░ O REAL

 

Nunca perguntes pela história real
Margaret Atwood

 

Nunca perguntes pela história real.

A realidade, já sabes, está sempre
mais além dos feitos,
mais aquém da sombra que cresce nas palavras.
Como esses reflexos de quando éramos pequenos
que morriam ao nascer em nossas mãos
deixando-nos desiludidos.

Ademais,
uma história não o é até ser contada.
Se vivida foram pedaços de tempo que enleamos,
contada é ramo seco
que colhemos do gelo coalhada de cristais.

Não perguntes
pela história real:
nunca teve voz o deus que a conhece.
 
 
_
▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.
 
Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



Versão Original / Version Original

 

LO REAL

Nunca preguntes por la historia real
Margaret Atwood

 

Nunca preguntes por la historia real.

La realidad, ya sabes, está siempre
más allá de los hechos,
más acá de la sombra que crece en las palabras.
Es como esos reflejos que cuando éramos niños
morían al nacer en nuestras manos
dejándonos burlados.

Por lo demás,
una historia no es tal hasta que no se cuenta.
Si vivida fue trozos de tiempo que anudamos,
contada es rama seca
que sacamos del hielo cuajada de cristales.

No preguntes
por la historia real:
nunca ha tenido voz el dios que la conoce.

 

_
▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.

 

░ Sete poemas

Para Antonia

1
Na orla
da noite do corpo
estão a nascer dez luas.

2
Uma cicatriz faz lembrar a ferida.
A ferida faz lembrar a dor.
Estás a chorar outra vez.

3
Quando caminhamos ao sol
as nossas sombras são como barcas de silêncio.

4
O meu corpo está deitado
e ouço a minha própria
voz deitada junto a mim.

5
A rocha é prazer
abre
e entramos nela
quando entramos em nós
todas as noites.

6
Quando falo com a janela
digo que cada coisa
é todas as outras.

7
Tenho uma chave
abro a porta e entro.
Está escuro e entro.
Mais escuro e continuo.

 

_

▪ Mark Strand
(Poeta norte-americano nascido no Canadá (11 de abril de 1934 — 29 de novembro de 2014)
in “Reasons for moving darker & The Sargentville notebook”, Alfred A. Knopf, Publisher, NY, 2015
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



VERSÃO ORIGINAL/ ORIGINAL VERSION

 

Seven Poems

 

For Antonia

 

1
At the edge
of the body’s night
ten moons are rising.

2
A scar remembers the wound.
The wound remembers the pain.
Once more you are crying.

3
When we walk in the sun
our shadows are like barges of silence.

4
My body lies down
and I hear my own
voice lying next to me.

5
The rock is pleasure
and it opens
and we enter it
as we enter ourselves
each night.

6
When I talk to the window
I say everything
is everything

7
I have a key
so I open the door and walk in.
It is dark and I walk in.
It is darker and I walk in.

(Poetry, 1970)

_
Mark Strand
(Poeta norte-americano nascido no Canadá (11 de abril de 1934 — 29 de novembro de 2014)
in “Reasons for moving darker & The Sargentville notebook”, Alfred A. Knopf, Publisher, NY, 2015

 

░ Cheguei ao fim. Andei de pé descalço

Cheguei ao fim. Andei de pé descalço
sobre os calhaus do rio, senti
a água fria, as vozes de outro
lado. Ergui-me na cisterna, ouvi
pelo tabique o toque do relógio
e desci noutra casa, ao longe,
a escada estreita. Mas sempre
em tudo isso sentei-me na cadeira.

Deslustrei a fama que me deram,
Soluçei os soluços que passei
com risos importunos. Abri mão
dos trunfos que os anos me dariam
se os olhos pudessem reabrir-se.
As músicas tocaram, mas falei
de arremedos sortidos, da beleza
da mão com sardas brunas, e vazia.

Matei-me esfarelado, e hesitei
entre a folha da agenda e a falha
geológica. Puxei cordas diversas
e alterei assim o rumo dos teus olhos
com a vela que os vela. Sou ainda
o feto minutado que o planeta quis
no país, no país, no campo e na cidade,
entre dentes e datas, azar de bruxaria.

Vário, variei. Pra trás e pra diante
tropecei, empecilho, no teu entendimento.
Vim dos poentes tensos, rapidíssimos,
sobre a terra crestada de moléstia,
vazio de uniforme e de uma carta a chegar.
Engrossei a gravata, fiz sorriso
da careta que a alma me ditou,
pontuei o discurso. __ Vindimei.

Andei de flor em flor nos intervalos
de cantar muito a sério que sem asas
é na cadeira que tenho de sentar
o cu dorido de toda a eternidade:
e a mão, a mesma, a mão direita
mas sinistra, passa do corrimão
para a caneta, a preta, não descreve,
e escreve. Páro de percorrer.

Discorro.__ Mais: decorro, e sem saber
de que novelo saio.
Por sobre o ombro (dói!) lobrigo
tantas confusas coisas, falo delas.
Colo então à própria vista a escrita,
o peso, o contrapeso, a palavra que digo.
Sufoco o medo a medo, e olho a esteira
remudo e quedo, sentado na cadeira.

 

_
▪ Pedro Tamen
(Lisboa, n. 1934)
in “Memória Indescritível”, Editora Gótica, Lisboa, 2000

░ A PAIXÃO

Saímos do amor
como de uma catástrofe aérea
Havíamos perdido a roupa
os papéis
a mim faltava-me um dente
e a ti a noção do tempo
Era um ano longo como um século
ou um século curto como um dia?
Pelos móveis
pela casa
desperdícios quebrados:
copos, fotos, livros desfolhados
Éramos os sobreviventes
de um derrube
de um vulcão
das águas arrebatadas
e despedimo-nos com a vaga sensação
de haver sobrevivido
embora não soubéssemos para quê.

 

_
▪ Cristina Peri Rossi
(Uruguai, n. 1941)
in “Babel bárbara”, Editora Angria, Caracas, 1990

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.

 



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

LA PASIÓN

 

Salimos del amor
como de una catástrofe aérea
Habíamos perdido la ropa
los papeles
a mí me faltaba un diente
y a ti la noción del tiempo
¿Era un año largo como un siglo
o un siglo corto como un día?
Por los muebles
por la casa
despojos rotos:
vasos fotos libros deshojados
Éramos los sobrevivientes
de un derrumbe
de un volcán
de las aguas arrebatadas
y nos despedimos con la vaga sensación
de haber sobrevivido
aunque no sabíamos para qué.

 

_
▪ Cristina Peri Rossi
(Uruguai, n. 1941)
in “Babel bárbara”, Editora Angria, Caracas, 1990

 

░ DIABO TRISTE

o diabo tem um olhar triste em que moram
pesados devaneios irmãos de todas as coisas
meu irmão mãos malhadas de passar a ferro
uma eternidade de palavras pernas magras
cruz de sua sede irrefletida os ombros curvos
sobre o pulmão o gesto fogueira do desejo
luzes foscas no cabelo as veias secas
como fontes em que o amor não entra mais
por mais que suplique não se tira o amor
não entra ar não sai não se tira mais seus ais
e sobre o corpo prometido a cal e argila
se imobiliza enfim uma alegria intransitiva
deus é seu hospital

 

_
▪ Marcos Siscar
(Brasil – SP, n. 1964)
in “Metade da arte”, Editora Cosac Naify, São Paulo BR, 2003

░ CÂMERA OBSCURA

Guarda a realidade num espelho escuro
e que a luz estreita lhe dê vida.
Sobre o cristal manchado renascem as paisagens:
difusas porém mágicas.
Que conflito interior entre luzes e sombras,
entre química e tempo,
nos devolve os signos feitos signos?
Invertidas imagens, agora,
nas nossas mãos mostram as cidades,
as visões enigmáticas do mundo.
Olhamos com assombro esta esquina do tempo,
este cartão iluminado e claro
que com a sua luz nos salva do esquecimento.

_
▪ Juan Lamillar
(Sevilha ESP, n. 1957)
Poema inédito em livro

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ CAMERA OBSCURA

 

Guarda la realidad en un espejo oscuro
y que la luz estrecha le dé vida.
Sobre el cristal manchado renacen los paisajes:
difusos pero mágicos.
¿Qué conflicto interior entre luces y sombras,
entre química y tiempo,
nos devuelve los signos hechos signos?
Invertidas imágenes, ahora,
en nuestras manos muestran las ciudades,
las vistas enigmáticas del mundo.
Miramos con asombro este rincón del tiempo,
este cartón iluminado y claro
que con su luz nos salva del olvido.

 

_
▪ Juan Lamillar
(Sevilha ESP, n. 1957)
– Inédito –

 

░ Favorito

Quando me perguntam, “Quem é o seu poeta favorito?”
É melhor não mencionar o teu nome,
Embora tu sejas sem dúvida o meu poeta favorito
E eu também goste dos teus poemas.

 

_
▪ Wendy Cope
(Reino Unido, n. 1945)
in ““Two Cures for Love: Selected Poems 1979-2006”
Published by Faber & Faber, London UK, 2008
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



Versão original/ Original version

 

░  Favourite

 

When they ask me, ‘Who’s your favourite poet?’
I’d better not mention you,
Though you certainly are my favourite poet
And I like your poems too.

 

_
▪ Wendy Cope
(Reino Unido, n. 1945)
in ““Two Cures for Love: Selected Poems 1979-2006”
Published by Faber & Faber, London UK, 2008

 

░ 15.

Da tua solidão ficou um círculo de sombras
Um talismã que uso em meu cabelo branco.

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “A Sombra da Romã”, Editora Apenas Livros, Lisboa, 2011



CASTELHANO

 

░  15.

De tu soledad sobró un círculo de sombras
Un talismán que uso en mi pelo blanco.

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “A Sombra da Romã”, Editora Apenas Livros, Lisboa, 2011
Mudado para castelhano por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br

 

░ MÃOS

límpidas mãos que na noite se erguem
pedintes de óbolos que outras mãos espargem

na rota do sândalo buscam essas mãos
a essência pura de África milenar

mãos esguias rudes mãos pretas de cor
lívidas de pensamento
doridas mãos que embalaram sóis
e luas e estrelas
e vidas sem porvir
mãos que desenharam rostos e palavras
e todas as cores das aves solitárias
mãos que colheram café e gengibre e fruta-pão
mãos doces como mel de abelhas em cresta de junho
profundas e místicas como amêndoas do Shara
mãos que acenderam lamparinas
para varrer da noite a escuridão
mãos que adormeceram como borboleta
em cima de uma flor
mãos de avó, de mãe, de irmã
mãos de todas as mulheres que carregam nas costas
a imortalidade do universo
para vós este poema
perfumado de cajamanga

 

_
▪ Olinda Beja
(São Tomé e Príncipe, n. 1946)
in “Aromas de Cajamanga”, Escrituras Editora, São Paulo – Brasil, 2009