A PAZ DAS COISAS SELVAGENS

Quando o desespero pelo mundo cresce em mim
e acordo a meio da noite com o mais pequeno som,
com medo do que possa vir a ser a minha vida e a vida dos meus filhos,
vou e deito-me onde o pato-marreco
repousa na sua beleza na água e a garça-real se alimenta.
Penetro na paz das coisas selvagens
que não sobrecarregam as suas vidas com a premeditação da tristeza. Entro na água parada.
e sinto por cima de mim as estrelas cegas durante o dia esperando com a sua luz. Durante algum tempo
descanso na graça do mundo e sou livre.

 
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▪ Wendell Berry
(U.S.A. 🇺🇲)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga

NINGUÉM MEU AMOR

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos

 

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▪ Sebastião Alba
( Portugal 🇵🇹 )

HÁ SEMPRE UM COMBOIO QUE PARTE

Há sempre um comboio que parte
de algures em qualquer parte do mundo

Há sempre um cais com gente
ansiosa da viagem para a parte incerta

Há sempre um futuro com destino
que a gente do cais não conhece

Dentro deste comboio louco
vou eu em viagem dentro de mim

No cais alguém fica à espera
de um comboio que já partiu

 

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▪ Henrique Risques Pereira
( Portugal 🇵🇹 )

 

CIDADE OCULTA

A cidade está oculta
Todo um rio de cimento
persegue as ruas

Porque agora as horas são mais sólidas
os homens abraçam-se com os filhos ao entardecer
A outra tarde é uma chuva num círculo
abraçando o fogo
Não há imagens
e o mistério deixa-se improvisar

Se houvesse uma mesa
por onde o pássaro gigante vomitasse o ruído
a noite decerto se mostraria
menos receosa

Mas o que se passa não é mais vida
nem pasmo fala-se
Vem uma máquina exterior
mastigar a voz

Depois as estradas numa infinita gravata
sufocam a paisagem guilhotina
de dois horizontes
Pausa para separar os dias do irremediável
A cidade segue oculta

Os dias deixam aquela baba peçonhenta
a roçar a cauda pelas sombras do musgo cortante

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▪ Fernando Lemos
( Portugal 🇵🇹 )

ANTES DO CLARÃO

Vestida de água, lavam-lhe o corpo,
mãos lentas, líquidas,
bordando segredos no silêncio da solidão.
O vestido, desmaiado na terra,
conversa com as pedras.
Uma pomba,num gesto de alheamento
entre flores brancas e amarelas,
pousa no chão.

O céu,sem tempo,espera
quieto.

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )

POEMA DO COMEÇO

Eu num camelo a atravessar o deserto com um ombro franjado de túmulos numa mão muito aberta

Eu num barco a remos a atravessar a janela da pirâmide com um copo esguio e azul coberto de escamas

Eu na praia um vento de agulhas com um Cavalo-Triângulo enterrado na areia

Eu na noite com um objecto estranho na algibeira – trago-te Brilhante-Estrela-Sem-Destino coberta de musgo

 

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▪ António Maria Lisboa
( Portugal 🇵🇹 )