SOU TÃO VELHA

Sou tão velha que meus amantes já são nomes de ruas
Sou tão velha que minhas vontades já estão nuas
Sou tão velha que minhas verdades já são as suas.
Eu sou do tempo em que se fumava no cinema.
Sou tão velha que minha voz agora é boa para ler um poema.

Sou livre:
Posso fazer o que quiser que ninguém liga.

Parte de mim
Mora numa foto antiga.

_

▪ Greta Benitez
(Brasil 🇧🇷 )
in “Canção Antiqüe”, Patuá, 2013

O MONGE

O monge espalhava nos claustros sementes à espera dos pardais.
Disse-me que, até a rezar muito antes de nascer o sol, metia no peito o gozo das magnólias à vista dos pássaros que aparecem às primeiras luzes. E que até o chão parecia ter bocados de música. E era por isso que gostava do silêncio. Encontrava lá a fieira das palavras.

Também, se dava conta do vento fino entre as outras plantas, dizia:
fala baixo; as palavras querem-se pequenas, música de passarinhos.

 
–
▪ Daniel Faria
( Portugal 🇵🇹 )
in “Quasi Edições, 2003”

Nostalgia

o tempo
descansa dos seus crimes
preso à sombra fiel
desta memória
o amor
como um obediente
braço quebrado
reclama
o derramado vermelho
dum céu vencido
e os gritos
outrora assassinados
são agora palavras recusadas
suspensas nos lábios de pedra
desta aldeia tão remota
como tu

 

__
▪ Gil T. Sousa
( Portugal 🇵🇹 )
in “água forte”, A Cadeira de Van Gogh – Associação Cultural, Editora Medita (Brasil), 2014

Não me mostres nenhum norte

Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinha rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.

 

 

–

▪ A. M. Pires Cabral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Cobra-D’ Água”, Edições Cotovia, Ldª., Lisboa, 2011

Breves notas sobre literatura-Bloom

ACUMULAR-  Não se devem acumular informações ou episódios narrativos. O que se acumula são perplexidades.
A literatura exige especialistas em mistérios.Mas não mistérios de detectives, com um fim determinado: o assassino é descoberto. Trata-se (na literatura) de um especialista que estuda o mistério, aumentando-o. Estudar o mistério é aumentar o mistério, não é diminuí-lo. De certa maneira, a análise literária-Bloom é também isto: não diminuir as perplexidades, aumentá-las.
No final de um texto-Bloom, ou mesmo no final de uma frase- Bloom, o leitor deve não-saber mais factos do que não-sabia antes.
Este, porém, não é um método para aumentar a ignorância, mas um método para aumentar a curiosidade.
Acumular é,pois,diminuir,tornar mais raro.

 

–

▪ Gonçalo M. Tavares
( Portugal 🇵🇹 )
In “ Breves Notas sobre Literatura-Bloom”

CENA FINAL

deixei a porta entreaberta
sou um animal que não se resigna a morrer

a eternidade é a escura dobradiça que cede
um pequeno ruido na noite da carne

sou a ilha que avança sustentada pela morte
ou uma cidade ferozmente cercada pela vida

ou talvez não sou nada
somente a insônia e a indiferença brilhante dos astros

deserto destino
inexorável o sol dos vivos se levanta
reconheço essa porta
não há outra

gelo primaveral
e um espinho de sangue
no olho da rosa.

 

_
▪ Blanca Varela
( Peru 🇵🇪 )
Mudado para português do brasil por _ Tiago Fabris Rendelli