A TODOS OS JOVENS RECOMENDO

A todos os jovens recomendo:
que abram os livros com devoção,
e não lhes corram os olhos superficialmente,
porque neles está guardada
a coragem de nossos pais.
E que os fechem com dignidade
quando tiverem de se ocupar com outras coisas.
Mas, sobretudo, amem os poetas.
Eles escavaram por vocês a terra
por tantos anos, não para erigir tumbas,
ou estátuas, mas altares.
Pensem que vocês podem caminhar sobre nós
como fazem com grandes tapetes
e voarem para além desta triste realidade
quotidiana.

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▪ Alda Merini
( Itália 🇮🇹 )
Mudado para português por Nicole Alvarenga Marcello

 

 

 

RI DE TI PRÓPRIO


Aqueles que não sabem rir de si próprios
deixam o trabalho para os outros.

Há pessoas que estão sempre sérias:
não foram formatadas para rir.
São gente que não gosta de ir de férias,
porque não sabem para onde ir.

Nem de si próprias elas sabem rir,
porque se tomam a si muito a sério.
Rirem-se de si seria trair
a sua aura de grande mistério.

Então, fica pra outros o trabalho
de se rirem delas o necessário,
que melhor se consegue com chocalho.

Ser sério é alegria ao contrário,
é não beber água se se tem sede,
fechar a vista com feia parede.

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▪ Eugénio Lisboa
( Portugal 🇵🇹 )

UMA NOITE

Ontem à noite o vento assobiava com tanta força que pensei
que fosse derrubar as pedras de papelão.
Em todo o tempo de escuridão as luzes elétricas
Queimavam como corações.
No terceiro sono acordei perto de um lago
Onde as águas de dois rios vieram morrer. Ao redor da mesa as mulheres liam.
E o monge permaneceu em silêncio nas sombras.
Lentamente atravessei a ponte e no fundo da água escura
vi grandes peixes pretos passando lentamente.
De repente, encontrei-me numa grande cidade quadrada.
Todas as janelas estavam fechadas, silêncio por toda a parte.
Em todos os lugares havia meditação
E o monge passou por mim novamente. Através dos buracos de sua camisa puída,
vi a beleza de seu corpo branco e pálido como uma estátua ao amor.
Quando acordei, a felicidade ainda dormia perto de mim.

 

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▪ Giorgio de Chirico
( Itália 🇮🇹 )

 

 

FORJA

São golpes silenciosos: nada se ouve.
Um é a incompreensão, outro é o desprezo,
outro é a humilhação, outro são os maus-tratos,
repetidos em ritmos desiguais.
O meu sofrimento tornou-se incandescente.
Como sinto o martelo, e como
vibra esta bigorna, a dura solidão,
e as pinças do Ferreiro doem.
E não sei qual será a minha forma…

 

 

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▪ Mário Miguez
( Espanha 🇪🇦 )