A CRIANÇA OLHA PELA JANELA

A criança olha pela janela para o celeiro vazio.
A mãe senta-se no telhado e acena para ela.
A avó canta para o fogão maravilhoso.

A criança guardou o seu Pequeno Fogão Marvel
porque a avó dela está a fazer pão verdadeiro.
A criança olha pela janela para o celeiro vazio.

As duas lá dentro estão a preparar o jantar para três.
(Se a mãe descer do telhado.)
A avó canta para o fogão maravilhoso

uma música sobre uma mãe em algum telhado
(provavelmente a mãe que é filha dela).
A criança olha pela janela para o celeiro vazio.

A criança cantarola enquanto fica de pé
a inspecionar o celeiro e a ouvir como
a avó canta para o fogão maravilhoso.

Ela desenhou pelo menos meia dúzia de celeiros hoje.
Ela deixa de cantarolar e canta a sua própria música.
Ela olha para a mãe no topo do celeiro vazio enquanto
a avó canta para maravilhar o fogão.

 

_
▪ Kimiko Hahn
( E.U.A. 🇺🇲 )

 

As Cidades não existem

 

 

Voz e poema de António Ladeira

 

As cidades não existem
com os seus prédios altos
os seus jardins secretos
os seus soldados escuros.

Não existe a tarde
em que nos esquecemos de nos despedir
e ficámos a falar, horas a fio, de coisas inocentes;
as últimas notícias de um país do Norte,
a chuva inesperada nos telhados.

Sinto que o meu rosto,
que amanhã, talvez, se calará para sempre,
ainda tem coisas para dizer.

Como a manhã em que acordámos,
nus,
num país desconhecido.

 

–
▪ António Ladeira
( Portugal 🇵🇹 )

OS POBRES

Os pobres são muitos
e por isto
é impossível esquecê-los.

Seguramente
vêm
nos amanheceres
múltiplos edifícios
onde eles
queriam habitar com seus filhos.

Podem
levar nos ombros
o féretro de uma estrela.

Podem
destruir o ar como aves furiosas,
nublar o sol.

Porém desconhecendo seus tesouros
entram e saem por espelhos de sangue;
caminham e morrem lentamente.

Por isto
é impossível esquecê-los.

 

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▪ Roberto Sosa
(Honduras 🇭🇳)
Mudado para português por Floriano Martins