░ Número 8

Era uma cara que a escuridão podia matar
num instante
uma cara que o riso ou a claridade
podiam igual e facilmente ferir

‘À noite pensamos de forma diferente’
disse-me uma vez
recostando-se languidamente

e citava Cocteau

‘Sinto que há um anjo em mim’, dizia,
‘que estou sempre a escandalizar’

Depois ria, desviava o olhar,
acendia-me um cigarro,
suspirava, levantava-se

e alongava
a sua doce anatomia

deixava cair uma meia

 
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▪ Lawrence Ferlinghetti
(E.U.A, n. 1919)
in “Pictures of the Gone World: 60th Anniversary Edition”, City Lights Books, United States, 2015
Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ Number 8

 

It was a face which darkness could kill
in an instant
a face as easily hurt
by laughter or light

‘We think differently at night’
she told me once
lying back languidly

And she would quote Cocteau

‘I feel there is an angel in me’ she’d say
‘whom I am constantly shocking’

Then she would smile and look away
light a cigarette for me
sigh and rise

and stretch
her sweet anatomy

let fall a stocking

 

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▪ Lawrence Ferlinghetti
(E.U.A, b. 1919)
in “Pictures of the Gone World: 60th Anniversary Edition”, City Lights Books, United States, 2015

 

░ Pode ser, que o terrível não tenha explicação

Pode ser, que o terrível não tenha explicação
E que a luz seja só a presença de silêncio.
Pode ser.

Pode ser que letra a letra se construa
O veneno insuficiente da palavra
De todo já perdida para a vida.
Pode ser.

Pode ser que eu seja peixe fora d’água
Sufocado na areia tonta de uma praia
Pode ser.

Pode ser que eu não passe
De cometa sossobrante
Num buraco escura da galáxia.
Pode ser.

Mas o que será que agora,
Para quem julgue ver-me,
Pareço neste instante ?

 

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▪ Adalberto Alves
(Lisboa, n. 1939)
in “Os indícios da palavra”, Editora Althum.com, Lisboa, 2017

░ O tempo anterior

Chego de noite A casa é como um rio
arrasta corpos em surdina vozes
que só podemos escutar na

água, sonhos velozes
Chego de noite Sei que está presente
esse tempo total Nada esqueci

mesmo que não o lembre Oh como estende
as asas sobre mim A sua cor
incerta reconheço

 

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▪ Gastão Cruz
(Faro, n. 1941)
in “Poemas de Gastão Cruz”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

░ A HERANÇA

há uma loucura perturbadora nas sílabas dos móveis
em cuja vastidão há palavras que se perdem
mas dar-te-ei um lance neste jogo de cartas
aliviando-te do fundo da colina em que se juntam

mas será preciso que tudo se revolva como um fósforo
a forma e o ferrolho na fronteira da erva
a grande colecção dos soluços da coruja
com tubos musicais pelas veias telefónicas

dar-se-á então um truque no real pela espiral das nuvens
a fronteira e o núcleo na face das perguntas
onde os livros aí estão com sílabas imóveis
de raízes apontadas para o haxixe das dúvidas.
e pelos nomes das veias da mistura das estradas
onde viajam os números os rebanhos do futuro
passearemos juntos pelo teorema de pitágoras
em imagens na avenida pelas sílabas da chuva

 

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▪ Alexandra Kräft
(Londres, n. 2025)
Heterónimo de Maria Azenha
in “Concerto para o Fim do Futuro”, Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1998

░ A ÁRVORE DAS RAÍZES

a minha infância tem uma árvore
assombrosa. é uma bela história de amor
entre as nossas mãos pequeninas
e aqueles seus braços enormes, bravos e
loucos como o riso das mães,
que faziam abrandar o medo e a tarde.

oito, nove, dez: virávamo-nos à procura dos outros
pelo labirinto de grutas cavado nas raízes,
ao abrigo do vento e da solidão que não tardaria
a descobrir o nosso esconderijo.

ao parar, há dias, na Deslocação do Labirinto,
imaginei que talvez Vieira da Silva
tivesse sonhado a minha árvore.
ou vice-versa. dois seres mágicos do mesmo elemento
engendrando-se um ao outro nas raízes do mundo:

azuis e verdes com riscos ferozes
onde a vista se afunda para depois
nos libertar. assim é, entre o céu da memória
e a erva húmida destes dias,
a árvore da minha infância.

 

_
▪ Renata Correia Botelho
(Açores, n. 1977)
in “Small Song”, 2.ª edição, Editora Alambique, Lisboa, 2015

░ A FAMÍLIA DE DORIAN GRAY

A minha mãe é socialista.
O meu pai ao fim desta rua cortando à direita.
Suspensa de uma lua em forma de bolacha,
vejo passar mendigos, oiço cruzar as sombras
dos que escrevem versos para a Academia.
A minha educação sentimental é um barco de papel
no tanque dos livros, as luvas do avesso de Wilde,
as alegres comadres do ambíguo Shakespeare.
Não quero dar a volta ao mundo,
por menos que isso cortaram a cabeça ao Rei Sol.
Eu tenho outra paixão, toda a gente tem outra paixão,
tem-na o girassol, a bandeira do meu país tem uma estrela,
os miúdos judeus têm um violinista no telhado,
a cor negra tem paixão pelas formigas.
O verão tardará a chegar, a minha família inventou o outono,
o meu pai no jardim há-de varrer as folhas,
a minha mãe vai contemplar a neve,
eu acenderei outra fogueira.
É assim a vida, razões para arder,
o clube de Dorian Gray, o céu, as estrelas.

 

_
▪ Alexandra Domínguez
(Chile, n. 1956)
in “La conquista del aire”, Colección de Poesía de la Fundación Juan Ramón Jiménez, Huelva – ESP, 2000

Mudado para português por – Maria Soledade Santos (Poeta e Tradutora). Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

LA FAMILIA DE DORIAN GRAY

 

Mi madre es socialista.
Mi padre al final de esta calle torciendo a la derecha.
Colgada de la luna con forma de galleta
veo pasar mendigos, oigo cruzar las sombras
de los que escriben versos hacia la Academia.
Mi educación sentimental es un barco de papel
en el estanque de los libros, los guantes del revés de Wilde,
las alegres comadrejas del ambiguo Shakespeare.
Yo no quiero dar la vuelta al Mundo,
por menos al Rey Sol le cortaron la cabeza.
Tengo otra pasión, todo el mundo tiene otra pasión,
el girasol la tiene, la bandera de mi país tiene una estrella,
los muchachos judíos tienen un violinista en el tejado,
el color negro tiene pasión por las hormigas.
El verano tardará en llegar, mi familia inventó el otoño,
mi padre en el jardín barrerá las hojas,
mi madre mirará la nieve,
yo encenderé otra hoguera.
Así es la vida, razones para arder,
el club de Dorian Gray, el cielo, las estrellas.

 

_
▪ Alexandra Domínguez
(Chile, n. 1956)
in “La conquista del aire”, Colección de Poesía de la Fundación Juan Ramón Jiménez, Huelva – ESP, 2000

 

░ Da capo

Pegue no coração gasto como se fosse um seixo
e atire-o para longe.

Pouco tempo depois não haverá nada.
Em pouco tempo a última onda cansar-se-á
nas ervas daninhas.

Tendo regressado a casa, corte cenouras, cebolas às rodelas e aipo.
Ao lume envolva em azeite antes de juntar
as lentilhas, água e ervas aromáticas.

As castanhas tostadas a seguir, um pouco de pimenta, o sal.
Para terminar, o queijo de cabra e salsa. Sirva-se.

Pode fazer isto, digo-lhe eu, é permitido.
Comece a história da sua vida novamente.

 

_
▪ Jane Hirshfield
(E.U.A., n. 1953)
in “The Lives of the Heart”, Published by Harper Perennial, E.U.A., 1997

Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

Da Capo

 

Take the used-up heart like a pebble
and throw it far out.

Soon there is nothing left.
Soon the last ripple exhausts itself
in the weeds.

Returning home, slice carrots, onions, celery.
Glaze them in oil before adding
the lentils, water, and herbs.

Then the roasted chestnuts, a little pepper, the salt.
Finish with goat cheese and parsley. Eat.

You may do this, I tell you, it is permitted.
Begin again the story of your life.

 

_
▪ Jane Hirshfield
(E.U.A., b. 1953)
From “The Lives of the Heart”, Published by Harper Perennial, E.U.A., 1997

 

░ Mulheres no Labor

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
porque não há mais ninguém a quem mentir

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
ao meio-dia na lavandaria
destruindo as suas próprias meias

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite:
Hans Brinker, ou The Silver Skates

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
como o primeiro manto estelar
pérolas a lua com nácar

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
enviando um jeito postal
o rosto de um bebé birrento
que grita Eu sou para o novo

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
recitando os nomes de sapatos

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
jorrando lágrimas injustificadas,
a condição que corre lateralmente
nunca chegando à boca,
a condição que tu não podes engolir

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
cantando seio afora o fardo do meu afecto
e depois o arroto

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
obedecendo às leis da física
Mulheres que deixam que os seus sonhos se curvem no fim
Mulheres num mosteiro de flamingos

Mulheres que morrem sozinhas à meia-noite
contribuindo para o fim, para
o tempo perdido, para a chuva e para as moscas,
vendo o pássaro que viram preso no aeroporto
sobrevivendo pela fonte de água

Para além disso, tenta algum dia
Funciona

 

_
▪ Mary Ruefle
(E.U.A, n. 1952)
in “Trances of the Blast”, Published by Wave Books, Seattle & New York, 2013

Mudado para português por – Sandra Santos, (Portugal, 1994). Estudante, escritora e tradutora. Licenciada em Línguas e Relações Internacionais (Faculdade de Letras da Universidade do Porto), é actualmente mestranda em Estudos Editoriais (Universidade de Aveiro). Participa em projectos culturais, artísticos e literários. Traduz do português e inglês para o espanhol e do inglês e espanhol para o português. As suas traduções estão publicadas em Portugal, Espanha e América Latina, nos blogues e revistas “Cuaderno Ático”, “Buenos Aires Poetry”, “escamandro”, “Círculo de Poesía”, “Poesia vim buscar-te”, “Otro Páramo”, “La raíz invertida”, “mallarmargens”, “Bitácora de vuelos”, “Emma Gunst”, “Enfermaria 6” e “El Coloquio de los Perros”.



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░  Women in Labor

 

Women who lie alone at midnight
because there is no one else to lie to

Women who lie alone at midnight
at noon in the laundromat
destroying their own socks

Women who lie alone at midnight:
Hans Brinker, or The Silver Skates

Women who lie alone at midnight
as the first furl of starlight
pearls the moon with nacre

Women who lie alone at midnight
sending a postcard bearing
the face of a bawling infant
who cries I am for the new

Women who lie alone at midnight
reciting the names of shoes

Women who lie alone at midnight
spurting unjustified tears,
the kind that run sideways
never reaching the mouth,
the kind you cannot swallow

Women who lie alone at midnight
singing breast away the burden of my tender
and afterwards burp

Women who lie alone at midnight
obeying the laws of physics
Women who let their dreams curl at the end
Women in a monastery of flamingos

Women who die alone at midnight
contributing to the end, to
lost time, to the rain and flies,
seeing the bird they saw trapped in the airport
surviving by the water fountain

What’s more, try it sometime
It works

 

_
▪ Mary Ruefle
(E.U.A., b. 1952)
in “Trances of the Blast”, Published by Wave Books, Seattle & New York, 2013

 

░ MEU SONHO NO BERÇO

Escondido, adormece
meu Sonho em seu berço.
¿Será que me escuta
ao nomear a lua?

¿Saberá quem eu sou
ao escutar minha voz?

¡Que impaciência tenho!

Sigo o esperando
com um livro aberto.
Um caracol cobre
seu mundo primevo.
Breve encontrará
a saída. Espero…

 

_
▪ Cristian David López
(Paraguai, n. 1987)
Inédito publicado com autorização prévia do autor

Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

MI SUEÑO EN CUNA

 

Escondido, duerme
mi Sueño en su cuna.
¿Será que me escucha
al nombrar la luna?

¿Sabrá quién soy yo
al escuchar mi voz?

¡Qué impaciencia tengo!

Lo sigo esperando
con un libro abierto.
Un caracol cubre
su mundo primero.
Pronto encontrará
la salida. Espero…

 

_
▪ Cristian David López
(Paraguai, n. 1987)
Inédito