░ Como alcançar o paraíso

Tens de ter coragem
para escrever um poema,
tens de ter coragem
para não escrever um poema,
tens de dizer olá
e adeus,
tens de tomar vitaminas,
tens de respeitar todas as pessoas
e amar apenas uma,
mesmo que ela não o mereça,
tens de sofrer silenciosamente
e de permanecer pacientemente em silêncio,
tens de estar em silêncio quando alguém fala
e de falar quando toda a gente fica em silêncio,
tens de deitar o lixo fora,
de regar as flores,
de pagar o gás e a água,
os erros e os sucessos,
tens de dar o coração
por um olho e um olho
pelos dentes,
não deves pedir nada
quando desejas tudo,
e exigir tudo
quando não desejas nada,
tens de adormecer a horas
e de acordar a horas,
de encontrar dois sapatos para o pé esquerdo
porque os outros dois são do pé direito,
não esperar que alguém regresse
ou deixe de regressar
só porque alguém está à espera,
tens de olhar para o céu
porque ele jamais olhará
para ti,
tens de morrer porque é assim,
mesmo que não o
mereças,
tens de escrever um poema
nascido do medo
entre “sim” e “não”,
vindo do “por quê”,
com “para quê”,
para ser “agradecido”,
mesmo quando
não o merece.

 

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▪ Daiva Cepauskaite
(Lituânia, n. 1967)
– Versão de Luís Parrado a partir da tradução inglesa de E. Alisanka e Kerry Shawn Keys reproduzida em Six lithuanian poets, Arc, Todmorden, 2008. pp. 119-121.

░ 2006

Abrir a porta é
entre os gestos de coragem
o que viola mais de frente o Feng Shui
Muitas coisas são esparzidas pelo vento e acolhidas pela água
tu por exemplo
Eu
que não sou guerreiro e só vejo o que se mostra ao largo do
olho mágico
eu que enxergo o visível e
o invisível deixo para quem tem olho neste
mundo de cegos
eu sarnento que teria de trocar de pele os dias todos
todos os banhos na Lagoa Rodrigo de Freitas no Tejo ou
na tua baba mas
não troca
digo-te
pula pra dentro me abraça esconde a espera e me mostra a faca da
folia e da carne a mal passarmos
o fio de enfrentarmos juntos os diabos vesgos deste apartamento
os fantasmazinhos que nós não inventamos
a espessura do que é alimento se você
presente coda desta casa inflada
pular pra dentro
Abri a porta
o ferrolho sempre deu pro pátio interno
e eu
de lado para a porta a fim de estar mais salvo ao fim do dia das visitas
dos besouros
olhei o apartamento nos teus olhos devolvido e ali a chave
o oriente
era bem perto era a esta mão mas
a jornada não cabia na aliança
o olho súbito a dizer que demoraras
a indicar que as muitas milhas de roteiro no invisível
(eu que vejo só por olhos)
eram cansaço
mas mentira
a estrada foi o que ressalvou nosso Feng Shui
Abri a porta
pula pra dentro
que seja
entre os gestos de coragem
o mais violante e violado aquele que em você me diga
existo

 


▪ Luis Maffei
(Brasil, n. 1974)
in “40”, Editora Oficina Raquel, Rio de Janeiro, 2015

 

░ Na cidade breve as ilustres criaturas

Na cidade breve as ilustres criaturas
apodrecem de vidinha inveja e conversata
entre voracidade e íngreme bajulação

descuidadamente espirram teorias
enquanto os pés ensaiam uma dança
de fulgor e desencanto
tão longe já do voo imaginado

recolhidas viajam no silêncio
enquanto os olhos se fecham

levemente ausentes

com a certeza de que acabou
a incandescência.

 

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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Pequeno bestiário académico”, Ed. Licorne, Évora, 2014

ROSÁCEA

Passo a tarde dentro em ti A tarde
passa e eu em ti na humana rosácea de teu bico
lápis com a ponta na ponta da tarde e eu
ardo-te encontro na tarde que parte o
espinho e a cal que teu lápis de
feita ponta fez-me
de cor
no arder do hoje à tarde que passa e eu
em ti passando em branco e rubro em
ti e tudo

……………… Esta tarde é a carne das palavras que
eu não disse teu ouvido a carne pronta a
pôr o tempo em descarrilho e a mão na boca Tudo é a
carne que se coma a
boca livre a
chão aceso a
pedra e arte e extrema
sonda que parece a tua boca mas é só a tua
boca em uso estrito
em dente e carne em mim
deposta

 


▪ Luis Maffei
(Brasil, n. 1974)
Poema inédito publicado com autorização prévia do autor

░ Sede

Está vazio o teu peito__No lugar
do coração talvez um ataúde
ou nem isso__uma sombra
igual a essa noite onde procuras
o mar__o imenso mar__e só encontras
sede

 

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▪ Fernando Pinto do Amaral
(Lisboa, n. 1960)
in “Revista Relâmpago, nº. 35″, Lisboa, 2014

░ comício

é preciso plantar uma solução
nos lábios clássicos da ascendência de orfeu

é preciso que um objeto novo
arrisque-se a maturar suas estruturas
sem que o aço ao sol em carne viva espelhe o céu

é preciso não haver necessidade
de uma escritura tão libertária
quanto as trocas capitalistas mais que isso

é preciso não se relacionar ao modernismo
para além de seus impulsos anarquistas

a europa caminha para o regresso
a mão invisível balança o berço

 

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▪ Fabio Riggi
(Brasil – SP, n. 1982)
in “Cidade adeus”, Patuá Editora, Brasil, 2014

░ Abdicação

Aceito morrer em breve
mas não irei ter contigo
às salinas escuras
por onde tens andado
ficando à minha espera.

Também não quero o mar
nem a montanha
locais de iniciação

Quero um regato ameno
de água fina correndo
por entre arbustos rasteiros.

E então ao longe
a figueira
de folhas enganadoras

com uma sombra que oculta
o gesto da maldição.
_
▪ Yvette K. Centeno
(Lisboa, n. 1940)
in “Canções do Rio Profundo”, Asa Editores, Porto, 2002

░ Destino

Não bordo por destino
nem me dobro

Não cedo à mão da vida
nem me encubro

Não cumpro_ não aceito
nem me calo

Não amo o que é imposto
nem me afundo.

 

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▪ Maria Teresa Horta
(Lisboa, n. 1937)
in “Poesia Reunida”, Publicações Dom quixote, Lisboa, 2009

Conselho aos críticos do novo século

Desdenha de quem escreve coisas simples
e desconfia, desconfia sempre
dos sentimentos, das convicções.

Diz mal da tua época,
procura dar a tudo um ar difícil
e cita alguns autores que ninguém leu.

Se queres que te respeitem,
reserva a admiração e o elogio
pra certos mortos bem escolhidos,
de preferência estrangeiros,
e acima de tudo
não caias nunca na vulgaridade
de ser compreendido pelos que te lerem.

 

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▪ Fernando Pinto do Amaral
(Lisboa, n. 1960)
in “Pena Suspensa”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2004