SYRINX, FICÇÃO PASTORAL (III)

Debaixo do colchão tenho guardado
o coração mais limpo desta terra
como um peixe lavado pela água
da chuva que me alaga interiormente
Acordo cada dia com um corpo
que não aquele com que me deitei
e nunca sei ao certo se sou hoje
o projecto ou memória do que fui
Abraço os braços fortes mas exactos
que à noite me levaram onde estou
e, bebendo café, leio nas folhas
das árvores do parque o tempo que fará
Depois irei ali além das pontes
vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;
mas com cuidado, para não ferir
as minhas mãos astutas de princesa.

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▪ António Franco Alexandre
( Portugal 🇵🇹 )

 

HOKUSAI

Foi o meu pai quem me iniciou
na pintura. Fê-lo com revistas,
bem editadas,daquele lugar perdido
a que chamávamos – e chamamos – a Repúplica.
desenhei e pintei durante uns anos
com a fúria inútil do converso.
Era como se vivesse dentro dos quadros
do solitário Museu d’Art Modern,
onde nunca havia ninguém. Parecia
uma cidade francesa de província.
E,de súbito,o primeiro Hokusai.
Listas oblíquas varrem toda uma ponte
e homens e mulheres com guarda-chuvas.
Agora que sou velho queria viver
dentro de uma destas paisagens de Hokusai.
Que me protegessem,ao atravessar a minha ponte,
as linhas oblíquas,tensas,rápidas.
As delicadas grades da chuva.

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▪Joan Margarit
( Espanha 🇪🇸 )
in ” Misteriosamente Feliz”, Língua Morta

SONHO

SONHO: estou sentado à mesa com os meus antepassados. mortos.
as crianças brincam com as bonecas de cabeça de corvo.
os meus antepassados. mortos. dão gargalhadas.
comem e brindam à vida. ao sangue acidulado das crianças e dos animais.
as crianças olham-nos. brincam com as bonecas. feitas de trapos.
brincam. com as bonecas. ao lado, as mães. tristes e velhas.
as crianças saltam. dançam. riem. não sabem que é um banquete
de mortos.
riem para dentro dos espelhos com a inocência dos animais.
deslumbrantes.
as crianças trazem em si a agilidade dos espelhos. a grande sabedoria:
sabem, não sabendo, que os mortos vivem entre nós.
que circulam em nós. como nós. nas casas. no mistério dos rostos.
na luz das velhas fotografias – persistentes e viris como um abandono.

(Breslávia, outono 2010)

 

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▪ Luís Costa
( Portugal 🇵🇹 )
Poemas eslavos
in “Vozes periféricas”

Não gosto de contar os desastres em detalhe

Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.

Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.

Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.

Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.

 

▪ Golgona Anghel
( Portugal 🇵🇹 )
in “Como uma flor de plástico na montra de um talho”, 2013

 

Retrato do Artista quando Coisa

Aprendo com abelhas mais do que com aeroplanos.
É um olhar para baixo que eu nasci tendo.
É um olhar para o ser menor, para o
insignificante que eu me criei tendo.
O ser que na sociedade é chutado como uma
barata – cresce de importância para o meu
olho.
Ainda não entendi por que herdei esse olhar
para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades
machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão –
antes que das coisas celestiais.
Pessoas pertencidas de abandono me comovem:
tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.

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▪ Manoel de Barros
( Brasil 🇧🇷 )

 

OS PRIMEIROS MOMENTOS

Amo os primeiros momentos da manhã
aqueles momentos que ainda ninguém usou
tão limpos
que deves lavar os pés antes de os habitares
aqueles momentos que cheiram como pétalas de rosa e erva cortada
e encharcam a tua roupa com orvalho

Irás chocar com segredos
descobrir milagres cobertos habitualmente pelo fumo dos autocarros
escutarás puros ecos sussurros e corridas precipitadas

Amo os primeiros momentos da manhã
quando o sol tem um só olho aberto
e o dia é como uma camisa lavada
sem vincos e pronta a usar
aqueles momentos que prendem a tua atenção
por serem tão sossegados

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▪Coral Rumble
( Inglaterra 🇬🇧 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga