Observei um mendigo:
De facto, nem um poeta
É tão bem descrito.
*
Uma pomba, num gesto de alheamento
entre flores brancas e amarelas,
pousa no chão.
O céu, sem tempo, espera
quieto.
_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Observei um mendigo:
De facto, nem um poeta
É tão bem descrito.
*
Uma pomba, num gesto de alheamento
entre flores brancas e amarelas,
pousa no chão.
O céu, sem tempo, espera
quieto.
_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Leio Santa Teresa
e rezo na hora de pôr a mesa.
Li Miguel de Cervantes
e continuo como antes.
Leio Jorge Manrique
e faço dísticos com minha psique.
Li São João da Cruz
e o caixão é lindo.
Li Nietzshe e li Kafka
e minha razão se rompe.
Léo e Léo e Leão Felipe!!!
Ser poeta é uma delícia.
Leio ensaios, leio romances,
fico acordado a noite toda.
Leio poesia, teatro,
minha alma cresce com o tempo.
Ler é uma terapia,
quem não lê fica cego
e surdo como uma parede.
_
▪ Belén Reyes
( Espanha 🇪🇸 )
Somos apenas uma ilha
para quem nos vê do mar.
*
Noite,
não estás sozinha.
há inúmeros outros eremitas.
_
▪ Qassim Haddad
( Bahrein,🇧🇭 )
Fiz a viagem inteira de pé:
ninguém me deu o lugar
mesmo que eu tivesse uns cem anos a mais que os outros passageiros
mesmo que em mim fossem óbvios
os sinais de três grandes males:
o Orgulho, a Arte, a Solidão.
_
▪ Nina Cassian
(Roménia 🇹🇩)
Poema dito e mudado para português por Diogo Costa Leal
Nasceu.
Foi numa cama de folhelho
entre lençóis de estopa suja
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscada num cesto vindimeiro,
que não havia berço
naquela casa.
E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo,
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há-de ter
muitos Reis da Judeia a persegui-lo;
que não terá coroas de espinhos
mas coroa de baionetas
postas até ao fundo
do seu corpo.
Ninguém há-de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.
_
▪ Álvaro Feijó
( Portugal 🇵🇹 )
“Natal” de Álvaro Feijó dito por Mário Viegas
Ficámos nas fotografias todos juntos
(vivos, mortos, tanto faz, sim, todos juntos)
com caras de turistas já cansados
de percorrer cidades invisíveis
à procura das mães. O turismo
é uma forma alegre de orfandade.
Pagar para sofrer, perder países.
Fartos de tirar fotografias, epitáfios
a cores, e felizes por nada compreendermos,
regressamos a casa, já era tempo,
carregados de recordações e desejos
de não voltar a sair,
de nos deixarmos de viagens e histórias,
de não termos de percorrer o mundo
perguntando ao mundo,
com um mapa na mão,
onde estamos, quem falta, aonde vamos.
O caos tem um calendário rigoroso
e o nada, festas para guardar.
Trouxe-te estas fotografias, vê-as.
São uma estranha lembrança da morte.
_
▪ Juan Vicente Piqueras
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por Manuel Alberto Valente
Quando o desespero pelo mundo cresce em mim
e acordo a meio da noite com o mais pequeno som,
com medo do que possa vir a ser a minha vida e a vida dos meus filhos,
vou e deito-me onde o pato-marreco
repousa na sua beleza na água e a garça-real se alimenta.
Penetro na paz das coisas selvagens
que não sobrecarregam as suas vidas com a premeditação da tristeza. Entro na água parada.
e sinto por cima de mim as estrelas cegas durante o dia esperando com a sua luz. Durante algum tempo
descanso na graça do mundo e sou livre.
_
▪ Wendell Berry
(U.S.A. 🇺🇲)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga
Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos
_
▪ Sebastião Alba
( Portugal 🇵🇹 )
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