░ na lavoura os pais

na lavoura os pais
à semeia das mães
joeiram os filhos de
envolta com o grânulo
cereal lábios de sangue
escorrido entre as pernas
ânforas de vinho nunca
antes bebido traçado às
escuras em cochos curtidos
contendo o mênstruo doce
dos áceres no interior líquido
o estame amputado cerca
ao bojo regaço das mães
enquanto elas ausentes
amamentam os filhos por
abortar nos embriões da
terra o útero a céu aberto
os filhos enjeitados à feiura
à magreza triste dos cães
rente ao bordo das cantareiras
donde se vislumbram defronte
os cancros tumores brotando
ao dependuro das árvores
das tardes doentes mais as
velhas nos janelos a espreitar
cá para fora com os rostos
caiados de morte e uns olhos
póstumos a anteverem o fim.

 

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▪ Miguel Alexandre Marquez
(Lisboa, n. 1979)
in “Coda”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2016

░ De la calle del Arcángel con la música en el corazón

Te esperaré hasta el día de la resurrección
sólo por verte aparecer con ese vestido rojo entre la hierba.
Suena la trompeta, vibra la seda
y el ventilador girando como la rueda de la fortuna.
Es un ritmo demasiado alegre para el Juicio Final.

Regresas abatida
cuando los grillos cantan las completas,
pareces un alma recién llegada del purgatorio
-aunque digas que vienes de la calle del Arcángel
y que te golpeas el pecho
porque traes música en el corazón-

Si fueras una gota de sangre entre la lana,
una amapola florecida por confusión en los almendros,
no me sorprenderías tanto.
Pero es otoño
y el rojo tiñe hasta las plumas de las aves,
si sabes mirarlo,
y entre la hierba
las zorras te han copiado el vestido.
Como tú, vienen de la calle del Arcángel
golpeándose el pecho
con la música en el corazón.

 

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▪ Elena Soto
(n. Ponferrada, Espanha)
in “Invierno sin corazón” (Kernlose winter), Ediciones Torremozas, Madrid, 2015

░ LEITURA DO SER

Um texto inconcluso,
um pensamento em andamento,
potência em sua essência.

Aproximações infinitas,
tarefa em processo, avanço e retrocesso.
Incompleteza, com certeza.

Reagir, refazer, reescrever
– reformulando-se, revelando-se
na inconformidade do ser.

Que os textos se multipliquem,
frutifiquem, não se bastem;
sem medo de falhar,
sem acabar jamais, recomeçar.

Conquistar, dominar
– ou despistar.
Do outro lado do texto,
nas entrelinhas,
como um espelho
em que outros se vejam.

Ser sendo, lendo,
expandindo-se, outridade, releitura
enquanto dura. Só existe
o texto na leitura.

 

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▪ Antonio Miranda
(Maranhão BR, n. 1940)
Poema inédito publicado com autorização prévia do autor.

░ EN ESTES DÍAS DE FRÍO LONDRINO

en estes días de frío londrino apetece quedar en casa
abrir un libro cerrarlo para lo sostener en el regazo
quedar en la silla reposando un poco más
oír las hojas de los pequeños arbustos
mirar de nuevo la pintura al óleo que conozco bien
mientras va anocheciendo en el zumbido
de alguno insecto venido del jardín
o el tic tac del reloj que se cuela al corazón
en poemas de afecto
silenciosos
escondidos entre las manos

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “A Chuva nos Espelhos”, pág. 40, Editora Alma Azul, Coimbra, 2008
Tradução – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



 VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

nestes dias de frio londrino

nestes dias de frio londrino apetece ficar em casa
abrir um livro fechá-lo para o segurar ao colo
ficar na cadeira de repouso um pouco mais
ouvir as folhas dos pequenos arbustos
olhar de novo a pintura a óleo que seu de cor
enquanto vai anoitecendo no zumbido
de algum insecto vindo lá de fora do jardim
ou o tic-tac do relógio que se cola ao coração
em poemas de afecto
silenciosos
escondidos entre mãos

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “A Chuva nos Espelhos”, pág. 40, Editora Alma Azul, Coimbra, 2008

 

░ A pedra

A pedra
conserva o perfume do homem
seu gesto de cristalização cíclica
em busca de uma verdade solar.

A pedra
respira a paixão do excesso
pássaros e curvas de plenitude feliz
instrumento do oráculo.

A pedra
sangra de lucidez aflita
restitui o cântico
inventa o poema
ávido silêncio mineral
onde gritam gestos pacientes.

A pedra
é andrógina figura
atravessada de veias e rumores
ondulação das formas mais puras
entre rigidez e harmonia

sexo de mármore aberto
aos lábios do vento.

 
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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Olhar fractal“, Editora Ulmeiro, Lisboa, 1996

░ Partida de xadrez com Ivan Junqueira

Disseste a um jornal é absurdo morrer,
irmo-nos sem um deus, mas não sei outro modo
de viver e morrer; e também lhes dizias
um poente não é poente sem poesia.
Todavia, assentemos, é o sol que se esconde,
ou melhor, o rodar contínuo do planeta,
e por rodar assim é que nós respiramos,
a luz nos ilumina e partimos sozinhos.
Mas isso é já sabido antes do eppur si muove,
e neste tabuleiro onde jogo contigo
os meus peões e bispos os deuses inventados
há muito o xeque-mate nos destinavam, cínicos.
E quando começamos o jogo, pensativos,
quando me falaste é absurdo morrer só,
jamais nos ocorreu, para assim não morrermos,
nos bastava a alegria de um dia termos sido
altivos e distantes das mesas de xadrez.

 

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▪ Nuno Dempster
(Ponta Delgada, n. 1944)
in “Dispersão” – Poesia Reunida, Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2008

░ MUDANÇA

À força de me mudar
aprendi a não encostar
os móveis às paredes,
a não pregar muito fundo,
a aparafusar apenas o necessário.
Aprendi a respeitar os rastos
dos antigos inquilinos:
um prego, uma moldura,
uma pequena poleia,
que ficou no seu lugar
embora me estorvem.
Há manchas que herdo
sem as limpar,
entro na nova casa
procurando entender,
mais do que isso,
vendo por onde haverei de me ir embora.
Deixo que a mudança
se dissolva como uma febre,
como uma crosta que cai,
não quero fazer barulho.
Porque os antigos inquilinos
nunca morrem.
Quando vamos embora,
quando deixamos outra vez
as paredes como as encontrámos,
fica sempre um prego deles
nalgum canto
ou um estrago
que não soubemos resolver.

 

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▪ Fabio Morábito
(Egipto, n. 1955 – Radicado no México)
in “Un Naufrago Jamas Se Seca”, Ediciones Gog y Magog, Buenos Aires, 2011
Mudado para português por – Vasco Gato (Poeta e tradutor)

░ O futuro? Tem orelhas

O futuro? Tem orelhas,
mas é surdo. E é manco.
Se arrasta, sem espanto
mais alheio do que lúcido
com o nosso despreparo.

Se fosse um deus amava o humano, mas como não existe
o futuro tem de amansar seus ventos, marcando as peles,
as montanhas. Sendo um gênio, não é um exército
de cronogramas, nem de antecipações.

Tem firmeza de flor. E é
invisível, reconhecido
por seus efeitos de brisa
furacão. Nunca adiado.

Não tem nada a ensinar
no entanto é um mestre
dizem os esgrimistas
os observadores de saltos
os gatos também
aprendem certos truques com ele.

E se ama os despreparados
lhe sabem tanto os que fazem
quanto os que esperam.
Os otimistas valem mais
valem quanto?
Cem bifurcações,
sucessivas gerações
de bem-aventurados
que topam em pedras
cicatrizam e correm
bem alimentados
com fome de mais
alimento.

São seus sinais
os imprevistos, os cavalos
os pontos cardeais
os cinco sentidos
e os sete buracos da cabeça.

 

_
▪ Júlia de Carvalho Hansen
(São Paulo BR, n. 1984)
in “Seiva veneno ou fruto”, Editora Chão da Feira, Brasil, 2016

VII

Apparteniamo a una generazione senza giochi da prendere sul serio
i nonni sono morti. ci hanno rinchiuso per sempre in libri
dal cuore delle poesie hanno estratto petrolio,
hanno fatto delle barche una metafora che acceca gli occhi.

silenziosi e frattali gli orologi di assenti banchine
circolano senza grida nelle metropoli

non c’è chi ci faccia credere in bambole di pezza
né in trapezisti di legno da sognare

siamo diventati tutti così vecchi

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “De Amor Ardem os Bosques”, pág. 62, Edição de Autor, Lisboa, 2010

Tradução – Daniela Di Pasquale, tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.

 



PORTUGUÊS

 

VII

Pertencemos a uma geração sem brinquedos a sério.
os avós morreram. fecharam-nos para sempre em livros
do coração dos poemas extraíram petróleo,
fizeram dos barcos uma metáfora para cegar os olhos.

silenciosos e fractais os relógios de ausentes cais
circulam sem gritos nas metrópoles

não há quem nos faça acreditar em bonecas de trapos
nem em trapezistas de madeira para sonhar

ficámos todos tão velhos

 
 
_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “De Amor Ardem os Bosques”, pág. 62, Edição de Autor, Lisboa, 2010