SER VELHO

Entre as sombras dos galos
e dos cães nos pátios e currais
de Sanaüja, abre-se um buraco
que se enche de tempo perdido e água suja
quando as crianças caminham para a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha,
a escolher lentilhas
em noites de borralho,
vejo os que me amaram.
Tão pobres que no fim da guerra
tiveram de vender o miserável
vinhedo e aquele frio casarão.
Ser velho é a guerra ter terminado.
É saber onde ficam os refúgios, agora inúteis.

 

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▪ Joan Margarit
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por Soledade Santos

MORNING STAR

Meus pés pisam a Câmara do Meio,
Minhas mãos tocam o que os Anjos são.
Já de onde estou, branqueja o Limiar
Do íntimo Sacrário. Sinto o ar
Do silêncio ulterior tocar meu seio,
E rasgam-se olhos no meu coração.

Mas que é tudo isto, se isto não é nada?
Que sei eu disto?, que bem pode ser
Aquela aérea, falsa e linda estrada
Que nos desertos se consegue ver?
Venci? Perdi-me? Não o sei dizer.

Poder! Poder! Ah,sempre a maldição
Da substância do mundo! Quem me dera
Que me nascera no ermo, coração
Antes a ânsia de ser só mesquinho,
Antes um sono cheio de perdão,
E ser agora qual menino eu era,
(Dos mesmos Anjos mais fiel vizinho).

Caminhei como os homens; sou como esse
Que viajou países por achar,
E não achou mais neles do que houvesse
Na Pátria onde se houve de apartar.
Tudo é aqui, mais mar ou menos mar.
(…)

 
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▪ Fernando Pessoa
( Portugal 🇵🇹 )
Rosea Cruz, Edições Manuel Lencastre, 1989

L’ immortalité de chaque jour

Mais nous voulons tout si vite, bien que tout arrive si lentement
Une fourmi porte les graines de l’hiver qui vient
Car toujours un hiver s’annonce, car c’est toujours l’hiver je crois
Et toute saison connue a son hiver inconnu
Où la neige tombe fine, sous le plus implacable soleil
Sur des glaces perpétuelles, comme les morts qui ont péché, le corps intact au fond de la fosse
Car nous sommes tous un mort qui a péché, notre corps la nuit reste intact
Et chaque matin rejette la terre du songe et ressuscite
Se coiffe avec soin devant la photo du défunt d’hier
Dans un sourire coupable
Puis se mêle sans bruit à la foule
Car c’est un péché de vivre, de promener un corps intact
Conservé dans les glaces
De te lever depuis des siècles de ton trou
Maigre dépouille balbutiant pour un peu d’immortalité —
Car le temps ne se presse pas, tout arrive si lentement
Que la fourmi du début de ce poème
Porte peut-être encore les graines pour l’hiver
Qui pourrait bien ne pas venir.

 


▪ Andònis Fostièris
( Grécia 🇬🇷 )
Mudado do grego para francês por Michel Volkovitch

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### = chuva oblíqua


▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “O guardador de segredos”

JAN VOSS

Tal como a poesia, a pintura é um vício solitário. Nascida de uma solidão aceite ou de uma solidariedade desencantada, inventa para si própria e em si própria um comparsa, um companheiro, alguém a quem dirigir a palavra e o gesto. Palavras e gestos, e mais o gesto pressuposto, fazem um teatro. Teatro, porém, que não se basta, e que para existir, para escapar à realidade em que foi concebido, necessita de testemunhas (isto é, espectadores).
Ao convocar os espectadores, o criador não os convida para um colóquio, mas para um espectáculo. Espectáculo necessariamente escandaloso, porque desvelador do mais íntimo, do mais sagrado, do que, ao ser exposto, se torna mais sacrílego. Portador da chama ( “ voleur d’étincelles “ ), o criador transporta também o escândalo.
Espectáculo de gestos feitos a sós, de murmúrios pronunciados em sonhos, ressonâncias audíveis do mar interior, mar negro que explode em cores, que ganha contornos e formas, que se transforma em corpos, em homens que falam, que agem, que representam, que têm uma história e no-la contam. Isto o que eu quero ver na pintura e o que, porque são pintura, vejo nas telas de Jan Voss. Um labirinto, dirão. Mas quem tiver a chave, saberá orientar-se, ainda que à custa de uma certa desorientação inicial. E quem a não tiver, que se perca. De quem a culpa?

 

▪ José Manuel Simões
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sobras Completas”, Editora Abysmo, 2016
 (Para fora da vitrina)