QUARENTENA

Na pior hora da pior estação
do pior ano de todo um povo
um homem saiu do albergue com a mulher
e caminhou- caminharam os dois – para norte.

Ela estava doente com a febre da fome e não o conseguia acompanhar.
Ele levantou-a e colocou-a às costas.
E caminhou assim para oeste, para oeste e para norte,
até ao anoitecer, sob as estrelas geladas.

De manhã, os dois foram encontrados mortos.
De frio. De fome. Das toxinas de toda uma história.
Mas os pés dela apoiavam-se no esterno dele.
O último calor da sua carne foi o último presente para ela.

Que nenhum poema de amor jamais chegue a este limite.
Não há aqui lugar aqui para o impreciso
louvor da elegância e da sensualidade do corpo.
Apenas tempo para este inventário impiedoso:

A sua morte no inverno de 1847.
O que sofreram. E como viveram.
E o que existe entre um homem e uma mulher.
E em que escuridão se pode ver melhor.

 

_
▪ Eavan Boland
( Irlanda 🇨🇮 )
in “New Collected Poems”, Manchester, Carcanet Press, 2013

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Médico



 

QUARANTINE

 

In the worst hour of the worst season
of the worst year of a whole people
a man set out from the workhouse with his wife.
He was walking—they were both walking—north.

She was sick with famine fever and could not keep up.
He lifted her and put her on his back.
He walked like that west and west and north.
Until at nightfall under freezing stars they arrived.

In the morning they were both found dead.
Of cold. Of hunger. Of the toxins of a whole history.
But her feet were held against his breastbone.
The last heat of his flesh was his last gift to her.

Let no love poem ever come to this threshold.
There is no place here for the inexact
praise of the easy graces and sensuality of the body.
There is only time for this merciless inventory:

Their death together in the winter of 1847.
Also what they suffered. How they lived.
And what there is between a man and woman.
And in which darkness it can best be proved.

 

_
▪ Eavan Boland
( Ireland 🇨🇮 )
From “New Collected Poems”, Manchester, Carcanet Press, 2013

 

PRIMAVERA DE GUERRA

Mas quando todos os rios abrangerem as suas margens
como uma recordação, os campos alarmando-se ao ruído
das cavalgadas do Sul,
Eis os lavradores, pesados artilheiros de capacete preto e
dourado, que vão espezinhar as calmas primaveras,
Eis os canhões lentos triando as quartas e as oitavas do
quadro rural. E as suas rodas irão gravar a dor do sulco.
A bateria no pequeno bosque romperá entre as grandes
nuvens de pinheiros-brancos e vai saltar pelos jardins com
as macieiras desabrochadas em direcção ao céu. E a queda
das suas granadas preencherá o nosso século.
As noites deixarão de ser descoradas peregrinas: as noites
sofrerão como tísicas que cospem desejando o sangue:
uma lava de obuses.
As estufas de túlipas ajoelhadas na Flandres terão lábios
vermelhos, dir-se-iam cocotes de Paris, pois todos os filhos
de burgueses do país dormiram nas suas camas.
E colunas azuis, colunas pretas sairão cantando do
recôncavo dos prados molhados: soldados de cinabre,
soldados de fogo morrerão abraçando a última Vida.

 

_
▪ Yvan Goll
( Franco-Alemão 🇫🇷🇩🇪 )
in “Elegias Internacionais – panfletos contra esta guerra (1915)”, Editora Língua Morta
Mudado para português por Diogo Paiva 🇵🇹
 

POÉTICA

Escrevo poesia porque sei que depois não farei mais nada.
Olhando profundamente a zona que está
entre o Bem e o Mal,
só podemos dar-nos conta
de que o Homem continua
— como disse Earth, Wind and Fire/
Terra, Vento e Fogo.
O que «continua» é o Método de Amor Contemporâneo:
Preocupação obsessiva pelo / Não deixar
que esse mesmo feito
te deprima — como quis Neil.
— E recorda que o amor é sempre
importante — disse Martisel

 

_
▪ Ismael González Castañer
(Cuba 🇨🇺 )
in ”Poesia Cubana Contemporânea”, Antígona, Lisboa, 2009
Mudado para português por Jorge Melícias 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Editor



🇨🇺

POÉTICA

 

Escribo poesia porque sé que después no haré más nada.
Mirando profundo en la zona que está
entre el Bien y el Mal,
uno sólo puede percatarse
de que el Hombre sigue
— como ha dicho Earth, Wind and Fire/
Tierra, Viento y Fuego.
Lo que «sigue» es el Método de Amor Contemporáneo:
Preocupacion obsesiva por el hecho / No dejar
que ese mismo hecho
te deprima — como ha querido Neil.
— Y recuerda que el amor es importante
cada vez — dijo Martisel

 

_
▪ Ismael González Castañer
(Cuba 🇨🇺 )
in ”Poesia Cubana Contemporânea”, Antígona, Lisboa, 2009

 

NO ANIVERSÁRIO DA MINHA MORTE

Todos os anos, sem me dar conta, passa o dia
Em que os últimos incêndios se despedem
E o silêncio se instala
Viajante incansável
Como os raios de luz de uma estrela já extinta

Então já não
Estarei nesta vida vestindo uma roupa estranha
Surpreendido na terra
Pelo amor de uma mulher
E a audácia dos homens
Escrevo hoje depois de três dias de chuva
e ouço a carriça a cantar e a tempestade cessar
E curvo-me sem saber perante o quê

 

_
▪ W. S. Merwin
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “The Second Four Books of Poems (Port Townsend)”, Washington, Copper Canyon Press, 1993

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Médico



 

FOR THE ANNIVERSARY OF MY DEATH

 

Every year without knowing it I have passed the day
When the last fires will wave to me
And the silence will set out
Tireless traveler
Like the beam of a lightless star

Then I will no longer
Find myself in life as in a strange garment
Surprised at the earth
And the love of one woman
And the shamelessness of men
As today writing after three days of rain
Hearing the wren sing and the falling cease
And bowing not knowing to what

 

_
▪ W. S. Merwin
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “The Second Four Books of Poems (Port Townsend)”, Washington, Copper Canyon Press, 1993

 

A FLORESTA

A mulher coloca a criança na escola
a escola coloca a criança na sala
o pai furta da sala a criança
a criança vai para a floresta
o pai abre uma vala
a mãe
esconde-se na terra
a criança
fica sozinha
a mãe
come o pai
na
floresta

 


▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Xeque-mate”, Editora Urutau, Brasil, 2018

 

POEIRA

Alguém falou comigo ontem à noite,
disse-me a verdade. As palavras foram escassas,
mas reconheci-a.
Percebi que deveria arranjar maneira de me levantar,
anotá-la, mas era tarde,
e eu estava estafada do dia inteiro
a trabalhar no quintal, mudando pedras de lugar.
Agora, recordo apenas o sabor:
não doce nem picante, ao jeito da comida.
Algo mais próximo de um pó fino, de poeira.
E não fiquei exultante nem assustada,
mas meramente enlevada, ciente.
Por vezes sucede assim:
aparece-nos Deus à janela,
todo ele um clarão e asas negras,
e sentimo-nos demasiado cansados para a abrir.

 

_
▪ Dorianne Laux
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “What We Carry”, BOA Editions, Ltd., 1994

Mudado para português por _ Vasco Gato 🇵🇹 Poeta e tradutor



🇺🇲

DUST

..

Someone spoke to me last night,
told me the truth. Just a few words,
but I recognized it.
I knew I should make myself get up,
write it down, but it was late,
and I was exhausted from working
all day in the garden, moving rocks.
Now, I remember only the flavor —
not like food, sweet or sharp.
More like a fine powder, like dust.
And I wasn’t elated or frightened,
but simply rapt, aware.
That’s how it is sometimes —
God comes to your window,
all bright light and black wings,
and you’re just too tired to open it.

.
.

_
▪ Dorianne Laux
( U.S.A 🇺🇲 )
in “What We Carry”, BOA Editions, Ltd., 1994

 

INTERLÚDIO

essa insónia era gentil, diferente da outra, a da noite não madrugada ainda,
geralmente depois de um pesadelo. dessa insónia maior que a própria insónia
não havia desejo nenhum: só um medo de fazer recolher mãos, dedos, pulsos,
olhos fechados. suficiente de imaginar dentro dos olhos um sítio alto, e o
medo reproduzido: cair na cama tão pungente como um precipício.

 
_
▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Inversos” Poesia 1990-2010, Dom Quixote, Lisboa, 2010

 

ESCREVER APÓS O HORROR

Escrever após o horror
talvez mantenha um homem vivo —
mas qual o poema das noites brancas
entrevistas pelas cortinas da sala?
Diante da janela, o perfil de uma palmeira
fossilizada, uma criança chora,
descerro a cortina, pressinto o luar
para lá do prédio defronte, no gramado
a relva judiada, a persistência dos grilos,
a sutil, misteriosa incorporação
de tudo a um cristal já trincado.

Tenho a ternura. Mantenho-a.
Sou o mesmo das garapas na praça.
O mesmo que não recusa esmolas.
O mesmo da busca dos gatos da avó
pelos telhados da casa eterna,
pisando com cuidado, sentindo ranger
a telha fria sob os meus pés
no instante em que alguém lá em baixo morre.
O mesmo que temia a porta fechada
no fundo de um corredor catacumba
(o amor alquebrado e eu, Pietà
de um poema desesperado, caminhando por entre
miasmas de cigarros e culpas irremíveis).
O mesmo dos poemas que floresciam
ainda quando não havia um tema,
ainda quando nem sequer existiam poemas.
O mesmo. Mas até quando
ou ainda no esquife serei o de agora?

Carrego a ternura como um vaso de flores
trazido dos lugares da infância
(a terra apodrecida, as raízes malcheirosas).
Digo a ternura com um hálito de palavras mortas,
mas não importa — tenho-a aqui,
sinto-a embotando os meus olhos durante a visão
de uma centena de negros acorrentados;
zune-me aos ouvidos como um festim
de vidas destroçadas — os passos
somam-se aos ecos da tarde,
há prolongados cantos de pássaros
roucos, terrenos, baldios
e casas desabitadas à espera
de um homem e seu método.

Pálido poema das noites brancas
apenas entrevistas por rendas rasgadas:
és tão lívido, faltam-te riquezas.
Até o sol surge como os centavos
esquecidos nos bolsos do casaco puído:
paga-me uma garapa nas tardes de sábado
ou é a esmola que dou a um esfomeado
com ridícula certeza de ser bom.

 

_
▪ Daniel Francoy
( Brasil 🇧🇷 )
in “Identidade”, Editora Urutau, S. Paulo, 2016

 

MANUAL DE COMBATE

eles chamaram Celine de nazista
eles chamaram Pound de fascista
eles chamaram Hamsun de nazista
eles puseram Dostoiévski diante de um esquadrão
de fuzilamento
e você sabe que eles atiraram em Lorca
submeteram Hemingway a tratamento de choque
e você sabe que ele se matou
e eles levaram Villon para fora da cidade (Paris)
e Mayakovsky
se desiludiu com o regime
e depois de uma desavença amorosa
bem
ele se matou.
Chatterton ingeriu veneno de rato
e funcionou.
e alguns dizem que Malcom Lowy morreu
afogado no próprio vômito
enquanto estava bêbado.
Crane tomou o rumo da hélice
do navio ou dos tubarões.

Era escuro o sol de Harry Crosby.
Berryman preferiu a ponte.
Plath não acendeu o forno.

Pascal cortou seus pulsos na
banheira (é melhor assim:
na água morna).
Thomas e Behan beberam
até a morte.
há muitos outros
e você quer ser um
escritor?
é esse tipo de guerra,
sabe:
criação mata;
muitos enlouquecem,
alguns perdem o rumo e
não conseguem
prosseguir.
uns poucos chegam à velhice.
uns poucos fazem dinheiro.
uns passam fome (como Vallejo).
é esse tipo de guerra:
baixas por todo lado.

tudo bem, vá em frente
mas quando eles o descartarem
pelo seu ponto fraco
não me venha com os seus
problemas

eu datilografei isso esta noite
sobre a mesa da cozinha
enquanto ouvia
Music for the Royal Fireworks
de Handel.

agora vou fumar um cigarro
na banheira
e depois vou
dormir.

 

_
▪ Charles Bukowski
(E.U.A. 🇺🇲)
Escrito: 1978, Fonte: Original manuscript

*

Mudado para português do brasil por Nelson Santander 🇧🇷 (servidor público federal e tradutor neófito). Nascido em 1967, reside em Marília, SP, Brasil. Mantém o blogue de poesia e tradução “Singularidade”.



🇺🇲

combat primer

 

they called Celine a Nazi
they called Pound a fascist
they called Hamsun a Nazi
they put Dostoevsky in front of a firing
squad
and you know they shot Lorca
gave Hemingway shock treatments
and you know he shot himself
and they ran Villon out of town (Paris)
and Mayakovsky
disillusioned with the regime
and after a lover’s quarrel
well
he shot himself.
Chatterton took rat poison
and it worked.
and some say Malcom Lowry died
swallowing his own vomit
while drunk.
Crane went the way of the boat
propellor or the sharks.

Harry Crosby’s sun was black.
Berryman preferred the bridge.
Plath didn’t light the oven.

Pascal cut his wrists in the
bathtub (it’s best that way:
in warm water).
Thomas and Behan drank themselves
to death.
there are many others
and you want to be a
writer?
it’s that kind of war,
you know:
creation kills;
many go mad,
some lose the way and
can’t do it
anymore.
a few go into old age.
a few make money.
some starve (like Vallejo).
it’s that kind of war:
casualties everywhere.

all right, go ahead
but when they sandbag you
from the blind side
don’t come to me with your
troubles.

I typed this tonight
on this kitchen table
while listening to
Music for the Royal Fireworks
by Handel.

now I’m going to smoke a cigarette
in the bathtub
and then I’m going to
sleep.

 

_
▪ Charles Bukowski
(E.U.A. 🇺🇲)
Written: 1978, Source: Original manuscript