flor se pudre entre las manos ajadas
de una vieja
que llora de haber perdido su nombre.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(España, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994