░ AS FLORES DO MAL

Ninguém pode cortar por mim o mato do quintal. Ele invadiu o pomar, ameaça obstruir os caminhos. Digo-me que foi gerado pela força do meu silêncio ou da minha omissão. Mas de fato foi semeado pela mão que outrora o arrancou e involuntariamente semeou. Crescido forte e vigoroso, agora enche o trajeto de espanto, de amor-cego, de picão. O carrapicho, por exemplo, essa flor incisiva, nasce no centro de um círculo raiado e vai expandindo seus dedos, até entregar o bago louro de um trigo ruim. Visto de cima, ele tem a forma exata de uma íris. Pelo menos, é a forma que enxergo quando fecho os olhos. Ninguém pode cortar o mato, por mim. Nos dias de chuva, contemplo seu crescimento, sua tranquila absorção do influxo da vida, o percurso que o levará a sufocar a civilização criada em torno dele. Em dias como este, as mãos calejadas de sentido, me ajoelho e o ataco com as unhas. E no meio de ervas daninhas suo, me sujo, concentrado como um artesão, enfurecido como um filósofo, a extirpá-lo. Enquanto isso, suas sementes caem no chão limpo e a terra as acolhe, hospitaleira. Nuvens passam aos pedaços, quando me deito.

 

_
▪ Marcos Siscar
(Brasil – SP, n. 1964)
in “O roubo do silêncio”, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2006

░ Número 8

Era um rosto que a escuridão podia matar
num instante
um rosto facilmente magoado
tanto pelo riso como pela luz

“Pensamos de forma diferente à noite”
disse-me ela certa vez
languidamente recostada

E era capaz de citar Cocteau

“Sinto que há em mim um anjo” dizia
“que passo a vida a escandalizar”

Depois sorria e desviava o olhar
acendia-me um cigarro
suspirava e levantava-se

e esticava
a sua delicada anatomia

deixando cair uma meia

 

_
▪ Lawrence Ferlinghetti
(E.U.A., n. 1919)
in “Pictures of the Gone World”, City Lights, 1955
Mudado para português por – Vasco Gato (Poeta, Tradutor)



Versão original/ Original version

 

░ Number 8

 

It was a face which darkness could kill
in an instant
a face as easily hurt
by laughter or light

‘We think differently at night’
she told me once
lying back languidly

And she would quote Cocteau

‘I feel there is an angel in me’ she’d say
‘whom I am constantly shocking’

Then she would smile and look away
light a cigarette for me
sigh and rise

and stretch
her sweet anatomy

let fall a stocking

 

_
▪ Lawrence Ferlinghetti
(E.U.A., n. 1919)
in “Pictures of the Gone World”, City Lights, 1955

 

░ ESCONDERIJO

Tenho passado a vida inteira à espera
dos veados pretos, aqui escondido no escuro
recanto do bosque.
Apanho-os em vislumbres, quando se desprotegem,
saindo disparados
para se apagarem nas árvores fundas.
Estão ali implícitos, apenas se mexendo
se eu ficar quieto.
Embora num sonho que tenho
se aproximem tanto que lhes sinto a respiração.
Depois, quando olho para baixo,
já desapareci.
Lá no extremo do bosque, o resfolegar
e o tossir do bando a alimentar-se.
Uma rajada desencadeia um desprender de folhas,
que se põem em fuga e saltam como as cabeças remotas
dos veados ao longe.
O vento cessa e as árvores têm chifres.

 
_
▪ Robin Robertson
(Escócia, n. 1955)
in “Saling the florest” – Selected Poems, Editor Picador, London, 2014
Mudado para português por – Vasco Gato (Poeta e tradutor)



Versão original/ Original version

 

HIDE

I have been waiting for the black deer
all my life, hidden here in te dark
corner of the wood.
I see glimpses of them, breaking cover,
Swinging away
to erase themselves in the deep trees.

They are implicit there, and will move
only if I hold still.
Though in a dream I have
they stand so near I can feel them breathing.
Then, when I look down
I have disappeared.

Out at the wood’s edge, the snorts
and coughs of the feeding herd.
A gust startles a lift of leaves, and they
scatter and bound like the far-off heads
of deer in the distance.
The wind drops and the trees are antlered.

 

_
▪ Robin Robertson
(Escócia, n. 1955)
in “Saling the florest” – Selected Poems, Editor Picador, London, 2014

 

░ Lo specchio del secolo

(dentro il libro c’è un deserto di luce
che infrange le rovine
e spezza la lira della notte)

 

la poesia vestita da bambino dorme su un ramo del freddo
brucia
come i pensieri di un folle

attraversa la luna con un fiore di cenere in bocca
 
 
_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “Num Sapato de Dante”, Escrituras Editora, São Paulo – Brasil, 2012

Tradução – Daniela Di Pasquale, tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.



 Versão original / Versione originaria

 

░ O ESPELHO DO SÉCULO

(dentro do livro há um deserto de luz
que rompe as ruínas
e quebra a lira da noite)

 

 

o poema vestido de criança dorme num ramo do frio
queima
como os pensamentos de um louco

atravessa a lua com uma flor de cinzas na boca

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “Num Sapato de Dante”, Escrituras Editora, São Paulo – Brasil, 2012

 

░ EM BLACKWATER POND

Em Blackwater Pond as águas revoltas acalmaram
depois de uma noite de chuva.
Mergulho as minhas mãos em forma de concha. Bebo
durante muito tempo. Sabe
a pedras, folhas, fogo. Cai fria
no interior do meu corpo, despertando os ossos. Ouço-os
bem dentro de mim, sussurrando
que coisa maravilhosa
aconteceu?

 

_
▪ Mary Oliver
(EUA, n. 1935)
in “A thousand mornings”, Penguin, Nova York, 2012
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

AT BLACKWATER POND

 

At. Blackwater Pond the tossed waters have settled
after a night of rain.
I dip my cupped hands. I drink
a long time. It tastes
like stone, leaves, fire. It falls cold
into my body, waking the bones. I hear them
deep inside me, whispering
oh what is that beautiful thing
that just happened?

 

_
▪ Mary Oliver
(EUA, n. 1935)
in “A thousand mornings”, Penguin, Nova York, 2012

 
 

░ Eu tenho de nação ideias desmembradas

Eu tenho de nação ideias desmembradas,
comungo do ranger de dentes
com os vizinhos,
comungo de açularem
os perros uns contra os outros,

mas não eu contra todos,
só contra alguns,
e mesmo assim
isolo-me no bosque do silêncio,
fujo para esta folha,
os cães ficam lá fora.

No entanto, eu que empunhei o fogo
sem Deus se ter lembrado
de chamar a águia,

quando os sinos e as sirenes
soarem a rebate, terei de ir,
o fígado desfeito por cirroses
somadas de desgosto,

embora aos meus vizinhos
pouco falte para se armarem
nos conflitos de bairro,
em defesa do quarto e da cozinha.

No fundo, sei que sou o tempo,
as minhas coordenadas e as alheias,
e daí que haja tempo para tudo,

um tempo para a paz,
um tempo para a vida,
um tempo para a guerra e para a morte,
um tempo para ser-se tudo e nada
ao mesmo tempo, a pele dos outros
que desvisto com suma falta de piedade.

Daí que não acredite em maiorias.
As maiorias são volúveis,
fácil é comprar-lhes
a consciência e o nome da rua,

e agora os estrangeiros chegam,
estendem as metástases,
ocultam lentamente o sol,
e os olhos de tal gente
tornam-se mortiços e cegam.

Somente um genocídio podia convencê-la
de que havia um reduto aqui

e não sei se acreditava,

tantas formas há de se confiscarem
as cidades, os campos, os mosteiros,
os palácios, a Língua,
um longo rol de fábricas,
a energia dos rios e do vento,
milhões de vozes
que constroem o amor
a partir de satélites,

e ninguém se interessa:
é pouco provável
que os estrangeiros entrem numa aldeia
ou assolem as ruas suburbanas
e sejam invisíveis,
embora não se vejam.

 

_
▪ Nuno Dempster
(Ponta Delgada, n. 1944)
in “Uma paisagem na web”, Editora &etc, Lisboa, 2013

░ Eu sou o rio dos mortos

Eu sou o rio dos mortos
dos meus parentes mortos
e os meus mortos são o mundo inteiro.

Eu sou o rio dos mortos
nasci da sede pelo dó das lágrimas
quando mortos todos os pensamentos.

Eu sou o rio dos mortos
me criei no pântano das palavras
dos restos tudo trago.

Eu sou o rio dos mortos
minha carne é das nuvens.
Se fujo só dou em mim.

Eu sou o rio dos mortos
e o meu choro o que devolve à terra
o chão do sal da terra o chão.

Eu sou o rio dos mortos
minha margem de árvores
dos astecas que me sangraram.

Eu sou o rio dos mortos
da terra não passo
ninguém me ultrapassa sem desvão.

 

_
▪ Júlia de Carvalho Hansen
(São Paulo BR, n. 1984)
in “Cantos de estima”, Selo de Estimas e Grama, Editora Douda Correria, Lisboa, 2015

░ na lavoura os pais

na lavoura os pais
à semeia das mães
joeiram os filhos de
envolta com o grânulo
cereal lábios de sangue
escorrido entre as pernas
ânforas de vinho nunca
antes bebido traçado às
escuras em cochos curtidos
contendo o mênstruo doce
dos áceres no interior líquido
o estame amputado cerca
ao bojo regaço das mães
enquanto elas ausentes
amamentam os filhos por
abortar nos embriões da
terra o útero a céu aberto
os filhos enjeitados à feiura
à magreza triste dos cães
rente ao bordo das cantareiras
donde se vislumbram defronte
os cancros tumores brotando
ao dependuro das árvores
das tardes doentes mais as
velhas nos janelos a espreitar
cá para fora com os rostos
caiados de morte e uns olhos
póstumos a anteverem o fim.

 

_
▪ Miguel Alexandre Marquez
(Lisboa, n. 1979)
in “Coda”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2016

░ De la calle del Arcángel con la música en el corazón

Te esperaré hasta el día de la resurrección
sólo por verte aparecer con ese vestido rojo entre la hierba.
Suena la trompeta, vibra la seda
y el ventilador girando como la rueda de la fortuna.
Es un ritmo demasiado alegre para el Juicio Final.

Regresas abatida
cuando los grillos cantan las completas,
pareces un alma recién llegada del purgatorio
-aunque digas que vienes de la calle del Arcángel
y que te golpeas el pecho
porque traes música en el corazón-

Si fueras una gota de sangre entre la lana,
una amapola florecida por confusión en los almendros,
no me sorprenderías tanto.
Pero es otoño
y el rojo tiñe hasta las plumas de las aves,
si sabes mirarlo,
y entre la hierba
las zorras te han copiado el vestido.
Como tú, vienen de la calle del Arcángel
golpeándose el pecho
con la música en el corazón.

 

_
▪ Elena Soto
(n. Ponferrada, Espanha)
in “Invierno sin corazón” (Kernlose winter), Ediciones Torremozas, Madrid, 2015