Esta é a melhor altura do ano

Esta é a melhor altura do ano
para cortar o cabelo, profere Sandy,
remexendo com a ponta dos dedos
alguns fiozinhos na testa.
A porra da lua atrai as marés,
cria tsunamis, invade o Japão,
provoca uma crise nuclear,
porque é que não haveria de fazer
crescer o cabelo?

Deus puxa os poetas pelos cabelos, explica Hölderlin
acrescento então,
preocupada com a importância literária do assunto.
Mas, para ter a certeza,
quis perguntar a um especialista,
isto é, a qualquer uma das mulheres
que estavam agora a fazer fila
à entrada do Ginásio Clube Português
como os grandes bandos de antílopes Impala
à beira de um pântano,
num documentário na Animal Planet.

Quis dizer-lhes que o dinheiro, a idade não conta,
que amanhã é outro dia,
mas depois lembrei-me dos terramotos,
da crise nuclear, do IVA,
e fiquei calada.

 

–

▪ Golgona Anghel
( Portugal 🇵🇹 )
in ‘Vim Porque Me Pagavam’, 2011

PERDAS E GANHOS

Eu vim aqui e soube imediatamente
que alguma coisa iria acontecer comigo
eu não sei o quê
porque tem dias na vida da gente
que a gente é capaz de perder tudo

perder a carteira
perder os documentos
perder o ônibus para casa
perder a casa
perder a mulher que estava dentro dela
perder o pai
perder a mãe
perder o filho

tem dias em que você é capaz de perder tudo
só que nesses dias você não percebe
que você pode começar a ganhar alguma coisa
porque quando você sempre ganha tudo
você não sabe
você não sabe o que está perdendo

 

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▪ Tavinho Paes
( Brasil 🇧🇷 )

Natal de ’44

Desde miúdo alegrava-se-me a face
quando chegava a festa do Natal.
Toda a noite trabalhava a peneira
e de manhã davam-me o fato bonito.

Então escapava-me de casa a correr
e andava na praça a mostrar-me;
e ao meio-dia em ponto na mesa enfeitada
comíamos todos em santa paz.

Oh, o meu Natal, o cheiro dos doces,
hoje passei-o às voltas numa estrada,
sem um pedaço de pão, a roupa emprestada,
longe de casa e sem amor de ninguém.

 

–
▪ Tonino Guerra
( Itália 🇮🇹 )
Mudado para português por Nuno Dempster

SER VELHO

Entre as sombras dos galos
e dos cães nos pátios e currais
de Sanaüja, abre-se um buraco
que se enche de tempo perdido e água suja
quando as crianças caminham para a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha,
a escolher lentilhas
em noites de borralho,
vejo os que me amaram.
Tão pobres que no fim da guerra
tiveram de vender o miserável
vinhedo e aquele frio casarão.
Ser velho é a guerra ter terminado.
É saber onde ficam os refúgios, agora inúteis.

 

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▪ Joan Margarit
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por Soledade Santos

MORNING STAR

Meus pés pisam a Câmara do Meio,
Minhas mãos tocam o que os Anjos são.
Já de onde estou, branqueja o Limiar
Do íntimo Sacrário. Sinto o ar
Do silêncio ulterior tocar meu seio,
E rasgam-se olhos no meu coração.

Mas que é tudo isto, se isto não é nada?
Que sei eu disto?, que bem pode ser
Aquela aérea, falsa e linda estrada
Que nos desertos se consegue ver?
Venci? Perdi-me? Não o sei dizer.

Poder! Poder! Ah,sempre a maldição
Da substância do mundo! Quem me dera
Que me nascera no ermo, coração
Antes a ânsia de ser só mesquinho,
Antes um sono cheio de perdão,
E ser agora qual menino eu era,
(Dos mesmos Anjos mais fiel vizinho).

Caminhei como os homens; sou como esse
Que viajou países por achar,
E não achou mais neles do que houvesse
Na Pátria onde se houve de apartar.
Tudo é aqui, mais mar ou menos mar.
(…)

 
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▪ Fernando Pessoa
( Portugal 🇵🇹 )
Rosea Cruz, Edições Manuel Lencastre, 1989

L’ immortalité de chaque jour

Mais nous voulons tout si vite, bien que tout arrive si lentement
Une fourmi porte les graines de l’hiver qui vient
Car toujours un hiver s’annonce, car c’est toujours l’hiver je crois
Et toute saison connue a son hiver inconnu
Où la neige tombe fine, sous le plus implacable soleil
Sur des glaces perpétuelles, comme les morts qui ont péché, le corps intact au fond de la fosse
Car nous sommes tous un mort qui a péché, notre corps la nuit reste intact
Et chaque matin rejette la terre du songe et ressuscite
Se coiffe avec soin devant la photo du défunt d’hier
Dans un sourire coupable
Puis se mêle sans bruit à la foule
Car c’est un péché de vivre, de promener un corps intact
Conservé dans les glaces
De te lever depuis des siècles de ton trou
Maigre dépouille balbutiant pour un peu d’immortalité —
Car le temps ne se presse pas, tout arrive si lentement
Que la fourmi du début de ce poème
Porte peut-être encore les graines pour l’hiver
Qui pourrait bien ne pas venir.

 

–
▪ Andònis Fostièris
( Grécia 🇬🇷 )
Mudado do grego para francês por Michel Volkovitch