░ Pátria Minha

Entre nós e o futuro há arame farpado
levaram o que se via além de nós
não resta mais que a ponta do nariz
como esperar agora o inesperado?
Somos do Sul e o saldo somos nós
contra o bezerro de oiro o teu quadrado
o poema tem de ser o teu país.

Entre nós e amanhã há uma taxa de juro
uma empresa de rating Bruxelas Berlim
entre hoje e o futuro há outra vez um muro
resgate é a palavra que nos diz
tens de explodir o não dentro do sim
não te feches em torres de marfim
o poema tem de ser o teu país.

 

_
▪ Manuel Alegre
(Águeda, n. 1936)
in “Bairro Ocidental”, Editora D. Quixote, Lisboa, 2015

░ As nuvens apressam-se

Terça-feira. As nuvens apressam-se.
A minha mãe teria agora cem anos.
O meu pai um pouco mais velho.
Os avós o dobro das idades.
Esses não os conheci. Os muros da terra
já os devem ter engolido.
O tempo sussurra os seus nomes debaixo das árvores.

Serenamente ouço o rumor das aves
à entrada do paraíso.

Somos apanhados em todos os lugares.

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Inédito publicado com autorização prévia da autora



VERSIONE ITALIANO

░ Le nuvole si affrettano

 

Martedì. Le nuvole si affrettano.
Mia madre avrebbe ora cent’anni.
Mio padre un po’ più vecchio.
I nonni il doppio dell’età.
Non li ho conosciuti. I muri della terra
li avranno già ingoiati.
Il tempo sussurra i loro nomi sotto gli alberi.

Serenamente sento il mormorio degli uccelli
all’ingresso del paradiso.

Siamo presi in tutti i luoghi.

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Inédito publicado com autorização prévia da autora

Mudado para italiano por – Daniela Di Pasquale, tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.

░ Herança

A mulher deixou cair uma filha da barriga.
A barriga que tinha crescido morreu.
Deixou estampada uma folha de neve no chão.
Lá dentro meteu pauzinhos para fazer no inverno um caixão.
A filha que tinha crescido com uma folha da lua sepultada na face,
Deixou tombar os ponteiros de neve na sala.
Depois começou a lamber o sangue das paredes
como o útero de Deus.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal )
– inédito – 



– VERSION BY LESLEY SAUNDERS –

 

LEGACY

 

The woman let drop a daughter from her belly.
The belly that had grown big died.
She let a leaf of snow imprint the ground.
There within she stacked some little sticks to make a winter coffin.
The daughter who’d grown tall with a leaf of moonlight buried in her face
felled the pillars of snow in the room.
Then she began to lick the blood off the walls
as if they were the womb of God.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal )
– Unpublished –
Version by Lesley Saunders (Poet and educationalist)

░ Orientation

J’ai écrit des milliers de vers
pour oublier. J’ai embrassé quelques femmes
pour me rappeler. Maintenant je peux déjà dire
le son à chair vive.

La ville ressemble à un camp
abandonné dans le désert. Les nomades
sont partis sur leurs chameaux, avec provision
de tamars et d’eau.
Il y a des restes de déchets, panneaux de signalisation
feuilles arrachées à des revues pornographiques,
au gré du vent, parmi des pétales sèches.

Il y a des résidus d’endroits où j’ai été avec toi
fragments de vers en verre, tout
très net, inscrit, plié en or.

 

_
▪ António Barahona
(Lisboa, n. 1939)
in “O Som do Sôpro”, Edição Livraria Poesia Incompleta, Lisboa, 2011

Mudado do português por Eduardo Veras, pesquisador colaborador e pós-doutorando na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Brasil, onde atuou em 2016 como professor de Literatura Francesa. Especialista na obra de Charles Baudelaire, sobre quem escreveu tese de doutorado (UFMG, 2013), realizou dois estágios de pesquisa no “Centre de Recherche sur la Littérature Française du XIXe Siècle” da Université Paris-Sorbonne, sob a supervisão do professor Dr. André Guyaux. Atualmente, prepara uma nova tradução dos poemas em prosa de Baudelaire, de quem já traduzira o ensaio “L’École Païenne”. É autor de “O oratório poético de Alphonsus de Guimaraens” (Relicário, 2016) e co-organizador da coletânea de ensaios “Por uma literatura pensante: ensaios de filosofia e literatura” (Fino Traço, 2012). Tem publicado artigos sobre diversos poetas, brasileiros e franceses, em periódicos especializados.



VERSÃO ORIGINAL

 

Orientação

 

Escrevi milhares de versos
para esquecer. Amei algumas mulheres
para lembrar. Agora já posso dizer
o som em carne viva.

A cidade assemelha-se a um acampamento
abandonado no deserto. Os nómadas
partiram nos seus camelos, com provisão
de tâmaras e água.
Há restos de detritos, sinais de trânsito,
folhas arrancadas a revistas pornográficas,
ao sabor do vento, por entre pétalas sêcas.

Há resíduos de sítios onde estive contigo,
fragmentos de versos de vidro, tudo
muito nítido, anotado, vincado a oiro.

 

_
▪ António Barahona
(Lisboa, n. 1939)
in “O Som do Sôpro”, Edição Livraria Poesia Incompleta, Lisboa, 2011

░ A montanha-russa

Durante meio século
A poesia foi
O paraíso do tolo solene.
Até que cheguei eu
E me instalei com a minha montanha-russa.

Subam, se vos apetecer.
Claro que eu não respondo se descerem
A jorrar sangue pelo nariz e pela boca.

 

_
▪ Nicanor Parra
(Chile, n. 1914)
in “Acho que Vou Morrer de Poesia” – Antologia Breve, Língua Morta, Lisboa, 2015
Selecção e tradução – Miguel Filipe Mochila

░ a rosa é sem mais nem porquê

Angelus Silesius

uma mulher
espera
na margem do rio
para dizer ____o que não sabe

e o rio vê-a
e não a vê
e ela
na sua desnuda inexperiência
a ponto de chegar
ao que procura
isso
que talvez poderia dizer
mas não sabe
querer

canta
canta como se dormisse
no regaço da água
que a escreve
como falando
ao rio do seu corpo
que cala de desejo
na indecisa noite
que o inspira

e assim
na medida das coisas
espera
o que ansiaria preferir

um líquido tremor
uma música por cumprir
para saber
o que diz
quando diz
não saber

outono na ribeira
abertamente noite

não há
mais história além desta

uma mulher que invade
a página nervosa do desejo
como uma morte atenta
ao que vive
dentro dela

essa impaciência
por ser o que seria
se o coração falasse
calmo na sua orfandade

e o rio vê-a
e depois não a vê
e ela
que ignora o que soube
sem mais nem porquê a inverosímil casa
das coisas

canta
está cantando agora
como empreender um voo
até si mesma

e o rio vai
vai-se a pena escrita
levando a sua imagem
às terras do mar
onde ela
ainda não nasceu
e é já
uma conclusão

 

_
▪ María Negroni
(Argentina, n. 1951)
in “de Arte y Fuga”, Editorial Pre-Textos, 2010

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.



  VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ la rosa es sin por qué

Angelus Silesius

una mujer
espera
a la orilla del río
para decir ____lo que no sabe
y el río la ve
y no la ve
y ella
en su desnuda inexperiencia
a punto de llegar
a lo que busca
eso
que tal vez podría decir
pero no sabe
querer
canta
canta como dormirse
en el regazo del agua
que la escribe
como llamando
al río de su cuerpo
que calla de deseo
en la indecisa noche
que lo inspira
y así
en la medida de las cosas
espera
lo que ansiaría preferir
un líquido temblor
una música incumplida
para saber
qué dice
cuando dice
no saber
otoño en la ribera
abiertamente noche
no hay
más historia que ésta
una mujer que invade
la página nerviosa del deseo
como una muerte atenta
a lo que vive
dentro de ella
esa impaciencia
por ser lo que sería
si el corazón hablara
tranquilo en su orfandad
y el río la ve
y después no la ve
y ella
que ignora lo que supo
sin por qué la inverosímil casa
de las cosas
canta
está cantando ahora
como emprender un vuelo
hacia sí misma
y el río se va
se va la pena escrita
llevándose su imagen
a las tierras del mar
donde ella
todavía no nació
y es ya
una desinencia

_
▪ María Negroni
(Argentina, n. 1951)
in “de Arte y Fuga”, Editorial Pre-Textos, 2010

░ Lua cheia

nas palavras lavo os panos tristes
que ao fim de uma estação retêm agora
a sensação dos dias, o lume dos passos.

sinto que é um outro tempo,
um outro jeito de dobrar esquinas,
um outro modo de pisar a terra
– é tudo isto comprimido num pulso,
cingido dentro de veias como pequenas vozes
mudadas em canção ao acordar do ano.

vem, vem comigo, neste magnífico nascimento,
ouvir bater a espuma no cinzento das rochas,
e deixar passar as horas como quem flutua
à tona do tempo, inteiramente mergulhado no mundo
– vem dormir sob o luminoso manto da lua cheia.

hei-de dizer-te um dia
como se escolheu a cor do mar.

 

__
▪ Vasco Gato
(Lisboa, n. 1978)
in “Um Mover de Mão”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000

░ Cinco movimentos num gesto de ar

13:07
O contorno da coluna, a chama das sombras onde se guarda uma carícia. Corpo com memória, com cada dedo (sentidos do outro em corpo alheio) o contorno relata a curvatura própria. Enunciar a nomenclatura iminente do desejo. Canções, murmúrios, as sendas que se estabelecem entre as fendas das curvas. Fissuras de tempo, inclinação gestual onde se precipita a morte. Orifícios, musculatura, gordura em crateras entre os ossos e os vasos sanguíneos que se negam a falar: sílabas etéreas – sussurro -: o som /torção/ de cada prega.

13:28
A circularidade de um pensamento. Aquilo que o corpo carrega nas veias (metáfora). A liquidez das baías e dos canais interiores. Esconde-se entre as curvas? Olhar perdido no horizonte exacto: sargaço. Fragilidade da costa em nó cego. Atalho o vento que cobre o voo de certa palavra. A mão cruza, toca o rosto apenas, apontando em direcção ao local dos murmúrios, apenas murmúrios. A exactidão de um balbucio interior onde a forma verdadeira das vozes do pai se acumulam por detrás do ouvido esquerdo. A brancura da mão de Eleonora, que decalca os contornos de um elefante imaginário. E esse sorriso, esse meio sorriso na orla da sua boca.

13:40
A cova confunde-se onde os cardos deixaram marcas. Estancamento. Cardume de peixes agitando-se entre pernas. Ebulição de sangue em ramificações. Abrasiva. A marcha sobre a perna se expande. Cada centímetro é início. Toda divisão, inexacta. Estancamento. As folhas das árvores caíam por cima dos seus ombros. Então emudecia o mundo.

 

_
▪ Rocío Cerón
(México, n. 1972)
in “Estación Poesía”, Secretariado de Publicaciones Universidad de Sevilla, 2015

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

Cinco movimientos en un gesto de aire

 

13:07
El contorno de la espalda, la llama de las sombras donde se guarda una caricia. Cuerpo con memoria, con cada dedo (sentidos del otro en cuerpo ajeno) el contorno relata la curvatura propia. Enunciar desde la proximidad la nomenclatura del deseo. Canciones, murmullos, los senderos que se establecen entre las grietas de las corvas. Hendiduras de tiempo, inclinación gestual donde se precipita la muerte. Huecos, musculatura, grasa en cráteres entre los huesos y la nervadura sanguínea que se niega a hablar: sílabas etéreas —susurro—: el sonido /torcedura/ de cada pliegue.

13:28
La circularidad de un pensamiento. Lo que el cuerpo acarrea en las venas (metáfora). Lo líquido de las bahías y cauces interiores. ¿Se esconde entre las corvas? Mirada perdida en horizonte exacto: liquen. Fragilidad de la costa en punto ciego. Atajo o viento que cubre el vuelo de cierta palabra. La mano cruza, toca el rostro apenas, apuntando hacia el sitio donde hay murmullos, sólo murmullos. La exactitud de un balbuceo interior donde la manera verdadera de las voces del padre se acumulan detrás del oído izquierdo. La blancura de la mano de Eleonora, que recorre los contornos de un elefante imaginario. Y esa sonrisa, esa media sonrisa de la comisura de su boca.

13:40
Se confunde el surco donde los cardos han dejado marcas. Rebalse. Cardumen de peces agitándose entre piernas. Ebullición de sangre en ramificaciones. Abrasiva. La marcha sobre el muslo se expande. Cada centímetro es inicio. Toda división, inexacta. Rebalse. Las hojas de los árboles caían encima de sus hombros. Entonces callaba el mundo.

_
▪ Rocío Cerón
(México, n. 1972)
in “Estación Poesía”, Secretariado de Publicaciones Universidad de Sevilla, 2015

Tenho um minuto para escrever este poema

Tenho um minuto para escrever este poema
Um poema que fala de amor e de um deus morto
A minha pena é uma faca de luz e sou o anjo do desespero
Com os dentes trituro a esperança e a tinta da boca
escorre pelas ruas cobrindo-me os ombros.
Sou a nuvem que sobrevoa o silêncio.
O meu voo é o abismo da neve que grita:
Obrigada, meu Deus, por não existires.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Inédito publicado com prévia autorização da autora



– Version by Lesley Saunders –

 

I’m taking a moment to write this poem

 

I’m taking a moment to write this poem
A poem that talks of love and of a dead god.
My pain’s a blade of light, I’m the angel of despair,
Between my teeth I splinter hope, the ink of my mouth
Floods the streets, runs down my shoulders.
I’m the cloud that scuds over silence.
My flight-path is the gulf of winter that howls:
Thank you, my God, for your non-existence.

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, b. 1945)
Unpublished
Version by Lesley Saunders (Poet and educationalist)