ANNA IMROTH

Cruzar-lhe os braços sobre o peito – assim.
Endireita-lhe um pouco mais as pernas – assim.
E chamar o carro para que a leve a casa.
A mãe dela há de chorar, e também as irmãs e os
irmãos.
Mas os outros salvaram-se todos: foi ela a única
rapariga da fábrica que não teve sorte ao saltar cá
p’ra baixo quando o fogo irrompeu:
Andou aqui a mão de Deus – e a falta de uma saída
de emergência.

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▪ Carl Sandburg
(Estados Unidos 🇺🇸)
Mudado para português por Alexandre O’Neill

SEM CHAVES E ÀS ESCURAS

Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradaram.
Não pedia mais.
Saí então para deixar o lixo no corredor
e atrás de mim, com a corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
ouvindo as vozes dos meus vizinhos
através das portas.
É transitório, disse a mim mesmo;
assim também pudesse ser a morte;
um corredor escuro,
uma porta fechada à chave por dentro
e na mão o lixo.

 

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▪ Fabián Casas
( Argentina 🇦🇷 )
Mudado para português por Hugo Miguel Santos

ACOLHIMENTO  *  APRESENTAÇÃO DE LIVRO  

 *

Apresentação do Livro A CASA DA MEMÓRIA De Maria Azenha
01 OUT 2024 – Terça-Feria às 18h30

 

Rua Coelho da Rocha, 16-18
Campo de Ourique
1250-088 Lisboa

Tel.: +351 213 913 270

Entrada livre, sujeita à lotação
Bilhetes disponíveis a partir das 17h30

 

*
Com Maria Azenha e apresentação de Risoleta C. Pinto Pedro
Leitura  de poemas por Denise Pereira
*

 

O NOME

Diz:

diz o nome

escolhe as sílabas
que não perturbem ninguém
indica as letras
com a sua marca de fogo

as rosas
de pétalas arrancadas

as cinzas oferecidas
em breve resumirão
essa rara existência

 

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▪ Yvette K. Centeno
( Portugal 🇵🇹 )

 

 

A ÁRVORE DO OUTONO

No Outono eu sou a árvore da casa
e começo a recolher-me, a guardar
as últimas tranças do sol. Um frio ligeiro
arranha o pouco que tenho, as noites
começam a ser mais longas e as pessoas
que amava vão-se embora. É mais difícil
o início.
a ideia da ausência, do meu corpo sem folhas,
do que a ausência viva que habitará o Inverno.

À minha frente, parada como eu, a árvore
da outra casa sofre a mesma agonia. E não falamos,
não aprendemos como se falam e abraçam,
as árvores no outono.

 

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▪ Teresa Agustín
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga

O FUNERAL

Na noite do funeral
eles abraçaram-me,
beijaram-me, mesmo esses
que habitualmente não beijam.
Apoiaram-me e perguntaram
se precisava de soporíferos,
estimulantes,
um xerez ou companhia para a noite.

Cada noite é um funeral
mas ninguém vem para me abraçar.
Ninguém pergunta como as coisas vão
se preciso de companhia para a noite,
um xerez, um soporífero.

Porque é apenas um dia como tantos
que morreu, e todos
temos que gerir isso o melhor que pudermos.

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▪ Margareta Ekström
(Suécia  🇸🇪 )

Mudado para português por João Luís Barreto Guimarães

Alegra-te comigo

Alegra-te comigo, celebremos a sorte
de partilhar este poema.
Toquemo-lo com o sol da meia-noite
e com a luz do meio-dia.
Com ele exorcizemos a água dos refúgios
por entre palavras fendidas.

À sombra dos dragões do céu
silenciemos a nossa imensa solidão.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )