PÁSSAROS E SACOS

Bandos de pardais entristecem-me
quando, rápidos, voam pelos campos
e gorjeiam, secos e ásperos,
pela sua pobreza bem arada.
Não deixem nunca de fazer-me companhia.
Quase nada nos acompanha até ao fim.
Também não me abandona o cheiro dos sacos
que me serviam de cama no fundo do carro
quando andava, em criança, nas vindimas.
Saía antes da alvorada. Os sobressaltos
das rodas e o ritmo forte, calmo,
dos cascos cravados adormeciam-me.
Os sacos ainda fazem a vez de mãe.
O seu cheiro regressa, denso e cálido,
enquanto vejo como brilha ao sol a relva
e os bandos de pardais, desesperados,
procuram um lugar onde poisar
e saciar uma fome pequena e dura.
Voam, voam comigo até ao fim.

 

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▪ Joan Margarit
(Espanha 🇪🇸 )
in “Misteriosamente Feliz”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2015

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Mudado para português por _ Miguel Filipe Mochila 🇵🇹  Poeta, tradutor e professor

 

ICONOGRAFIAS

As barbas que recordo do passado
são as de Deus sentado
numa nuvem, em moldura dourada
e transversal.
Na moldura do lado, um coração
em lágrimas e espinhos.
E no canto mais curto e mais final,
a lição repetida.

Há um tempo de vida e
um tempo de morte, um
tempo de lavrar e um tempo
de colher.

Ah! que ao menos na nuvem,
no mesmo patamar:
a face da mulher!

 

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▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Inversos” [Poesia 1990-2010], Publicações D. Quixote, Lisboa, 2010

RECANTO 12

Vinha ___ do outro lado do tempo ___ do inverno seguinte
um ruído rápido e ao mesmo tempo, assim parecia,
anfíbio
como alguém em trânsito para o seu mar
ao sair do emprego, e o instrumento
sol-terra-lua-homem-mulher-puta-que-vos-pariu-deus-vos-abençoe-te-
-etecetera-amen-
a buzinar-lhe aos ouvidos

e de vertiginosa a roda um instrumento a mais
em potência de tortura passou imediatamente a ser
útil vertiginosamente indispensável
porque é uma rosa e só por isso
porque tudo segue o mesmo percurso e no mesmo tempo
e na mesma roda de espaço que nós em tudo
e só por isso
quando a caixa toráxica passa a ser de metal
por assimilação
e de plástico por fora e roda no corpo
e só no sexo o circuito é uma onda fundente
liquidamente

lemos o capítulo do sangue
quando em transe se descarrega como a campainha
de que as palavras são o toque e os silêncios
o clarão da música.

Assim se fala, ouvem-se telefones, como possuídos
por outrem
de que as palavras se chamassem fala
e o terror ventriloquia.

 

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▪ Luiza Neto Jorge
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia 1960-1989”, Assírio & Alvim, Lisboa, 1993

 

VIAGEM

A demolidora clarividência das minhas palavras é um punhal abrindo
a página até ao coração. O poema é múltiplo e atinge violentamente o nosso
rosto.
Certa palavra, inventada por Bleuler, é tão potente que torna estranho
quem a possui. Se considerarmos lógico possuir uma palavra, o poeta
tem um percurso a realizar. Embarca para uma viagem de que volta perigosamente
lúcido. Morte e renascimento fizeram dele um outro, capaz de
penetrar a textura do mundo.

 

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▪ Isabel de Sá
( Portugal 🇵🇹 )
in “Repetir o poema”, Edições Quasi, Vila nova de Famalicão, 2005

 

2.

É de noite que ele dança, fulgurante
e ébrio, como uma espada de sangue
no deserto. A cidade esvazia-se nas casas,
inventa uma árvore morta, um sonho circular
que se escoa num novelo, entre os dedos.
E quando a noite finda e os homens ressuscitam,
ele transporta uma tábua dentro do peito
como um vírus roendo o seu próprio ninho.

 

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▪ Jaime Rocha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Extermínio”, Relógio D’ Água, Lisboa, 2003
 

POEMA DE AMOR

Há algo sempre a ser feito de dor.
A tua mãe faz malha.
Produz cachecóis em todos os tons de vermelho.
Eram para o Natal e aqueciam-te
enquanto ela se fartava de casar, levando-te
consigo. Como podia resultar
quando, naqueles anos todos, ela arrecadou o seu
____________________________[coração viúvo
como se os mortos voltassem.
Não surpreende que sejas como és,
com medo do sangue, parecendo as tuas mulheres
uma parede de tijolos após outra.

 

_
▪ Louise Glück
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Descending Figure”, Ecco Press, Nova Iorque York, 1980

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Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático


LOVE POEM

 

There is always something to be made of pain.
Your mother knits.
She turns out scarves in every shade of red.
They were for Christmas, and they kept you warm
while she married over and over, taking you
along. How could it work,
when all those years she stored her widowed heart
as though the dead come back.
No wonder you are the way you are,
afraid of blood, your women
like one brick wall after another.

 

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▪ Louise Glück
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “Descending Figure”, Ecco Press, New York, 1980

 

LAGOA

E o anjo disse então: vou revelar-te
o que pintam agora os mestres antigos. E
levou-me a outra sala e mostrou-me uma
paisagem: uma lagoa de águas verde-azuladas, com
vestígios de um naufrágio e uma multidão em cada
margem.
Quem são, perguntei; porque choram.
Os que nasceram no século da morte da
morte, respondeu; os que nunca mais poderão
atravessar para o outro lado.

 

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▪ Abraham Gragera
(Espanha 🇪🇸 )
in “El tiempo menos solo”, Editorial Pre-Textos, Valencia, 2013

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Mudado para português por — Maria Soledade Santos 🇵🇹 Poeta, Tradutora e Professora.

Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: Metade do Mundo e  Mudanças & Cia


 
LAGUNA

 

Y el ángel dijo entonces: te enseñaré qué
pintan ahora los maestros antiguos. Y
me llevó a otra sala, y me mostró un
paisaje: una laguna de aguas verdiazules, con
huellas de un naufragio, y una multitud en cada
orilla.
Quiénes son, pregunté; por qué lloran.
Los que nacieron en el siglo de la muerte de
la muerte, respondió; los que ya nunca podrán
cruzar al otro lado.

 

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▪ Abraham Gragera
(Espanha 🇪🇸 )
in “El tiempo menos solo”, Editorial Pre-Textos, Valencia, 2013