INCÊNDIO
Se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes
são os teu antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te
diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão
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▪ Al Berto
( Portugal 🇵🇹 )
REFLEXÕES
Eu não poderia viver em nenhum dos mundos que me são oferecidos — o mundo dos meus pais, o mundo da guerra, o mundo da política. Tive de criar um mundo só meu, como um clima, um país, uma atmosfera em que pudesse respirar, reinar e recriar-me quando destruído por viver. Essa, acredito, é a razão de toda obra de arte.
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▪Anaïs Nin
( França 🇨🇵 )
in “O Diário de Anaïs Nin”
OMEGA (POEMA PARA OS MORTOS)
As ervas.
Cortarei minha mão direita.
Espere.
As ervas.
Tenho uma luva de mercúrio e uma de seda.
Espere.
As ervas!
Não chore Silêncio, não deixe que nos ouçam.
Espere.
As ervas!
As estátuas caíram
quando a grande porta se abriu.
As ervas!
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▪ Federico García Lorca
( Espanha 🇪🇸 )
TRATAR DAS COISAS & O TERAPEUTA DISSE
Tenho de tratar das coisas antes de partir.
Preciso de sapatos.
Preciso de uns bons sapatos.
Com solas de borracha.
Acho que isto vai ser duro.
Olhem para mim agora.
Vejo que me estou a aproximar com uma faca.
Vejo que me estou a aproximar com uma corda.
Alguma vez o tiro terá de ser disparado.
Importunei as pessoas com isto durante cinquenta anos.
Demorará meio segundo.
Porque é que me estão a olhar agora?
O amor não é para sempre.
Mas a morte é.
A morte é para sempre.
Adeus, vemo-nos mais tarde!
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▪ Kristina Lugn
(Suécia 🇸🇪 )
Mudado para português por João Luís Barreto Guimarães
*
O TERAPEUTA DISSE
O terapeuta disse
que eu tenho que esquecer-te
Eu recebi seis rosas vermelhas
do médico chefe
e uma carta de amor da
enfermeira do piso,
eles deram-me salsichas fritas e puré de batata
Eu tenho um aviso dos correios e o meu aparelho de som
funciona bem, obrigada, eles deram-me três caixas
de fenobarbital e um chão de 44 m
e o número de telefone da agência matrimonial
mais próxima
não tenho nada a temer
Sou completamente saudável e tenho inteligência normal
Eu prometi à beleza
como assistente social de culto
que vou deixar de estar na cama e acordar à noite
recitando o teu número de identificação
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▪ Kristina Lugn
(Suécia 🇸🇪 )
Mudado para português a partir por Marina Torres
AUSÊNCIA
Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
Ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
Magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
Por isso, de deixar alguns sinais – um peso
Nos olhos, no lugar da tua imagem, e
Um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
Tivessem roubado o tacto. São estas as formas
Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
As coisas simples também podem ser complicadas,
Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a
Realidade aproxima-me de ti, agora que
Os dias correm mais depressa, e as palavras
Ficam presas numa refracção de instantes,
Quando a tua voz me chama de dentro de
Mim – e me faz responder-te uma coisa simples,
Como dizer que a tua ausência me dói.
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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )
A Ordem de Cristo não tem graus, templo, rito ou passe
Subsolo
A Ordem de Cristo não tem graus, templo, rito, insígnia ou passe. Não precisa reunir, e os seus cavaleiros, para assim lhes chamar, conhecem-se sem saber uns dos outros, falam-se sem o que propriamente se chama linguagem. Quando se é escudeiro dela não se está ainda nela; quando se é mestre dela já se lhe não pertence. Nestas palavras obscuras se conta quanto basta para quem, que o queira ou saiba, entenda o que é a Ordem de Cristo — a mais sublime de todas do mundo.
Não se entra para a Ordem de Cristo por nenhuma iniciação, ou, pelo menos, por nenhuma iniciação que possa ser descrita em palavras. Nãos se entra para ela por querer ou por ser chamado; nisto ela se conforma com a fórmula dos mestres: «Quando o discípulo está pronto, o Mestre está pronto também.» E é na palavra «pronto» que está o sentido vário, conforme as ordens e as regras.
Fiel à sua obediência — se assim se pode chamar onde não há obedecer — à Fraternidade de quem é filha e mãe, há nela a perfeita regra de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Os seus cavaleiros—chamemos-lhes sempre assim — não dependem de ninguém, não obedecem a ninguém, não precisam de ninguém, nem da Fraternidade de que dependem, a quem obedecem e de que precisam. Os seus cavaleiros são entre si perfeitamente iguais naquilo que os torna cavaleiros; acabou entre eles toda a diferença que há em todas as coisas do mundo. Os seus cavaleiros são ligados uns aos outros pelo simples laço de serem tais, e assim são irmãos, não sócios nem associados. São irmãos, digamos assim, porque nasceram tais. Na ordem de Cristo não há juramento nem obrigação.
Ela, sendo assim tão semelhante à Fraternidade em que respira, porque, segundo a Regra, «o que está em baixo é como o que está em cima», não é contudo aquela Fraternidade: é ainda uma ordem, embora uma Ordem Fraterna, ao passo que a Fraternidade não é uma ordem.
s.d.
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▪ Fenando Pessoa
( Portugal 🇵🇹 )
in “Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética – Fragmentos do espólio.”
Fernando Pessoa- (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985.
“Subsolo”
CARTA DA INFÂNCIA
Poesia dita por Fátima Murta
Amigo Luar:
Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
cedo e te oiço bater, chamar e bater, na fresta
da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.
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▪ Carlos de Oliveira
( Portugal 🇵🇹 )
in “Trabalho Poético” Sá da Costa, 1998 (3ª ed.)
POEMA DA MORTE NA ESTRADA
Na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
estão quinhentos mortos com os olhos abertos.
A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.
Nem tiveram tempo para fechar os olhos.
Eles bem sabiam dos bancos da escola
como os homens dignos sucumbem na guerra.
Lá saber, sabiam.
A mão firme empunhando a espada ou a pistola,
morrendo sem ceder nem um palmo de terra.
Pois é.
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,
não lhes deu tempo para serem heróis.
Eles bem sabiam que o último pensamento
devia estar reservado para a pátria amada.
Lá saber, sabiam.
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.
Não lhes deu tempo para pensar em nada.
Agora,
na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
são quinhentos mortos com os olhos abertos.
_
▪
António Gedeão
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poemas Escolhidos” – Edições João Sá da Costa, 1996

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