O POEMA QUE VOS OFEREÇO

Adormeço sobre o meu poema
e acredito na realidade
do meu sonho
Acredito nas palavras que aprendi
durante a viagem na floresta sombria
Acredito na chegada ___ sozinho
à praça das execuções
Acredito na visita a sucessivas
salas iguais umas às outras
descalço sobre o chão de vidro
Acredito na labuta para organizar
as palavras ___ todas ___ até
as que me foram negadas

Acredito então no despertar
sobre o meu poema
e na partilha
dos cânticos
dos desgostos
dos desencantos
de toda a substância
que agora vos ofereço no poema
como uma vela acesa na vossa noite.

_

▪ Luis  Raimundo Rodrigues
( Portugal 🇵🇹 )

 

SAI DE CASA

Rasga este poema depois de o leres.
E depois espalha os bocados
Pelo vasto mundo
Ou então na tua rua, vai à aldeia, à praia,
Atira-o ao mar,deita-o ao lixo,
Para que venha o vento,o sol,a chuva,os homens do lixo,
Acabar com ele de vez.
Passado um dia,
Sai de casa e procura
Encontrá-lo de novo.

 

_
▪ Manuel Resende
( Portugal 🇵🇹 )

AGORA

Há um martelo de enigmas,
um martelo louco batendo nos nervos,
esmagando as fibras,
há um estrondo subterrâneo que sobe para as fontes,
mas não explode,
não explode esta cabeça vencida, caída sobre
a mesa,
sobre a toalha bordada entre o jejum e as
missas,
nas terras do pai.

Há um globo de magias em desuso que não
perturba quem chega, quem se senta
com as mãos abertas, com a faca atrás,
pelo lado das costas que lançam nas paredes
um vulto sinistro, em silêncio, à espera.

Eu sei porque veio, o que quer, o que faz aqui,
mas tu ergues os cálices,
tu olhas para ela e ofereces uma rosa e
repartes o pão,
e depois adormeces e entras no túnel que dá
para as colinas de Deus,
para os seus antigos.

_
▪ José Agostinho Baptista
( Portugal 🇵🇹 )
in “Biografia”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000

ÚLTIMO SOL NO ROCHEDO

Último sol no rochedo.
Último horizonte vigilante
de marés e tufões.

Lembrei-me de repente daquele deus marinho
…………………………………………………………de Camões
sem nenhuma nereida que lhe aqueça
a pele petrificada do desejo,
o corpo de ostras e camarões
– a cabeça coberta
com a casca
de um caranguejo.

Só a casca?
E o resto? Quem o comeu?
– gula de águia.

Talvez aquela nuvem além no céu
com bico de vapor de água.

 

_

▪ José Gomes Ferreira
( Portugal 🇵🇹 )
in “ Poesia VI”

TRÊS POEMAS DE CHARLES SIMIC


A caixa de música

Senhoras e cavalheiros em linhas de retratos
Na sala de estar da tua casa da cidade,
Sobre uma pequena cruz e uma caixa de música
Que toca apenas silêncio nos dias de hoje
Para uma audiência de cadeiras e sofás drapeados.

Ouves a mulher sem abrigo
A confortar o cãozito assustado a seu lado
Ao estender farrapos para fazer a cama deles
Sob os degraus de mármore que os teus criados
Esfregavam todos os dias por causa das pegadas?

*

A sonhar ou acordado?

Um homem corre atrás de mim na rua
Para me vender um relógio de bolso.
Parece um pregador antigo, de outros tempos
Pálido como um fantasma e vestido de negro.

O relógio da estação de comboios
Parara nos cinco minutos para as onze.
O do banco de poupanças
Jurava serem quase três

Quando me abordou com o relógio
Cuja falta de números e ponteiros
Queria que eu examinasse e admirasse
Antes de ficar sem ar com o preço pedido.

*

O meu amigo Alguém

Por causa da repentina corrente de ar frio,
É possível, uma porta abriu-se
Algures na quietude do anoitecer.
Alguém hesita à entrada
Com um sorriso leve
De premonição feliz.

Neste dia sem data,
Numa rua secundária, escura
Tirando a luz de uma TV
Aqui e além,
E uma árvore solitária em flor
Arrastando uma cauda longa
De pétalas brancas e sombras.

 

_

▪ Charles Simic
(Sérvia 🇷🇸)
Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)