UM HOMEM

Um homem
tinha sempre vontade
de irromper pelo palco
durante uma representação teatral
e fazer algo indecente.

Esse homem foi consultar
um psicólogo.
O psicólogo tinha um passatempo:
coleccionava moscas
e cabides roubados
em centros comerciais.

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▪ Jan Kaus
( Estónia 🇪🇪 )
Mudado para português por Vasco Gato

VOZES NA CIDADE

(…)

todos têm uma voz
alta, baixa, aguda, grave
rouca, intensa, suave

todos têm uma voz
só que muitos não a usam
com medo de tudo e todos

e assim deixam que outra
que não sua mas de outro
tome então o seu lugar

e saem por aí dizendo coisas
que na real não acreditam
mas que não tem força de evitar

(…)

_

▪ Timo Berger
(Brasil 🇧🇷 )

 


Gravação de vozes por Maria Azenha

O TAL PRAZER DA ESCRITA

A escrita é muitas coisas mas é também uma forma de salvação: ela descobre, ela acicata a memória, fecha-nos às aflições do momento, mergulhando-nos num universo prodigioso, escudado e inacessível às turbulências exteriores.

E cura-nos, pela alegria que nos dá o encontrar as palavras certas para exprimir o inefável.

A escrita é a melhor arma de defesa e de ataque de que dispomos. Nenhuma nos defende tão bem de uma ferida ou faz, nos outros, uma ferida tão perene.

A escrita foi inventada por alguém que precisava muito dela, para registar informações. Assim, começou por ser útil e passou a ser agonicamente necessária.

Escrevo, logo existo.
Mas também: escrevo, logo não sofro.

Quando escrevo, falo de um sofrimento que já foi, mas que deixa de o ser, no momento em que o escrevo. A funda alegria de o escrever mata o sofrimento que já se sentiu, mas se apaga ante o fulgor da escrita.

Como dizia Montherlant, o escritor é aquele ser peculiar, que sofre, não sofrendo.

O Camões que escreveu o “Alma minha” não sentia, no momento em que a invocava, saudades da morta, sua amada. O que ele sentia, no momento da escrita, era a alegria de escrever uma saudade, que sentira, antes de a escrever, mas que não podia sentir, no momento em que a escrevia.

O escritor é um monstro que mata, sem escrúpulos, no momento de o celebrar, o mais profundo sentimento que antes o afligira, para melhor o poder glosar, com os utensílios da sua arte.

A alegria de escrever, o tal prazer da escrita tem muito de inumano.

O grande escritor é, na sociedade em que vive, um suspeito a vigiar, porque pode ser perigoso. Por isso, o escritor Tonio Kröger, da famosa novela de Thomas Mann, ao regressar um dia, na tarde da sua vida, coberto de glória, à sua terra natal, torna-se suspeito, aos olhos da polícia local, que o toma por um malfeitor…

Não nos esqueçamos de que o grande William Faulkner declarou um dia que seria capaz de matar meia dúzia de velhinhas, se isso lhe permitisse escrever a belíssima ODE A UMA URNA GREGA, do poeta John Keats.

Um poeta é capaz de tudo, mesmo de vender a alma ao diabo, para acertar um verso ou colocar uma vírgula no lugar certo.

Quem não compreende isto não compreende nada deste ofício nem dos seus oficiantes.

 

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▪ Eugénio Lisboa
( Portugal 🇵🇹 )

E EXISTE MESMO UM CIRCO NO CÉU?

E existe mesmo um circo no céu?
Mamãe diz que sim.
Papai ri, teve más experiências com Deus.
Se Deus fosse Deus, desceria para nos ajudar, diz.
Mas por que ele deveria descer se, afinal de contas, nós viajaremos até ele mais tarde?
Seja como for, os homens acreditam menos em Deus do que as mulheres e as crianças, por causa da concorrência. Meu pai não quer que Deus também seja meu pai.

 


▪ Aglaja Veteranyi
( Roménia 🇹🇩 )

Mudado para português do brasil por  Fabiana Macchi

SOU TÃO VELHA

Sou tão velha que meus amantes já são nomes de ruas
Sou tão velha que minhas vontades já estão nuas
Sou tão velha que minhas verdades já são as suas.
Eu sou do tempo em que se fumava no cinema.
Sou tão velha que minha voz agora é boa para ler um poema.

Sou livre:
Posso fazer o que quiser que ninguém liga.

Parte de mim
Mora numa foto antiga.

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▪ Greta Benitez
(Brasil 🇧🇷 )
in “Canção Antiqüe”, Patuá, 2013

O MONGE

O monge espalhava nos claustros sementes à espera dos pardais.
Disse-me que, até a rezar muito antes de nascer o sol, metia no peito o gozo das magnólias à vista dos pássaros que aparecem às primeiras luzes. E que até o chão parecia ter bocados de música. E era por isso que gostava do silêncio. Encontrava lá a fieira das palavras.

Também, se dava conta do vento fino entre as outras plantas, dizia:
fala baixo; as palavras querem-se pequenas, música de passarinhos.

 

▪ Daniel Faria
( Portugal 🇵🇹 )
in “Quasi Edições, 2003”

Nostalgia

o tempo
descansa dos seus crimes
preso à sombra fiel
desta memória
o amor
como um obediente
braço quebrado
reclama
o derramado vermelho
dum céu vencido
e os gritos
outrora assassinados
são agora palavras recusadas
suspensas nos lábios de pedra
desta aldeia tão remota
como tu

 

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▪ Gil T. Sousa
( Portugal 🇵🇹 )
in “água forte”, A Cadeira de Van Gogh – Associação Cultural, Editora Medita (Brasil), 2014

Não me mostres nenhum norte

Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinha rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.

 

 

▪ A. M. Pires Cabral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Cobra-D’ Água”, Edições Cotovia, Ldª., Lisboa, 2011

Breves notas sobre literatura-Bloom

ACUMULAR-  Não se devem acumular informações ou episódios narrativos. O que se acumula são perplexidades.
A literatura exige especialistas em mistérios.Mas não mistérios de detectives, com um fim determinado: o assassino é descoberto. Trata-se (na literatura) de um especialista que estuda o mistério, aumentando-o. Estudar o mistério é aumentar o mistério, não é diminuí-lo. De certa maneira, a análise literária-Bloom é também isto: não diminuir as perplexidades, aumentá-las.
No final de um texto-Bloom, ou mesmo no final de uma frase- Bloom, o leitor deve não-saber mais factos do que não-sabia antes.
Este, porém, não é um método para aumentar a ignorância, mas um método para aumentar a curiosidade.
Acumular é,pois,diminuir,tornar mais raro.

 

▪ Gonçalo M. Tavares
( Portugal 🇵🇹 )
In “ Breves Notas sobre Literatura-Bloom”