MORDISCA-ME OS LÁBIOS

Mordisca-me os lábios
cão pássaro rapaz
(não quero que te vás embora
e sei que vais ter de te ir embora)
quero dormir contigo
com a tua mão
sobre o meu coração
para que saibas
os meus segredos
beliscas-me ao de leve
eu sei que não é um sonho
mas é como um sonho
para mim

 

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▪ Adília Lopes
( Portugal 🇵🇹 )
in “Dobra” (Poesia Reunida 1983 – 2007)

EIS TUDO QUANTO ME RESTA, ESTE DESEJO

Eis tudo quanto me resta, este desejo:
Que, no aconchego da noite,
Me deixem morrer
E serenamente dormir
O mais próximo possível de um bosque.
Desejaria para os meus pés,
Sob um claro céu deitado,
A imensa praia do mar.
Não exijo cortejo fúnebre
Nem um sumptuoso ataúde,
Que alguém me construa um leito,
Um leito de arbustos me basta.

Nada de lágrimas sobre o meu túmulo,
Que apenas alguém escute,
Na voz do outono e do vento,
O vagaroso rumor das folhas a cair.
Pelo murmúrio das fontes,
Passam a dulcíssima lua,
De cume em cume, resvaladiça
Por sobre os abetos,
E, agravado pelo estribilho
De chocalhos ao longe,
O frio vento da noite.
Que um amante da flor da tília
Se debruce sobre o meu leito.
Nunca serei um exilado
Para o futuro.
E carinhosamente, as reminiscências
Poderão vir a ocultar-me
De todo o ócio.
Protegidas pelos negros abetos,
As estrelas da tarde
Voltarão a sorrir-me.
E as paixões poderão bramir
No ávido suspiro do mar.
Solitário, serei terra,
Terra restituída à terra.

 


▪ Mihai Eminescu
( Roménia 🇹🇩 )
in “Transversões, Poemas Reescrito Para Português”, por Zetho Cunha Gonçalves
Editora Contracapa, 2021

O QUARTO DO PSICANALISTA

O quarto do psicanalista
alberga o retrato ausente do pai
e a escolha de vinte e cinco anos da mãe;
No divã cai a dor de existir
cortando, de bisturi, o traço
fisionómico da loucura
repetindo-se consecutivamente
na tragédia da genética.
Os móveis de mogno pesado
pisam o chão que desaba
debaixo dos pés de Freud
e Freud, o chão do psicanalista,
desabando na impaciência da normalidade.
A dor só tem olhos para a vista da rua
e a sua sociedade mais forte
perante a catástrofe:
Lisboa desabando como em 1755
e nos manicómios salvando-se apenas
os diagnósticos dos cadáveres.
Todas essas folhas sem dono
são como o legado de um poeta.
“Jorge Reis, desempregado, esquizofrénico;
Maria Isabel Santos, prostituta, toxicodependente;
Ventura Casimiro, sapateiro, bipolar I;
Liliana, estudante, desgosto de amor”.
No chão ficou a voz una dos desgraçados,
o pé descalço do fetichista,
a fotografia do incendiário,
o anel de ouro comprado antes do divórcio;
Ficou a carta de Adriano e nela
o apocalipse, o nascimento de Roma
e uma ida a Marte
(Amar-te, Amar-te, Amar-te).

 


▪ Lígia Reyes
( Portugal 🇵🇹 )

OS MEUS MESTRES

 

Os meus mestres não são infalíveis.
Não se trata de Goethe, que só conseguia
adormecer quando ao longe
gemiam os vulcões, nem de Horácio,
que escrevia na língua dos deuses
e dos sacerdotes. Os meus mestres
pedem-me conselhos. Vestindo macios
sobretudos deitados velozmente
por cima dos sonhos, ao romper dia, quando o vento
fresco interroga os pássaros, os meus
mestres falam por sussurros.
Consigo ouvir a sua voz trêmula. 

 

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▪ Adam Zagajewski
( Polónia 🇵🇱 )
in “Sombras de sombras”, Tinta da China
Mudado para português por  Marco Bruno

Justiça

Não importa do que estávamos falando,
perdidos no emaranhado sem saber aonde
escorar a cabeça, quando não na Espanha,
ou no nosso quintal envilecido, sobre o mapa
da África, ou no coração da Europa,
diante dos campos.

Éramos vários sentados à mesa
cuspindo argumentos;
era mais que uma cena do Dogma
como um cínico podia vê-la
à distância; porém não era um filme,
era um encontro de amigos em Caracas.

Impossível acalmar os ânimos.

Tão reais como abertas
as feridas
era o desejo de justiça.

 

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▪ Yolanda Pantin
(Venezuela 🇻🇪)
Mudado para português por  Gustavo Petter 



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

Justicia

 

No importa de qué estábamos hablando,
perdidos en marañas sin saber en dónde
sentar la cabeza, cuando no en España,
o en nuestro patio envilecido, sobre el mapa
de África, o en el corazón de Europa,
ante los campos.

Éramos varios sentados a la mesa
desgranando argumentos;
era más que una escena de Dogma
como un cínico podría verla
con distancia; pero no era una película,
era un encuentro de amigos en Caracas.

Imposible calmar los ánimos.

Tan reales como abiertas
las heridas,
era el deseo de justicia.

 

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▪ Yolanda Pantin

 

OS POEMAS MAIS BELOS

Os poemas mais belos
escrevem-se sobre pedras
com os joelhos em chagas
e as mentes aguçadas pelo mistério.
Os poemas mais belos escrevem-se
diante de um altar vazio,
rodeados de agentes
da loucura divina.
Assim, doido e criminoso como és,
ditas versos à humanidade,
os versos do resgate
e as profecias bíblicas
e és irmão de Jonas.
Mas sobre a Terra Prometida
onde germinam os pomos de ouro
e a árvore do conhecimento
Deus nunca desceu nem te amaldiçoou.
Mas tu sim, amaldiçoas
hora a hora o teu canto
porque desceste ao limbo,
onde inalas o absinto
de uma sobrevivência negada.

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▪ Alda Merini
( Itália 🇮🇹 )
Mudado para português por Clara Rowland

A SOCIEDADE PRECISA DE MEDÍOCRES

“A sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais e eles aí estão: dirigem os países, as grandes empresas, os ministérios, etc. Eu oiço-os falar e pasmo não haver praticamente um único líder que não seja pateta, um único discurso que não seja um rol de lugares comuns. Mas os que giram em torno deles não são melhores. Desconhecemos até os nossos grandes homens: quem leu Camões por exemplo? Quase ninguém. Quem sabe alguma coisa sobre Afonso de Albuquerque? Mas todos os dias há paleios cretinos acerca de futebol em quase todos os canais. Porque não é perigoso. Porque tranquiliza.
Os programas de televisão são quase sempre miseráveis mas é vital que sejam miseráveis. E queremos que as nossas crianças se tornem adultos miseráveis também, o que para as pessoas em geral significa responsáveis. Reparem, por exemplo, em Churchill. Quando tudo estava normal, pacífico, calmo, não o queriam como governante. Nas situações extremas, quando era necessário um homem corajoso, lúcido, clarividente, imaginativo, iam a correr buscá-lo. Os homens excepcionais servem apenas para situações excepcionais, pois são os únicos capazes de as resolverem. Desaparece a situação excepcional e prescindimos deles.
Gostamos dos idiotas porque não nos colocam em causa. Quanto às pessoas de alto nível a sociedade descobriu uma forma espantosa de as neutralizar: adoptou-as. Fez de Garrett e Camilo viscondes, como a Inglaterra adoptou Dickens. E pronto, ei-los na ordem, com alguns desvios que a gente perdoa porque são assim meio esquisitos, sabes como ele é, coitado, mas, apesar disso, tem qualidades. Temos medo do novo, do diferente, do que incomoda o sossego.
A criatividade foi sempre uma ameaça tremenda: e então entronizamos meios-artistas, meios-cientistas, meios-escritores. Claro que há aqueles malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar sossegava. De Gaulle, goste-se dele ou não, inquietava. Eu faria um único teste aos políticos, aos administradores, a essa gentinha. Um teste ao seu sentido de humor. Apontem-me um que o tenha. Um só. Uma criatura sem humor é um ser horrível. Os judeus dizem: os homens falam, Deus ri. E, lendo o que as pessoas dizem, ri-se de certeza às gargalhadas. E daí não sei. Voltando à pergunta de Dumas
– Porque é que há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?
Não tenho a certeza de ser um problema de educação que mais não seja porque os educadores, coitados, não sabem distinguir entre ensino, aprendizagem e educação. A minha resposta a esta questão é outra. Há muitas crianças inteligentes e muitos adultos estúpidos, porque perdemos muitas crianças quando elas começaram a crescer. Por inveja, claro.
Mas, sobretudo, por medo.”

 

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▪ António Lobo Antunes
( Portugal 🇵🇹 )

MEU ROSTO NO ESPELHO

Meu rosto no espelho é sempre outro.
Um cabelo branco, dois, três, quatro.
Para onde foi o recém-nascido?
Onde está a criança?
Onde está o menino apaixonado?
A beleza de todos,
mortos para sempre?
Meu rosto no espelho é sempre outro.
Quantas faces
eu perdi que nunca mais voltarão.
Quantos papéis desempenharam em vão.
Quantas partes, quantas mortes
Onde eu já estive.

 

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▪Andrea Bassani
( Itália 🇮🇹 )

 

“As formas que todos conhecemos não me interessam: a verdade está atrás da ilusão, depois da matéria, além do espelho. Se você se olhar no espelho, verá o seu rosto. Se você se espelhar no seu rosto, verá os seus olhos. Se você se espelhar nos seus olhos, descobrirá o seu verdadeiro eu. É aí que a jornada começa. Retrato o que sinto, o que vejo no que sinto, quando observo as coisas, quando as penetro, porque quero que a arte seja conhecimento do invisível, porque quero que os olhos do coração se abram, que eu possa entrar em comunhão com a realidade imaterial, essencial. Uma forma diferente não é uma deformidade. Uma forma diferente é uma forma que você não conhecia. E te chama, além do espelho. Convida-o a deixar a imensa egrégora do pensamento único.”

André Bassani

A POETA QUE DESAPARECEU

Será que ela se deitou para dormir
entre flores brancas?
Será que ela era uma fonte sussurrante
será que ela era um passarinho no galho?
Será que ela estava perdida na floresta
de palavras em itálico?
Quiçá se transformou
num poema lá na floresta?

 


▪ Ingibjörg Haraldsdóttir
( Islândia 🇮🇸 )
Mudado para português do Brasil por Francesca Cricelli

*

SKÁLDKONAN SEM HVARF

 

Var hún lögst til svefns
meðal blómanna hvítu?
Var hún hvíslandi lind
var hún smáfugl á grein?
Var hún týnd í skógi
af skáletruðum orðum?
Var hún ef til vill orðin
að ljóði úti í skógi?

 


▪ Ingibjörg Haraldsdóttir
( Islândia 🇮🇸 )