░ MUDANÇA

À força de me mudar
aprendi a não encostar
os móveis às paredes,
a não pregar muito fundo,
a aparafusar apenas o necessário.
Aprendi a respeitar os rastos
dos antigos inquilinos:
um prego, uma moldura,
uma pequena poleia,
que ficou no seu lugar
embora me estorvem.
Há manchas que herdo
sem as limpar,
entro na nova casa
procurando entender,
mais do que isso,
vendo por onde haverei de me ir embora.
Deixo que a mudança
se dissolva como uma febre,
como uma crosta que cai,
não quero fazer barulho.
Porque os antigos inquilinos
nunca morrem.
Quando vamos embora,
quando deixamos outra vez
as paredes como as encontrámos,
fica sempre um prego deles
nalgum canto
ou um estrago
que não soubemos resolver.

 

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▪ Fabio Morábito
(Egipto, n. 1955 – Radicado no México)
in “Un Naufrago Jamas Se Seca”, Ediciones Gog y Magog, Buenos Aires, 2011
Mudado para português por – Vasco Gato (Poeta e tradutor)

░ O futuro? Tem orelhas

O futuro? Tem orelhas,
mas é surdo. E é manco.
Se arrasta, sem espanto
mais alheio do que lúcido
com o nosso despreparo.

Se fosse um deus amava o humano, mas como não existe
o futuro tem de amansar seus ventos, marcando as peles,
as montanhas. Sendo um gênio, não é um exército
de cronogramas, nem de antecipações.

Tem firmeza de flor. E é
invisível, reconhecido
por seus efeitos de brisa
furacão. Nunca adiado.

Não tem nada a ensinar
no entanto é um mestre
dizem os esgrimistas
os observadores de saltos
os gatos também
aprendem certos truques com ele.

E se ama os despreparados
lhe sabem tanto os que fazem
quanto os que esperam.
Os otimistas valem mais
valem quanto?
Cem bifurcações,
sucessivas gerações
de bem-aventurados
que topam em pedras
cicatrizam e correm
bem alimentados
com fome de mais
alimento.

São seus sinais
os imprevistos, os cavalos
os pontos cardeais
os cinco sentidos
e os sete buracos da cabeça.

 

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▪ Júlia de Carvalho Hansen
(São Paulo BR, n. 1984)
in “Seiva veneno ou fruto”, Editora Chão da Feira, Brasil, 2016

VII

Apparteniamo a una generazione senza giochi da prendere sul serio
i nonni sono morti. ci hanno rinchiuso per sempre in libri
dal cuore delle poesie hanno estratto petrolio,
hanno fatto delle barche una metafora che acceca gli occhi.

silenziosi e frattali gli orologi di assenti banchine
circolano senza grida nelle metropoli

non c’è chi ci faccia credere in bambole di pezza
né in trapezisti di legno da sognare

siamo diventati tutti così vecchi

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “De Amor Ardem os Bosques”, pág. 62, Edição de Autor, Lisboa, 2010

Tradução – Daniela Di Pasquale, tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.

 



PORTUGUÊS

 

VII

Pertencemos a uma geração sem brinquedos a sério.
os avós morreram. fecharam-nos para sempre em livros
do coração dos poemas extraíram petróleo,
fizeram dos barcos uma metáfora para cegar os olhos.

silenciosos e fractais os relógios de ausentes cais
circulam sem gritos nas metrópoles

não há quem nos faça acreditar em bonecas de trapos
nem em trapezistas de madeira para sonhar

ficámos todos tão velhos

 
 
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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “De Amor Ardem os Bosques”, pág. 62, Edição de Autor, Lisboa, 2010

 

░ as velhas novembram

as velhas novembram
de outubro a dezembro
em fainas novenas
varejam os ramos com
membros canhestros
erguem-se às hastes à
cata do fruto à flor da
ramagem sacodem-na
pra panos cerzidos
desde dezembro anterior
nos janeiros da apanha
colocam-nos ao chão
no plinto das árvores
os panos ao ombro as
talhas de azeite medas
de feno ou serapilheira
as velhas janeiram quais
espantalhos siderados
em pássaros moveres.

 

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▪ Miguel Alexandre Marquez
(Lisboa, n. 1979)
in “Coda”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2016

░ Algumas questões que podemos colocar

A alma é sólida, como o ferro?
Ou delicada e frágil, como
as asas de uma mariposa no bico do mocho?
Quem tem alma e quem não tem?
Continuo a olhar em meu redor.
A face do alce é tão triste
como a de Jesus.
O cisne abre com lentidão as asas brancas.
No outono, o urso negro leva folhas para a escuridão.
Uma pergunta leva a outra.
Tem forma? Como um icebergue?
Como o olho de um colibri?
Tem um só pulmão, como a serpente e a vieira?
Por que razão tenho eu alma e o papa-formigas
que adora as crias não tem?
Por que razão tenho eu e o camelo não?
Pensando bem, e os áceres?
E os lírios azuis?
As pedras pequenas, sozinhas ao luar?
As rosas, limões e as suas folhas brilhantes?
E a erva?

 

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▪ Mary Oliver
(EUA, n. 1935)
in “A thousand mornings”, Penguin, Nova York, 2012
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, tradutor e  matemático)

░ NINGUÉM

 

para Donaldo Mello

 

Não há princípio nem fim
na eterna diáspora
dos astros
tresloucados
deslocando-se
aos confins
do universo
em expansão.

O tempo não existe
para as estrelas
mas elas fenecem
e, de vê-las, fico triste.

Sem sombra e destino, também vagarei.
Hei de seguir o mesmo curso de ninguém.

 

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▪ Antonio Miranda
(Maranhão BR, n. 1940)
Poema inédito publicado com autorização prévia do autor.

░ A FALA DAS COISAS

Desde toda vida
descompreendi inteligentemente
o xadrez, o baralho,
os bordados nas toalhas de mesa.
O que é isto? eu dizia
como quem se ajeita pra melhor fruir.
Fruir o quê? Eu sei. A mensagem secreta,
o inefável sentido de existir.
Tia Clotilde está desesperada:
‘para a minha família Deus não olha’.
Meu amor, quando tira o dia pra chorar,
não quer saber de mim, até que fala:
‘abri a porta da rua, achei três bilhas azuis,
como recado da alegria’.
É sonho, eu sei,
mas nesse dia ele não chora mais.
Se a senhora quiser, depois do almoço,
vamos no ribeirão buscar argila,
areia fina pra arear as panelas.
Olha o céu que se estende sobre nós,
seu manto cor de anil,
sua capa de veludo negro
cravejado de estrelas.
A flor-de-maio, a cravina,
viçam na terra estercada
sobre Totônio bebe,
Válter não para no emprego,
Noêmia quer casar mas não tem sorte.
Tua dor de cabeça tem origem psíquica;
tantos com à mão,
nenhum para o esquecido calor de entre as pernas,
ai, papai, me deixa namorar,
tem duas borboletas voando agarradinhas!
Meu corpo de velha quer salmodiar.
Quer ter um menino e tece,
faz tachos de doce e borda,
tapa com buchas de pano
as frestas da janela e canta
em meio de tanta dor.
Tendo orvalhado tudo,
a madrugada orvalhou a pimenteira,
cuja flor estremeces, ó minha pobre tia.
Deus mastiga com dor a nossa carne dura,
mas nem por chorar estamos abandonados.
A água do regador alçado sobre as couves
alvoroça os insectos.
A larva na hortaliça nos distrai.
Não inventamos nada.
O ponto de cruz é iluminação do Espirito;
o rei, a dama, o valete, são sérios
farandoleiros.
Se nos mastiga com dor,
é por amor que nos come.
Vamos rezar as mantinhas.

 

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▪ Adélia Prado
(Minas Gerais BR, n. 1935)
in “Poesia Reunida”, Editora Record, Rio de Janeiro, 2015

░ Las puertas no ajustan

Las malas hierbas sospechan que has dejado la casa,
los geranios lo saben,
y la sal, que no es pura, absorbe la tristeza.
El delator cloruro de magnesio
intuye tiempo de tormenta
y se apelmaza.
Siento humedad en los nudillos de los dedos,
las lágrimas han desplazado unos milímetros las jambas
y las puertas no ajustan.
Pero oculto a la madera que ha sido cortada,
no quiero despertarla, todavía crece.
Tal vez la meza,
tal vez la arrulle
con la nana antigua de las olas.

 

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▪ Elena Soto
(n. Ponferrada, Espanha)
in “Invierno sin corazón” (Kernlose winter), Ediciones Torremozas, Madrid, 2015

░ BIPOLAR

IJuxta crucem, garganteando
altíssimo um flamenco atrevido
– eis como gosto às vezes de estar.

Outras vezes, contudo, baixo a voz
como um cão amedrontado refugia
por precaução a cauda entre as pernas,
seu modo de agitar uma bandeira branca
– e não murmuro senão sílabas contritas.

Branco e negro alternados,
honestos por igual.

 

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▪ A. M. Pires Cabral
(Macedo de Cavaleiros, n. 1941)
in “Cobra-D’ Água”, Edições Cotovia, Ldª., Lisboa, 2011