III (Grande Hotel de Paris)

A morte, claro. Existem porém
dias grandes, irredutíveis a versos,
em que a indecisão da luz
nos açoita de felicidade.

São dias raros, futuras
imagens do nada, o suficiente
para que a palavra amor substitua
o primeiro cigarro da manhã.

Chegámos tarde. O quarto 203
trazia-me de novo o teu corpo.
E até a música dos sinos
vinha deitar-se connosco.

 

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▪ Manuel de Freitas
( Portugal 🇵🇹 )
in “A Flor dos Terramotos”, Edições Averno, Lisboa, 2005

O PÃO DE CENTEIO DE OSCAR WILDE

No cárcere de Reading, Oscar Wilde
escreveu na memória o pássaro
A memória é uma oficina de ossos,
com as asas quebradas
os olhos com furos de pistola
as vísceras dobradas no canto da gaveta
os pés amputados pela navalha
da guilhotina.

Na prisão, havia túmulos de horror onde nasceram flores de pelúcia.
Havia sangue pisado debaixo da língua, líquidos e
lágrimas nos arrepios da morte.

Aos domingos, atrás das grades,
nas refeições matinais,
o pão de centeio trazia o verso do perdão.
Oscar Wilde lambia os farelos caídos sobre o chão
com sua língua de fogo.

Na cela, ao sangrar a fome na garganta,
o coração de pedra escreveu as leis eternas
da humanidade
num caderno de vidro
sobre os homens que choram
sobre os homens que matam o que amam.

 

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▪ Mírian Freitas
( Brasil 🇧🇷 )

 

Gazela da morte sombria

Quero dormir como dormem as maçãs,
fugir do tumulto dos cemitérios.
Quero dormir como dorme aquele moço
que queria cortar o coração no alto mar.

Não quero que me repitam que os mortos não perdem sangue,
que a boca apodrecida continua a pedir água.
Não quero conhecer os suplícios que vêm da erva
nem da luz com boca de serpente
que trabalha antes do amanhecer.

Federico García Lorca
Mudado para Português por Eugénio de Andrade

MEU FILHO

Que sou livre, dizem-me.
Porém se quisesse ter outro filho
teria de o levar ao banco da esquina
porque sua é a minha casa.
O meu menino chamaria pai ao gerente
e mãe à caixa
aprenderia a andar com uma cadeira
de rodinhas de escritório
dormiria numa gaveta dos arquivos
e eu seria apenas um parente afastado
que lhe sorriria do meu lugar na fila.
Passaria por lá de vez em quando com a desculpa de aumentar a hipoteca
só para ver como o criam
como o ar condicionado o afecta
se sabe enviar um fax
e se o gerente lhe oferece um jogo de frigideiras
pelo seu aniversário.

 

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▪ Ana Pérez Cañamares
( Espanha 🇪🇸
Mudado para português por _ LF Parrado

Um livro cheio de imagens

O meu pai estudava teologia por correspondência
E era a época de exames.
A minha mãe fazia renda. Eu sentava-me sossegado com um livro
Cheio de imagens. Caiu a noite.
As minhas mãos ficaram frias de tocar as caras
De reis e rainhas mortos.

Havia uma gabardine negra
[no quarto de cima
A balouçar no tecto,
Mas o que faria ali?
As grandes agulhas da mãe cruzavam-se velozmente.
Eram negras
Como o interior da minha cabeça nessa altura.

As páginas que virava faziam um som de asas.
“A alma é um pássaro”, disse ele uma vez.
No meu livro cheio de imagens
Uma batalha fervilhava: lanças e espadas
Pareciam uma floresta no inverno
Com o meu coração cravado e sangrando nos ramos.

 

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▪ Charles Simic
(Sérvia 🇷🇸)
Mudado para português por António Ladeira

CONTRALUZ

A luz do fundo imprime o seu perfil
com a nitidez de um acordar em Setembro,
sentindo o ar frio do outono contra
as faces rosadas. No entanto, é como se
tivesse mil anos na sua alma, mil…
gavetas de recordações que não quer
abrir, deixando para outros o trabalho
de descobrirem, num ou noutro papel,
os apontamentos de um tempo em que
foi livre. Agora, deixa para trás de si
o dia, o brilho da manhã, o voo dos
enxames que abandonam o continente,
e que desejaria seguir para onde não
tivesse de voltar. Ficará fechada
na moldura de uma obscura sala, e
lentamente a madeira que a prende ir-se-á
desfazendo. Ela, no entanto, não perde
a altivez, e entrega-se à eternidade efémera
de quem a vê para logo a esquecer.

 

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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )
in “O Fruto da Gramática”, D. Quixote, Lisboa, Setembro, 2014