░ Cheguei ao fim. Andei de pé descalço

Cheguei ao fim. Andei de pé descalço
sobre os calhaus do rio, senti
a água fria, as vozes de outro
lado. Ergui-me na cisterna, ouvi
pelo tabique o toque do relógio
e desci noutra casa, ao longe,
a escada estreita. Mas sempre
em tudo isso sentei-me na cadeira.

Deslustrei a fama que me deram,
Soluçei os soluços que passei
com risos importunos. Abri mão
dos trunfos que os anos me dariam
se os olhos pudessem reabrir-se.
As músicas tocaram, mas falei
de arremedos sortidos, da beleza
da mão com sardas brunas, e vazia.

Matei-me esfarelado, e hesitei
entre a folha da agenda e a falha
geológica. Puxei cordas diversas
e alterei assim o rumo dos teus olhos
com a vela que os vela. Sou ainda
o feto minutado que o planeta quis
no país, no país, no campo e na cidade,
entre dentes e datas, azar de bruxaria.

Vário, variei. Pra trás e pra diante
tropecei, empecilho, no teu entendimento.
Vim dos poentes tensos, rapidíssimos,
sobre a terra crestada de moléstia,
vazio de uniforme e de uma carta a chegar.
Engrossei a gravata, fiz sorriso
da careta que a alma me ditou,
pontuei o discurso. __ Vindimei.

Andei de flor em flor nos intervalos
de cantar muito a sério que sem asas
é na cadeira que tenho de sentar
o cu dorido de toda a eternidade:
e a mão, a mesma, a mão direita
mas sinistra, passa do corrimão
para a caneta, a preta, não descreve,
e escreve. Páro de percorrer.

Discorro.__ Mais: decorro, e sem saber
de que novelo saio.
Por sobre o ombro (dói!) lobrigo
tantas confusas coisas, falo delas.
Colo então à própria vista a escrita,
o peso, o contrapeso, a palavra que digo.
Sufoco o medo a medo, e olho a esteira
remudo e quedo, sentado na cadeira.

 

_
▪ Pedro Tamen
(Lisboa, n. 1934)
in “Memória Indescritível”, Editora Gótica, Lisboa, 2000

░ A PAIXÃO

Saímos do amor
como de uma catástrofe aérea
Havíamos perdido a roupa
os papéis
a mim faltava-me um dente
e a ti a noção do tempo
Era um ano longo como um século
ou um século curto como um dia?
Pelos móveis
pela casa
desperdícios quebrados:
copos, fotos, livros desfolhados
Éramos os sobreviventes
de um derrube
de um vulcão
das águas arrebatadas
e despedimo-nos com a vaga sensação
de haver sobrevivido
embora não soubéssemos para quê.

 

_
▪ Cristina Peri Rossi
(Uruguai, n. 1941)
in “Babel bárbara”, Editora Angria, Caracas, 1990

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.

 



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

LA PASIÓN

 

Salimos del amor
como de una catástrofe aérea
Habíamos perdido la ropa
los papeles
a mí me faltaba un diente
y a ti la noción del tiempo
¿Era un año largo como un siglo
o un siglo corto como un día?
Por los muebles
por la casa
despojos rotos:
vasos fotos libros deshojados
Éramos los sobrevivientes
de un derrumbe
de un volcán
de las aguas arrebatadas
y nos despedimos con la vaga sensación
de haber sobrevivido
aunque no sabíamos para qué.

 

_
▪ Cristina Peri Rossi
(Uruguai, n. 1941)
in “Babel bárbara”, Editora Angria, Caracas, 1990

 

░ DIABO TRISTE

o diabo tem um olhar triste em que moram
pesados devaneios irmãos de todas as coisas
meu irmão mãos malhadas de passar a ferro
uma eternidade de palavras pernas magras
cruz de sua sede irrefletida os ombros curvos
sobre o pulmão o gesto fogueira do desejo
luzes foscas no cabelo as veias secas
como fontes em que o amor não entra mais
por mais que suplique não se tira o amor
não entra ar não sai não se tira mais seus ais
e sobre o corpo prometido a cal e argila
se imobiliza enfim uma alegria intransitiva
deus é seu hospital

 

_
▪ Marcos Siscar
(Brasil – SP, n. 1964)
in “Metade da arte”, Editora Cosac Naify, São Paulo BR, 2003

░ CÂMERA OBSCURA

Guarda a realidade num espelho escuro
e que a luz estreita lhe dê vida.
Sobre o cristal manchado renascem as paisagens:
difusas porém mágicas.
Que conflito interior entre luzes e sombras,
entre química e tempo,
nos devolve os signos feitos signos?
Invertidas imagens, agora,
nas nossas mãos mostram as cidades,
as visões enigmáticas do mundo.
Olhamos com assombro esta esquina do tempo,
este cartão iluminado e claro
que com a sua luz nos salva do esquecimento.

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▪ Juan Lamillar
(Sevilha ESP, n. 1957)
Poema inédito em livro

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ CAMERA OBSCURA

 

Guarda la realidad en un espejo oscuro
y que la luz estrecha le dé vida.
Sobre el cristal manchado renacen los paisajes:
difusos pero mágicos.
¿Qué conflicto interior entre luces y sombras,
entre química y tiempo,
nos devuelve los signos hechos signos?
Invertidas imágenes, ahora,
en nuestras manos muestran las ciudades,
las vistas enigmáticas del mundo.
Miramos con asombro este rincón del tiempo,
este cartón iluminado y claro
que con su luz nos salva del olvido.

 

_
▪ Juan Lamillar
(Sevilha ESP, n. 1957)
– Inédito –

 

░ Favorito

Quando me perguntam, “Quem é o seu poeta favorito?”
É melhor não mencionar o teu nome,
Embora tu sejas sem dúvida o meu poeta favorito
E eu também goste dos teus poemas.

 

_
▪ Wendy Cope
(Reino Unido, n. 1945)
in ““Two Cures for Love: Selected Poems 1979-2006”
Published by Faber & Faber, London UK, 2008
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



Versão original/ Original version

 

░  Favourite

 

When they ask me, ‘Who’s your favourite poet?’
I’d better not mention you,
Though you certainly are my favourite poet
And I like your poems too.

 

_
▪ Wendy Cope
(Reino Unido, n. 1945)
in ““Two Cures for Love: Selected Poems 1979-2006”
Published by Faber & Faber, London UK, 2008

 

░ 15.

Da tua solidão ficou um círculo de sombras
Um talismã que uso em meu cabelo branco.

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “A Sombra da Romã”, Editora Apenas Livros, Lisboa, 2011



CASTELHANO

 

░  15.

De tu soledad sobró un círculo de sombras
Un talismán que uso en mi pelo blanco.

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “A Sombra da Romã”, Editora Apenas Livros, Lisboa, 2011
Mudado para castelhano por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br

 

░ MÃOS

límpidas mãos que na noite se erguem
pedintes de óbolos que outras mãos espargem

na rota do sândalo buscam essas mãos
a essência pura de África milenar

mãos esguias rudes mãos pretas de cor
lívidas de pensamento
doridas mãos que embalaram sóis
e luas e estrelas
e vidas sem porvir
mãos que desenharam rostos e palavras
e todas as cores das aves solitárias
mãos que colheram café e gengibre e fruta-pão
mãos doces como mel de abelhas em cresta de junho
profundas e místicas como amêndoas do Shara
mãos que acenderam lamparinas
para varrer da noite a escuridão
mãos que adormeceram como borboleta
em cima de uma flor
mãos de avó, de mãe, de irmã
mãos de todas as mulheres que carregam nas costas
a imortalidade do universo
para vós este poema
perfumado de cajamanga

 

_
▪ Olinda Beja
(São Tomé e Príncipe, n. 1946)
in “Aromas de Cajamanga”, Escrituras Editora, São Paulo – Brasil, 2009

░ Ad Amatrice tutto è possibile

I bambini hanno cessato il gioco ad Amatrice.
Ora solo macerie
e vestigia dell’ultimo addio:
un crogiolo di zolfo,
le ferite delle nuvole,
e la delicata anatomia dei sismi.

Quasi senza volto,
la vedo sbirciare dall’altro lato dell’inferno della terra.

Chiama segnali d’insetti
e la piccola mano di un Angelo al di sopra.

Amatrice dorme su un ramo di pietre.

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Poema inédito publicado com autorização prévia da autora.

Mudado para italiano por – Daniela Di Pasquale, tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.



VERSÃO ORIGINAL

 

░ Em Amatrice tudo é possível

 

As crianças terminaram o jogo em Amatrice.
Agora só escombros
e vestígios do derradeiro adeus:
um cadinho de enxofre,
as feridas das nuvens,
e a delicada anatomia dos sismos.

Quase sem rosto,
vejo-a espreitar do outro lado do inferno da terra.

Clama sinais de insectos
e a pequena mão de um Anjo por cima.

Amatrice dorme num ramo de pedras.

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Poema inédito publicado com autorização prévia da autora.

 

░ Um chocolate quente para Kingsley Amis

Foi um sonho que tive na semana passada
E pareceu-me essencial registá-lo de alguma maneira.
Eu sabia que como poema não seria grande coisa
Mas adoro o título.

 

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▪ Wendy Cope
(Reino Unido, n. 1945)
in “Making Cocoa for Kingsley Amis“, Published by Faber & Faber, London UK, 1986
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)