Il Pietrisco Translations 2024
Edinburgh, U.K
Mirrors, Landscapes, Battles 21st-century Poetry by Women edited by Monica Boria and Ángeles Carreres
Maria Azenha traduzida do português para inglês por Lesley Saunders
Il Pietrisco Translations 2024
Edinburgh, U.K
Mirrors, Landscapes, Battles 21st-century Poetry by Women edited by Monica Boria and Ángeles Carreres
Maria Azenha traduzida do português para inglês por Lesley Saunders
IL PIETRISCO TRANSLATIONS
Mirrors, Landscapes, Battles
21st
– century Poetry by Women –
edited by
Monica Boria and Ángeles Carreres
*
— »» Mirrors, Landscapes, Battles. 21-Century Poetry by Women
MARIA AZENHA
translated by Lesley Saunders p. 16
Encontrei, de noite, na paragem de um autocarro,
Perdido de pai e mãe, um menino. Como te
Chamas? Literatura. Nome estranho para um
Masculino. Trazia como este nos olhos um susto
Verdadeiro velado por uma ousada fantasia. Via-se
Que a realidade lhe causava muito incómodo. Por exemplo,
Ser noite, estar só, pagar bilhete, ter de saber a direcção,
Sentir fome, estar frio, respirar tubo de escape. Dei-lhe
Minha mão e, através do veneno das trevas, para não o
Perturbar, trouxe-o para viver comigo. Seu nome
Pouco me dizia, mas por seu olhar daria
A própria escrita.
__
Eu não sabia, não, quando cantavas
– talvez em Abril, no quarto azul –
que eras tu mãe, e que eu era o filho.
Escutavam-te as montanhas e as planícies,
as andorinhas apaziguadas nas goteiras
e eu encantado na almofada branca.
No teu canto abriam-se as esperas
do confuso presente, as tristezas
de todos os improváveis futuros.
Compreendi então que eras a companheira
de uma viagem de agruras, de tormentos,
para lá das paredes e das portas.
Por muitas estações esse engano
dentro de mim criei e fingi-me aquele
que na noite anda à frente.
Esta noite dizes com voz de pranto.
– sobe no céu a Lua de Agosto –
que andaste sozinha pelas ruas escuras.
_
▪ Elio de Pecora
( Itália 🇮🇹 )
Mudado para português por Simonetta Neto
Mãe,
acho que vou fazer uma visita ao Inferno.
Não importa que seja muito longe.
Partirei de manhã como se estivesse a sair para o trabalho,
voltarei à noite como se tivesse saído do trabalho.
Não te esqueças das refeições, mastiga bem os alimentos antes de engolir,
certifica-te que desligas o gás quando saíres
e não te preocupes comigo.
O inferno deve ser um lugar onde vivem pessoas.
Se eu for para o Inferno para ganhar a vida
poderei finalmente tornar-me uma pessoa.
_
▪ Jeong Ho-Seung
( Coreia do Sul 🇰🇷)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga
Cruzar-lhe os braços sobre o peito – assim.
Endireita-lhe um pouco mais as pernas – assim.
E chamar o carro para que a leve a casa.
A mãe dela há de chorar, e também as irmãs e os
irmãos.
Mas os outros salvaram-se todos: foi ela a única
rapariga da fábrica que não teve sorte ao saltar cá
p’ra baixo quando o fogo irrompeu:
Andou aqui a mão de Deus – e a falta de uma saída
de emergência.
__
▪ Carl Sandburg
(Estados Unidos 🇺🇸)
Mudado para português por Alexandre O’Neill
Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradaram.
Não pedia mais.
Saí então para deixar o lixo no corredor
e atrás de mim, com a corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
ouvindo as vozes dos meus vizinhos
através das portas.
É transitório, disse a mim mesmo;
assim também pudesse ser a morte;
um corredor escuro,
uma porta fechada à chave por dentro
e na mão o lixo.
_
▪ Fabián Casas
( Argentina 🇦🇷 )
Mudado para português por Hugo Miguel Santos
*
Rua Coelho da Rocha, 16-18
Campo de Ourique
1250-088 Lisboa
Tel.: +351 213 913 270
Diz:
diz o nome
escolhe as sílabas
que não perturbem ninguém
indica as letras
com a sua marca de fogo
as rosas
de pétalas arrancadas
as cinzas oferecidas
em breve resumirão
essa rara existência
__
Deverá estar ligado para publicar um comentário.