O MUNDO ESTÁ MAL

O mundo está mal,
não estou exagerando: doente!
Leio notícias de violência
em todos os lugares há mau comportamento,
falta o sorriso da minha mãe,
as pessoas ao seu redor estão sempre
melhores
e agradecidas.
Precisamos consertar
como só minha avó sabia fazer,
reconstruir (seu avô seria um mestre)
pedra por pedra

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▪ Mariangela Mônaco
( Itália 🇮🇹 )

 

LOGO QUE TE DEIXO

Logo que te deixo
há um rio que corre ao teu lado veemente
e da outra margem
os diabos com as suas lanternas
falam da infância submersa
no além.

Daqui até à linha do horizonte
as marés embalam maternalmente os mortos
e o seu canto
arrasta as góticas catedrais até ao mar
onde flutuam e vão
com cornos de ouro
e hélices que espadanam mil diamantes.

Por toda a parte há sonhos
a empurrar outros sonhos
para o abismo.

A magia do espelho quebrado
é uma longuíssima viagem
sem regresso.

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▪ Cruzeiro Seixas
( Portugal 🇵🇹 )

PRÉMIO

Em 72 recebi
o prémio literário
dos pensos rápidos Band-Aid
o prémio foi uma bicicleta
às vezes penso
que me deram uma bicicleta
para eu cair
e ter de comprar pensos
rápidos
Band-Aid
é o que penso dos prémios literários
em geral

 

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▪ Adília Lopes
(Portugal 🇵🇹)
in “Clube da Poetisa Morta”, Black Sun Editores, Lisboa, 1997

AMOR

Algum dia eu haveria de entrar na normalidade dos que te amam. Amo-te. E dói escrevê-lo (que é pior, meu amor, do que dizê-lo). Amo-te, absoluta, impossível e fatalmente. E ouço, adolescente, uma música adolescente, para me lembrar de ti, porque lembrar-me de ti é lembrar-me que não consigo esquecer-te. E ouço música porque ouvimos música quando amamos, e tudo, no amor, é música, acústica da alma que se quer ser devorada, e, neste caso, dor (tão deliciosamente insuportável) de amar sem sequência nem expectativa de contrapartida, amar unicamente o puro objecto que desgraçadamente amamos. Isto é uma carta de amor, e é possivelmente ridícula (prova maior de que é, realmente uma carta de amor), ou porque perdi o hábito de as escrever, ou porque nunca tive a coragem de as enviar.

Não percebes porque é que não te falo? Ainda não percebes que, na personagem que de mim eu enceno, não cabe a ameaça de uma derrota, a antecipação do desencanto, a sombra de um vexame? Não te falo, para não saber que o que eu te digo é apenas a forma contida de te dizer outra coisa, mas que essa coisa não é do teu mundo, nem do mundo que eu construí, nem do precário mundo que a nossa fragilíssima ternura mútua arquitectou. E tudo isto é literário, eu sei, mas – que queres? -, a literatura é o melhor de mim e é o melhor de mim que vive dentro da minha cabeça quando estou contigo.

E depois, afastamo-nos. Beijo-te a correr, não sei se já reparaste, e quase fujo, porque sair do pé de ti é regressar ao que não és tu, o teu olhar e as tuas mãos, a tua alma e a tua voz, e isso, meu amor, transformou-se no insuportável intervalo entre dois encontros.

Esta carta de amor é um excesso (e isso prova superiormente que é uma carta de amor): eu amo não a ideia de amar-te (durante muito tempo, eu julguei que era apenas isso), mas a ideia de perder-me no meu amor por ti. E mesmo amar-te é um excesso, porque tudo aconselharia que eu me limitasse a mitificar-te, que é a melhor forma de evitarmos enfrentar a realidade.

Porque a realidade, aqui, é como uma dor difusa, tu sabes como é, um incómodo ainda não localizado, que progressivamente se vai definindo e acertando, até que, insuportavelmente nítida, a sua imagem se nos impõe como uma evidência. A minha dor é que eu comecei a amar-te, sem o saber, durante aquele breve período de tempo em que sair de casa era a promessa reconfortante de ver-te e falar contigo. Eu não sabia, repito, mas o tempo ajudou-me a definir essa pequena dor, tão secretamente pavorosa: cada vez que estou contigo (cada vez mais, meu amor, cada vez mais) é como se a minha vida se virasse do avesso. E é verdade, é cada vez mais verdade, que, quando penso nas coisas que ainda me falta fazer na vida, é em ti que penso. E tenho medo, como um animal que instintivamente foge do que sabe não poder atingir.

Eu penso em ti, ainda mais do que te digo, e tu estás em tudo, mesmo quando não te penso, tu és a grande razão, o horizonte sem nome que constantemente se desenha na minha imaginação de mim.

Há uns anos, este seria o momento de desmontar o discurso desta carta, de te mostrar os subtis mecanismos da alma e da máscara, de desdizer ironicamente o que já disse, de insinuar que, afinal, as-coisas-talvez-não-sejam-exactamente-assim. Mas as coisas são exactamente assim, e a carta, que poderia transformar-se num confortável exercício paródico, é, inevitavelmente, uma agonia e um embaraço. Esta carta é um acto de puro egoísmo, que eu até talvez nem tivesse o direito de praticar. É-te incómoda, necessariamente, e isso bastaria para que eu me abstivesse de a enviar, dentro de um envelope azul. Mas o azul fica-te tão bem, e as cores todas ficam em ti como tu ficas no mundo: exactamente.

Mas, repito: esta carta é um acto de puro egoísmo, é como se não tivesse destinatário. E, no entanto, é preciso enviá-la, para que seja uma carta de amor, para que faça sentido como carta. Para que seja amor. Mas podemos imaginar uma saída elegante: para que possas conservá-la como pura carta de amor, quero eu dizer, sem o embaraço de saberes que ela te foi escrita por alguém que não amas, não a assino. Dou-te tudo: até a hipótese de esta carta não ter sido escrita por mim.

(E não, esta carta não pode ter sido escrita por mim. És tu – em mim – que me faz escrever o que eu não escrevo. E isso é – de novo – o melhor de mim.)

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▪ António Mega Ferreira
( Portugal 🇵🇹 )
in “Amor”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002

CHEGADA

Parece que passo metade da vida a chegar a
hotéis desconhecidos –
E a perguntar se me posso ir já deitar.
E não se importa de encher a minha botija de água quente
Obrigada, assim está perfeito.
Não, não vou precisar de mais nada –
A porta desconhecida fecha-se sobre aquele desconhecido
E enfio-me depois entre os lençóis
À espera de que as sombras saiam dos recantos
E teçam uma longa, longa teia
Sobre o papel de parede mais feio de todos.

 

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▪ Katherine Mansfield
(Nova Zelândia 🇳🇿 )
Mudado para português por Inês Dias

Convite para o Kremlin (Inverno de 1405)

O ícone da Virgem de Vladimir
fixou-me nos olhos e disse:

“Procura-me no muro onde a tarde estende
a sua plumagem.

Estou atrás dos pendões de cauda
de cavalo,

por baixo das folhas e
dos frutos.

Procura-me no ar, nas
cinzas.

Estou sobre a ponte de
todos os rios,

sobre a pegada dos
lobos.

Procura-me no arco onde
o sangue se desata.

Estou sob a asa da
noite».

 

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▪ Diego Roel
( Argentina 🇦🇷 )
Mudado para português por Soledade Santos

TIVE UMA MÃE

Tive uma mãe,
viva e ardente,
sempre ausente com uma mente
incapaz de viver.
Poderia ter sido ela? Nunca dormi ao colo dela.
Era uma ave
migratória
com asas cortadas.
Portanto, não tenho piedade de mim mesma
e não tenho nada que me abrace por dentro.

 

 

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▪ Anna Maria Carpi
( Itália 🇮🇹 )