ACOLHIMENTO  *  APRESENTAÇÃO DE LIVRO  

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Apresentação do Livro A CASA DA MEMÓRIA De Maria Azenha
01 OUT 2024 – Terça-Feria às 18h30

 

Rua Coelho da Rocha, 16-18
Campo de Ourique
1250-088 Lisboa

Tel.: +351 213 913 270

Entrada livre, sujeita à lotação
Bilhetes disponíveis a partir das 17h30

 

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Com Maria Azenha e apresentação de Risoleta C. Pinto Pedro
Leitura  de poemas por Denise Pereira
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Alegra-te comigo

Alegra-te comigo, celebremos a sorte
de partilhar este poema.
Toquemo-lo com o sol da meia-noite
e com a luz do meio-dia.
Com ele exorcizemos a água dos refúgios
por entre palavras fendidas.

À sombra dos dragões do céu
silenciemos a nossa imensa solidão.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )

No mês do Setembro Amarelo, escritor e poeta aramyz expõe em livro sua luta contra a depressão
“Suicídios Diários”, obra publicada pela editora Urutau, reúne poemas de caráter autobiográfico, que a editora Debora Ribeiro Rendelli define como um “livro para celebrar a vida”, embora trate de um tabu social, o suicídio

Suicídios Diários, do poeta aramyz

 
Setembro é o mês em que a importância dos cuidados com a saúde mental ganha ainda mais notoriedade na população, devido à campanha Setembro Amarelo (da Associação Brasileira de Psiquiatria e do Conselho Federal de Medicina), voltada à prevenção do suicídio.

Embora o assunto ainda seja considerado um tabu na sociedade, a campanha é uma ótima oportunidade para conscientizar a população, fazer com que estes estigmas sejam quebrados e, acima de tudo, estimular que as pessoas busquem e ofereçam ajuda.

Partindo deste princípio de jogar luz sobre este tema-tabu e trazendo sua história de luta pela vida como referência, o escritor e poeta baiano-paranaense aramyz decidiu transformar em poemas a sua luta pessoal contra a depressão que culminou ao extremo de tentativas de suicídio – felizmente frustradas.

E o público poderá ter contato de perto com a história e as emoções de aramyz por meio deste seu novo livro de poesias, Suicídios Diários (Editora Urutau, 100 págs.), que acaba de ser lançado e já vem sendo bem recebido por críticos que tiveram contato com a obra. Alan dos Santos, criador do blog e do perfil no Instagram Deus Ateu, faz o seguinte comentário sobre o livro: “Um magnetismo absurdo. Só quem escreve com o corpo, com a existência e suas dores consegue produzir algo assim. O que seria da literatura se não fosse a dor e a delícia de estar vivo diante da morte?”.

Livro para Comemorar a Vida – Com prefácio da renomada escritora portuguesa Maria Azenha, Suicídios Diários reúne 60 poemas de caráter autobiográfico, que embora tratem de um tema pesado, foram publicados como “um livro para comemorar a vida”, como assim definiu a editora Debora Ribeiro Rendelli.

aramyz revela que, para organizar o livro, resgatou seus poemas escritos nos momentos de crise que, segundo ele, “estavam guardados, trancafiados, escondidos em cadernos, e-mails e gavetas”. Ele destaca que “venho escrevendo desde que tive o primeiro pensamento suicida. Foi um livro construído ao longo da vida, por isso, tão pessoal. Esses poemas foram escritos a cada sobrevivência de uma crise e a decisão de publicar foi exatamente num momento onde se fez necessário falar. Em algum momento ele viria à tona”, analisa o autor.

Conscientização do Público – Para cumprir esta missão de quebrar o tabu e conscientizar o público, Suicídios Diários traz o texto introdutório “porque preciso falar sobre isso”, em que o próprio autor relembra sua trajetória pessoal, incluindo a descoberta de ser portador do transtorno do espectro autista.

“minha vida, minha solidão, minha aversão a barulhos, ambientes agitados, excesso de iluminação, alguns comportamentos que chamam de toc, meu mau humor, aversão a contatos físicos, minha dificuldade de olhar nos olhos das pessoas, minha aversão a letras maiúsculas, seletividade alimentar, minhas depressões, minhas tentativas de suicídio, minhas solidões, meus interesses restritos e repetitivos, meu hiperfoco, alguns comportamentos e falas mal colocadas, que são vistos como falta de empatia. hoje tomo medicação controlada, faço análise, terapia ocupacional, e as ideias de suicídio diminuíram, mas não passaram” – trecho de Suicídios Diários.

Ainda no texto de abertura de seu novo livro, aramyz reforça lições importantes sobre aprendizado e gratidão: “tenho aprendido todos os dias que minha vida é importante, um presente do qual tiro o laço, desembrulho do papel colorido, visto e uso por mais um dia, com todos os altos e baixos, sendo atropelado por estranhas sensações e pensamentos que me doem, tenho aprendido a viver assim, um dia depois do outro, entendendo minhas dores, falando sobre elas, brindando minhas vitórias, convivendo com minhas derrotas e meus fracassos, quero continuar lutando, continuar vivendo, e agradecendo, agradecendo todos os dias”.

Já para a poeta portuguesa Maria Azenha, “esta confrontação com a sombra é um difícil e às vezes trágico duelo entre o poeta e o lado sombrio de si mesmo. aramyz não deixa ninguém indiferente”, define no prefácio de Suicídios Diários. Ela completa ainda, ressaltando que “esse mundo quase ignorado que pode emergir de maneira inesperada e quase sempre inquietante em qualquer poema deste livro”.

Gritos no Abismo – Quando questionado sobre como trabalha esta necessidade de “gritar ao mundo”? aramyz é enfático: “todo grito vem do abismo, acredito que os abismos são lugares sem luz, sem som, os precipícios, as profundezas, quando se atinge esse ponto, ou se desce mais e se enterra na escuridão, ou sobe e grita, eu escolhi gritar”.

Suicídios Diários
Autor: aramyz
Editora: Urutau
Páginas: 100
ISBN: 978-65-5900-706-6
Dimensões: 13cm x 16,5cm

 

in: Gazeta da Semana 

Os gatos absurdos de Maria Azenha

 

Os gatos absurdos de Maria Azenha

 

MARIA ESTELA GUEDES
Dir. Triplov

Texto de apresentação de «O livro do absurdo», de Maria Azenha (Urutau, 2024). Auditório da inComunidade, 27 de Abril de 2024, Porto.

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Mais um excelente livro de Maria Azenha, com a sua proposta de exposição ou explicação do absurdo. Começando pela indicação de que ab+surdo diz respeito ao ouvido, àquilo que o ouvido percebe como dissonante, música desagradável, Maria Azenha logo o dimensiona no âmbito das sonoridades, no cenário das ruas, nos locais ruidosos, onde se ouve parte do que lhe fere a sensibilidade e ela assimila como absurdo. Dissonante e por isso absurdo é o facto de se ouvirem em Lisboa muitas línguas estrangeiras, que a autora deixa patente nos títulos e em alguns versos dos poemas. A amplitude do lugar dissonante vai da casa ao mundo, como ilustra o poema “O dia da Europa”, em que o ruído é o das bombas.

E, para o leitor, o que é absurdo neste livro? Diria que é a “Natureza morta” do poema assim intitulado, ao mostrar que essa modalidade, ou descritivo, da pintura declara que não há perguntas nem respostas, ou seja, a natureza morta anula o ruído, portanto a palavra. Porém o ouvido não é o único órgão de percepção da realidade, os olhos também a assimilam, bem como os restantes órgãos dos sentidos. Talvez por isso a personagem principal deste livro seja cega. Quais os seus bens? – Uma caneta. Que perigo enfrenta? – O do suicídio, pela certa. Vamos ouvir:

 

EARTH

abri todas as portas
não havia ninguém

encontrei um cego
uma caneta
uma corda

o Homem do Absurdo

 

Podia considerar que o narrador, pois trata-se de uma história, encontrou uma série de objetos independentes. Prefiro entender que encontrou uma personagem com alguns atributos. Trata-se do Homem do Absurdo, e com ele a questão do conhecimento, expressa no abrir portas. Vamos imaginar que esta personagem em esboço é algo como um peregrino, um eremita que busca o saber, abrindo portas, e que as suas chaves são pobres e poucas – a caneta, ferramenta de comunicação, a cegueira, capaz de imaginar, não esquecendo que Homero é cego, ou seja, é um vidente, e por fim uma corda. A corda é absurda, convenhamos, por isso vamos supor que é instrumento de morte porque existe nesta uma porta para o conhecimento do Além.

A morte é um dos temas mais insistentes do livro, por isso não estranhamos que um deles seja o de Deus. Tema nitzscheano, tal como o proposto no último verso do poema “Avant-garde”, ao referir a obra “Para além do bem e do mal”. Já ficam mareados de absurdo esses temas da filosofia contemporânea, quando deus desce do seu trono metafísico ao corpo exigente de funeral, com poemas em vez de flores a acompanhar um ritual que se intitula vanguarda:

 

AVANT-GARDE

 

incluirei poemas de deus
no seu funeral

aquilo que se faz
por amor
está

para além do bem e do mal

 

Voltemos ao Homem do Absurdo e sua caracterização. Cego, apesar de ter vivido onze anos com um oftalmologista, muito dado a fobias, com tendência suicida, já entrado em anos, pois custa-lhe dobrar os joelhos, alguma obesidade, de sanidade mental delicada, com vinte anos de experiência de psicanálise, tanto mais pessimista quanto político, ateu, militante holístico, o Homem do Absurdo é uma personagem complexa, a que falta acrescentar a suspeição de narrador na primeira pessoa, aqui e ali. A sua autobiografia dispersa-se pelos poemas, de forma direta ou indireta, mas no longo texto intitulado «Como será estar morto durante duzentos anos» a sua história de vida concentra-se e cresce em importância, conferindo a este último livro de Maria Azenha o caráter narrativo a que venho prestando atenção.

Antes de prosseguir nesse caminho, chamo entretanto a atenção para a minimalidade da maior parte dos poemas, curtos textos gnómicos, que em muitos casos apresentam uma estrofe inicial na qual a realidade imediata transparece, rematada por uma finda, estrofe ainda mais breve que a inicial, que contém a conclusão sentenciosa, mas fora já da realidade primeira. A sentenciosidade, possa embora traduzir uma realidade de primeiro nível, por variados processos de escrita poética desemboca no absurdo, num patamar surrealista. Vejamos o poema «Excuse me», ou «Se me dá licença», em cena interpretável como de elevador, veículo mais inspirador do que as escadas:

 

durmo num sétimo andar
nunca encontrei nas escadas Tchekhov
nem a orelha de Van Gogh
(…)
EXCUSE ME

 

Um silêncio, expresso por um parêntesis que contém reticências, e o remate cortês, advindo apenas da elipse do elevador, pois não é admissível que o Homem do Absurdo subisse e descesse a pé as escadas de um sétimo andar, sobretudo quando nas escadas nunca nenhum objeto bizarro fez a sua aparição. Tais situações despertam o riso, não o riso da alegria, sim a reação nervosa ao que transtorna. Tudo isto mescla emoções, desencadeia cenas insólitas como num teatro, sugerido aliás pelo pano que corre ou desce do poema «O cortinado caiu»:

 

alguns pais casam-se com filhas
algumas filhas casam-se com pais
as casas movimentam-se todo o dia
lavadas vezes sem conta

o cortinado caiu

 

 

O Homem do Absurdo é a principal personagem do livro de Maria Azenha, mas de similar importância são as crianças. Vemo-las no Natal, por exemplo, a jogar ao rapa, ou a ouvir a explicação de como se joga ao rapa e qual a significação das quatro letras nas quatro faces do rapa. Jogo infantil, em todo o caso, e como sempre, podemos progredir do jogo natalino para o rapa dos políticos, caso que me leva a comentar que a poesia de Maria Azenha é invariavelmente muito crítica em relação aos usos da política e da sociedade contemporânea. Aponte-se como exemplo, entre tantos, o poema “Manhãs submersas”, que parece armar-se com a autoridade de Vergílio Ferreira para assim abrir, na estrofe I, e as seguintes são ainda mais ácidas: “Continuo rodeada de idiotas / a poesia está na mercearia/ o natal na loja do cidadão”.

Voltando porém à criança, e o poeta é a maior delas, se me permitem, basta falar no Natal, como agora aconteceu, para elas acudirem em busca das prendas. O aspeto infantil pode apresentar-se na escrita, no léxico dessa idade, como se para falar de algo muito importante, de que só os arrogantes comentadores políticos sabem falar, como da Europa, fosse preciso baixarmos o volume de voz até ao sussurro das carteiras da escola primária. É o que lemos precisamente no poema “A Europa tinha que saber”, e tinha que saber que estamos todos no Rossio a jogar às cartas.

As cartas lembram a Rainha de Copas, sempre disposta a mandar cortar cabeças, lembram Alice e outros amigos, entre os quais o Gato de Cheshire, à espreita no final dos poemas, ele que é um permanente sorriso. Uma literatura que assume a inocência das crianças para corroer mais eficazmente o tecido podre do nosso tempo. A ingenuidade, equivalente nas letras ao naïf da pintura, assenta na interferência da criança no discurso, de tal modo que pode aumentar o absurdo de tal maneira que, em consequência, deus arranja um terçolho. Comentei o poema “Hermes Trimegisto e a sua tábua azul”.

Para concluir, insisto em que neste livro de Maria Azenha se verifica um desvio da lírica para a narrativa, com a presença de uma personagem, o Homem do Absurdo, com andamento de história sendo contada e com desfecho. Em vez do habitual fim feliz ou infeliz, os textos de Maria Azenha optam por uma linha oblíqua de tipo surrealista, como acontece com a árvore de Natal que sofria de falhas de memória:

 

A ÁRVORE DE NATAL QUE SOFRIA DE ALZHEIMER

 

uma mulher colecionava bolas
pendurou-as na árvore de natal

o gato brincou com elas
por causa do distanciamento social

desapareceram o gato e as bolas
e a mulher também desapareceu

mais tarde bateu à porta
mas
a
árvore
não a reconheceu

 

Quanto ao gato absurdo, aquele que está e não está morto, ele demonstra, como quis Shrödinger, que é afinal o absurdo do ser e não ser a matéria quântica da poesia:

 

NO ARMÁRIO DA FÍSICA QUÂNTICA

 

um dos fundadores da teoria quântica Schrödinger
contou a famosa história do gato para enfatizar
que a teoria quântica diz algo absurdo
o gato não observado de Schrödinger
está simultaneamente morto e vivo – até que observá-lo
faça com que esteja ou morto ou vivo

digo então:
este poema que não foi observado por Schrödinger
está ao mesmo tempo morto e vivo
se o observas morto o poema está morto
se o observas vivo o poema está vivo
o poema não existe nunca existirá sem ti

[…]

 

 

MARIA AZENHA
O livro do absurdo
Portugal/Brasil, Editora Urutau, 2024